quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Aprendendo e Vivendo II


O que te ensinou, o corte da lâmina?
O que aprendestes ao cair da escada?
O que sabes fazer, ao ter ficado de cama?
Que lição te passou, aquela perna quebrada?

O que sabes agora, com seus ferimentos?
O que pôde tirar, daquele tombo tão feio?
Já sabe o devido lugar, dos teus sentimentos?
Ou ainda há um coração burro em teu meio?

O que sabes agora, que foste enganada?
Que direção tu mudaste, após a traição?
Sabes mais hoje, depois de ter apanhado?
E o acidente, que levou teu irmão?

Aprendeste algo após emprestar sem poder?
E a votar, já aprendeste também?
Ser lesado e injustiçado, te fez aprender?
Ou segues de burro-de-carga de alguém?

O que te ensinou, ter se afogado?
O que aprendestes, ao brigar na rua?
O que sabes agora, após ter se drogado?
E viver uma vida, que não é a sua?

Sabes mais, por se apaixonar pelo cara errado?
Ou casar com a mulher que te tratava mal?
Aprendeste da vida, por ter confiado?
Viraste um sábio, ou só um cara normal?

Tem gente que aprende, tem gente que não.
Há quem se supera, e há quem se derrota
Tem gente que cai, mas levanta do chão
E gente que se perde e não acha a porta.

Publicado no Recanto das Letras em 28/02/2010

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um dia de segunda?

Como seria a segunda pra eles?
 A minha segunda-feira normalmente, é um dia bastante comum. Muita gente reclama, discrimina e massacra o pobre dia. Ancorados no tenebroso simbolismo da segunda-feira, surram essas 24 horas seguintes ao domingo sem a menor pena. Mas creio que levantar da cama já é ruim quando não se quer ir a lugar algum. Já tive momentos de saborear a liberdade de não querer (e não ir) a lugar algum numa segunda-feira. Mas já o fiz em uma quinta também. E foi bom. Na sexta eu ainda não tentei, talvez o faça um dia.

Mas a segunda, pobre dia. Tenho certa pena dele, ou dela. Dias da semana já tem uma vida bastante complicada. Têm nomes femininos, mas são masculinos. Tirando a sexta, que trabalha pouco, enrola muito, é festeira e sem limites, os outros cada qual tem lá seus pequenos dramas. Até o sábado, que sofre uma crise de identidade danada, por não saber se trabalha, estuda, descansa, lava o carro, faz compras ou vai à praia ou pra noitada. Muitas vezes tenta fazer tudo ao mesmo tempo, e passa o domingo desacordado. Mas de todos os dias, a segunda sofre mais. No seu trânsito murrinhento, a gente fica pensando onde ficam todos os automóveis que engarrafam a ida, mas não engarrafam a volta. Se faz sol, maldizemos seu nome preferindo milhões de vezes estar numa praia. Se chove, amaldiçoamos sua existência por nos receber tão mal em uma nova semana.

A única redenção da segunda é quando ela, por obra de um acaso calendárico, vem como feriado. É um caso sublime para a maioria, pois ela se torna um segundo domingo. Anulam-se seus defeitos e ao mesmo tempo, diferente de quando é ela a começar a semana, o dia seguinte não recebe seu mau agouro. Uma terça pós feriado na segunda jamais será uma segunda-feira. Todos vão à vida sabendo que é um dia a menos. Um dia ameno até!

Enquanto penso nisso tudo, vou tentando conviver bem com a pobre da segunda. Os dias passam, eu me canso e descanso, mas às vezes me dou conta das simbologias meio idiotas da nossa sociedade. E percebo o quanto é boa a sensação de que não preciso pensar igual. A noção de que não existem tantas diferenças entre os dias. Considerar que mais dignas de reclamação são as pequenezas das nossas cabeças limitadas, manipuladas e padronizadas. De quantas divisões burocráticas dessas mesmas 24 horas que perdemos reclamando dos dias que passam. Já fiz muita coisa boa numa segunda-feira, e numa terça, e numa quarta, em todos os dias, pra esquecer de que os dias vão correndo, mas que às vezes quem fica mesmo pra trás é a nossa mentalidade. Eu faço aniversário, curiosamente, junto com o Garfield, até gosto de lasanha (mas posso viver sem), só não acordo cedo porque durmo tarde, e não vejo porque odiar a segunda-feira.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Citação 001

"Para ser um gde amante é preciso aprendizagem e espontaneidade. Como em qualquer forma de arte, fazer sexo requer técnica e sensibilidade."

(Regina Navarro Lins)

Dois Sorrisos


Hoje perguntei ao destino
Se algo pode durar para sempre
Ou se a meu coração de menino
Cabe seguir por anos, contente

Será que a vida que se estende
Tão livre adiante, e tão estranha
É feita do que sozinho se aprende
Ou do quanto sozinho se apanha?

Desisti de encontrar as respostas
Resisti, quis tentar mais um pouco
Ainda que quisesse dar as costas
Antes que por fim ficasse louco,

Só abri meus braços uma vez mais
E fui ler lá no fundo do seu olhar,
Um espírito pedindo um pouco de paz
E dois corações querendo descansar.

E o difícil ficou mais fácil, mas não muito
O fascínio de um coração limpo, novo
A velha sensação do agradável tumulto
E a agradável vontade de contar ao povo...

E com calma, mas com carinho
Como alguém que foi premiado,
Eu, que antes sorria sozinho
Hoje estou sorrindo ao teu lado.

Publicado no Recanto das Letras em 07/02/2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

E as cinzas vieram antes...

© Gabriel de Paiva/O Globo
Aconteceu em uma segunda-feira de verão. Uma segunda-feira quente, muito quente. Trânsito truncado, época de volta às aulas. Primeira semana de fevereiro. No clima agradável que descrevo, outro fator que desde criança sempre me causou um certo desconforto já se anuncia. O carnaval está aí, batendo à porta. Assim aconteceu uma estranha coincidência. Uma semana antes eu pensei justamente no assunto geral dessa postagem: o carnaval carioca ser o símbolo do que o Estado do Rio se tornou. O carnaval, assim como o Estado, ser uma colagem amadora de interpretações, tocada por um povo que levou o termo “trabalhar à moda boi” ao ápice da exatidão, e com uma máfia qualquer exercendo poderes de decisão por trás das cortinas do espetáculo.

Já adulto, tentei mapear a origem de meu desgosto com a festa mais popular do Rio de Janeiro, e da maioria absoluta do Brasil. Lembro de na infância detestar os mascarados. Era medo também, medo primal de criança, mas mesclado a isso havia o ódio. Eu me lembro de ouvir minha mãe dizer que eram apenas mascarados, apenas garotos maiores fantasiados, mas não sentia assim. Na minha cabeça era como se fossem criaturas que renunciaram à sua forma humana para se tornar outra coisa. E ao se tornarem essa outra coisa, faziam com que eu me sentisse no direito de odiá-los a ponto de querer suprimir sua existência. Estranho e complexo isso, mais ainda talvez pra uma criança de quatro anos. Mas era o que eu sentia, vou fazer o que?

Mais tarde, veio o incômodo com a obrigatoriedade. Era uma semana onde se ouvia apenas um tipo de música no rádio. Tudo bem que fui criado na frente da TV, mas meus pais eram da época do rádio. Ouvi muito rádio quando criança. E na televisão, a coisa não era muito melhor. Os horários da programação mudavam. Eu encarava aquela coisa estranha a que chamavam de carnaval como um invasor que mudava de forma compulsória a minha rotina. E me impedia de fazer e ouvir coisas de que eu gostava. Na minha semi-roça infantil, a gente não tinha casa de praia pra escapar. Então, a minha revolta era mais do que justificada naquele período. Pelo menos enquanto eu ainda morava numa vizinhança em que não tinha uma criançada da minha idade. Depois disso, minha vivência de carnaval acabou tomando o rumo da pré-adolescência, onde o ápice da diversão era “jogar água nos carros”. Ficávamos na porta da vila, armados de bisnagas de lança-perfume (o de água, não aquele outro que era fácil de comprar no Paraguai), com as quais molhávamos a janela dos incautos que passavam na nossa rua. Uma vez ou outra dávamos sorte e conseguíamos molhar alguém de fato... E quando o cidadão parava o carro e fazia menção de nos perseguir? Cara, isso era o máximo da adrenalina infantil interiorana. Esporte radical de moleque morador do centro da cidade. Perdões, mas ninguém é perfeito.

Pulei a adolescência no que diz respeito a carnaval, porque aí eu já tinha descoberto que o gene folião não fazia parte do meu DNA. E já naquela época eu era meio avesso a gostar do mesmo que todo mundo, a querer ser muito igual, e coisas do tipo. Acabava procurando opção para aproveitar o tempo jogando bola ou fazendo algum dos passeios ou viagens que as amizades da época volta e meia proporcionavam. E vinham as primeiras saídas, aprender a beber, e as paqueras, e as festinhas, e nada disso tinha a ver com carnaval pra mim.

Cheguei à idade adulta, vim mais pra perto da metrópole e também do carnaval. Passei a ver o carnaval com mais senso crítico que tinha antes. Comecei a retornar ao sentimento primordial da infância e descobri que o que me incomodava não era o carnaval em si, mas o ter que engolir de forma tão compulsória o paticundum prugurundum como se quem não gostasse disso bom sujeito não fosse, tivesse problemas da cabeça ou alguma impedimento ortopédico. E comecei a olhar de outra forma para o famoso carnaval do Rio, tão famoso e tão magnético para turistas e todo um universo de pessoas. Comecei a ver o “maior espetáculo da terra” como um circo que curiosamente, é tão incompetente quanto fascinante. Não lembro de sequer um desfile das escolas do grupo principal onde não tenha acontecido algum problema com algum carro, alegoria ou em que alguma escola não tenha se levantado em fúria por ter se achado preterida ou injustiçada em algum momento.

Vejo as figuras de proa da administração carnavalesca, os donos das escolas, os presidentes das ligas, os carnavalescos, e fico abismado como se consegue sequer montar um desfile com figuras como essas comandando o show. Há que se ter muito dinheiro para cobrir os buracos. E no fim, meu pensamento retorna ao dia de hoje, à gigantesca coluna de fumaça que subia da cidade do samba. Pensei, com um desde já admitido grau de crueldade, que era benfeito. Me sinto cansado de ver coisas importantes, mesmo que não pra mim, mas para muita gente, serem administradas com incompetência, por máfias, por capitães, por bicheiros, por bandidos. Cansa ver todo ano ser elevado ao status de maior show da terra uma atividade mal profissionalizada, pós-artesanal, que recebe dinheiro de todos os lados, mas que ainda assim permanece ano após ano incapaz de colocar todas as suas alegorias na rua. Estou sendo duro? Acontece com qualquer show? Pode até ser, mas se fosse assim na Broadway aquilo lá já teria falido há muito tempo. Pegou fogo? Benfeito. Só gostaria que no trabalho de rescaldo, os bombeiros encontrassem um ou outro bicheiro ou presidente de escola de samba, irremediavelmente queimado junto com seus pensamentos e filosofias.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quinze pra Meia-noite

© Colin Brough

É tanta coisa pra fazer
Tanta vida pra acertar
É pouco tempo pra viver
E um novo tempo a cavalgar

Mais rápido que me lembrava
Sou resquício de outra hora
Um tempo em que me chateava
Com o tempo e sua demora

E se passaram alguns verões
Os tempos quentes aumentaram
Mudaram músicas, estações
Meus sentidos se ampliaram
Passei a sentir paixões.

Meu coração pegou no tranco
Em uma época de intermédio
Caíram alguns barrancos,
Morei em casa, morei em prédio
E a memória deu um branco.
(Pela primeira vez, eu sei)

Hoje lembro de ruas onde andei
Com passos de ansiedade
Lembro de curvas arborizadas,
Da Praça da Liberdade,
De outonos belos e claros
De invernos, passeios de carro
Lembro do fim de uma dinastia
Do fim de um tempo que só existia
Ali, e naquele momento
Congelado naquele frio
Conservado naquele vento
Mas que sobrevive até hoje
Impresso em meu pensamento.

Publicado no Recanto das Letras em 02/02/2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Verão, me dá um tempo?


Tem momentos na vida em que a mente pede desesperadamente um descanso. Não que a minha seja tão acelerada. Nem acho que seja. O descanso pedido aqui não é descanso dela mesma. Pobre da minha mente, não é tão culpada assim. E tem se comportado bem demais até, ultimamente. Ela quer descanso sim, é dessa realidade momentânea. Dessa realidade dura, incômoda. Uma realidade que se impõe demais, que invade a vida da gente sem pedir licença. Uma realidade que faz com que as tentativas mundanas de escondê-la por parte dos que estão próximos da nossa observação, pareçam tentativas tolas. Às vezes insultos à nossa já cansada inteligência. Por isso que às vezes a mente pede pra descansar.

O mundo é um lugar estranho, isso eu sempre soube. Tem momentos em que é possível gostar mais dele, em outros momentos se gosta menos. Algumas estranhices a gente suporta melhor, outras nos incomodam mais, mas de qualquer forma são onipresentes, as estranhices do mundo. Só que chega uma hora em que começo a querer muito que certas estranhices não existissem, ou que ao menos não me fossem impostas. Certos tipos de música. Certos tipos de clima. Certos tipos de padrão cultural... Certos tipos de assunto, que acabam se tornando uma espécie de agenda oficial da imbecilidade brasileira popular, e acabam estampadas na sua cara, você querendo ou não olhar para aquilo. E a pior sensação envolvida nesse processo em específico é saber que algumas dessas coisas são criadas especificamente para embriagar a mente de uma parte da sociedade. E a sensação que a gente tem ao descobrir que isso funciona? E quando sabe que não funciona conosco, mas com uma grande, majoritária parcela de todo o resto? Aí é a hora que a sensação de estranheza incomoda, e a gente fica com vontade de pedir para o mundo parar, que a gente quer saltar.

Sim, estou falando da mídia, estou falando do povão, estou falando de Big Brother Brasil, e estou falando do quanto me sinto um alienígena quando não me vejo representado nessa onda de imbecilidade que parece invadir nosso país a cada verão. Desde as "modinhas do verão" até os programas dos quais "todo mundo" fica falando, o incômodo é saber que por mais que você não dê a minima para essa estação tão incômoda, ela acaba te incomodando de um jeito ou de outro. Se o velho Vira-Latas entrou no modo "cão rabugento", o que me resta agora? Torcer pra que o calor não seja tão ridiculamente desconfortável, que eu tenha ao menos a liberdade de ler meus livros sem ter que ouvir um pagode xexelento como trilha sonora, e que houvesse uma enxurrada de lama não na Região Serrana do RJ, mas sim no Projac. Que levasse Boninho, BBBs e Bial, todos irremediavelmente embora da minha realidade.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Desacordos


Uma garganta rouca
A cabeça meio louca
E uma condição pouca...

Que mais pra calar minha boca?
Que mais para cobrarem de mim?
Que mais pra que seja assim?

E passam-se os dias, o ar sufocando
Num verão inclemente, subsaariano
Derretendo em suor cada um dos meus planos

E que me resta pra olhar nesse outro mundo?
Pessoas sozinhas, alheias no meio de tudo?
Almas corrediças, espíritos de grito mudo?

Que me resta pra fazer nesse calor febril?
Alinhavar profecias, com encanto juvenil?
Ou mandar certas pessoas para a ponte...
Aquela...
A que caiu.

Se a paciência me falta, não me culpo só
É culpa do bolo, do rolo, é culpa do nó.
Na boca do estômago e na garganta inflamada
Também é culpa dessa gente tão igual, coitada.

Acabo desejando a essa gente-cachorro,
Se comportando pior que os cachorros-gente
Se afoguem na limitação, e não chegue socorro.
Que tudo seja primavera pra quem pensa diferente.

Publicado no Recanto das Letras em 24/01/2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quando a lama começa a secar...

© Felipe Dana/AP - G1.com
Hoje, a lama que cobre a Região Serrana do Estado do RJ começa a secar. É uma lama fétida. E o cheiro de morte que dali emana não vem dos corpos das vítimas ou dos restos de vidas e lares que foram arrastados. Mais da metade dessa lama é política. A lama que serviu de veículo para as pedras, pedaços de árvores, veio misturada à água da chuva que cai todo verão (desde sempre) na região. Quem vê os nossos governantes fazendo cara de coitadinhos na TV pode até pensar diferente. Podem até pensar que a enxurrada que atingiu velocidades na casa dos 80Km/h, seja fruto apenas de um inclemente desequilíbrio ecológico. Outros podem pensar que as avalanches de água, terra e pedras enormes que destroçaram as vidas de famílias inteiras sejam algum tipo de castigo divino ou sinal de algum tipo de final dos tempos. Poucos imaginam o quanto mais prosaicas e próximas são as razões para que tantas almas tenham se perdido para a catástrofe.

Já tive a oportunidade em outro texto, de falar sobre como vivemos em um estado de máfias. São máfias na política, máfias no mercado imobiliário, máfias nos transportes, máfias de todo tipo. Não seria diferente na bucólica região serrana. O Imperador D. Pedro II já tinha conhecimento, através do Major Júlio Frederico Koeler (executor do planejamento urbanístico de Petrópolis) da necessidade de proteger as matas nas encostas. Estas dependiam da profundidade das raízes das árvores para diminuir a possibilidade de deslizamentos, o que acabava por limitar a área que podia receber construções na geografia típica daquela região. Já se sabia disso no século XIX. Chega a ser escandaloso que hoje, em pleno século XXI, mal cresça um matinho sobre uma área de deslizamento para que comecem a surgir barraquinhos novamente por ali. Há algo de podre no reino do Brasil, Vossa Majestade Imperial.

Entre o início da década de 80 e meados da década de 90, Petrópolis pulou de cerca de 180 mil habitantes para quase o dobro disso em menos de 20 anos. Cito Petrópolis em específico, por ter nascido e vivido na cidade durante todo este período, mas a mesma coisa aconteceu de maneira semelhante em toda a região. Foi neste período em que se iniciou uma política insistente de assentamento de pessoas em comunidades carentes, patrocinada por políticos locais. Era a onda do “cada barraco, um voto”. Conheci pessoas em Petrópolis que moravam em bairros anteriormente agrícolas, que após tantos assentamentos se tornaram favelas, nos moldes das que existem nas maiores capitais brasileiras. Esses mesmos novos moradores, ao ouvir alguém falar mal do político responsável pelo inchaço naquela região, chegavam a brigar com quem levantasse dúvidas ao caráter do tal político. “Doutor Fulano foi quem deu o tijolo para eu construir meu barraco”, cheguei a ouvir uma vez. Assim acontece até hoje. Há políticos que conseguem votos e mais votos prometendo dentaduras a desdentados, mesmo que, simbolicamente entreguem 1 único dente a cada 4 anos. É fácil. Brasileiro não pensa. Brasileiro só reage.

Os mesmos políticos que assentaram muitas pessoas na região a título de criação de currais eleitorais, também possuem seus esquemas com a máfia imobiliária. Tornou-se fácil contornar leis ambientais e conseguir permissões para construir em locais que fariam o velho D. Pedro II arrepiar a barba. A partir do momento em que certas regiões da serra se tornaram destinos turísticos valorizados, a possibilidade de lucros atraiu as varejeiras mafiosas a esse suculento pedaço de carne. O que poderia se chamar de parceria público-privada-profana neste caso foi simples e eficiente. Bairros inteiros foram criados, casas de campo para a classe média-alta e alta, e mais assentamentos de populações menos privilegiadas em torno, afinal os mais ricos precisam de empregados, como sempre. Até que um dia, literalmente a casa caiu. Ou para ser mais exato, foi arrasada, destruída pela enxurrada.

Morreram ricos e pobres, humanos e animais, adultos, jovens, velhos e crianças. E a lama que vimos não é nem de longe a mesma que se vê nas encostas da região. É outro tipo de lama, aquela lama fedorenta, a mesma que cobre o chão de Brasília, a mesma que permanece invisível aos olhos de uns, mas evidente aos olhos de uns poucos. É a lama podre da qual nasce a política nacional. A lama da nossa falta de consciência. A lama do sentimentalismo sem pensamento. A lama da reação sem planejamento. A lama de quem reúne donativos para outros roubarem. A lama de quem tem piedade pelo próximo mas que não tem consciência de que a realidade só melhora com uma mudança de pensamento. E pensamento é o que mais tem feito falta na cabeça do brasileiro. Em especial na do povo do Rio de Janeiro. Em breve, a lama vai secar, a serra lamberá suas feridas, e se voltará a falar em futebol, Big Brothers, novela das 8, e o onipresente pagode com churrasco no fim-de-semana... Pobre população de bovinos, que ora pasta alegremente, ora é obrigada a rolar na lama.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Trabalhadores do Meu Brasil


Sonhei que o dia chegava
E tudo vinha mais fácil
Era o destino que me pagava
E ainda breve esperava
A minha vida tão dura
Tão suada e sacudida
Essa vida bandida
De quem trabalha sem futuro
De quem perde a saúde na lida
De quem dá todo dia duro
Sem saber de sua guarida

Sonhei que a noite chegava
E o descanso me bastava
E a dor, essa não tinha
E que a nega me sustinha
E os filhos me chamavam
E eu ria com eles na sala
E a coisa toda ia bem
E não devia nada a ninguém
Mas a vida não é assim
Não tem tanto pra mim
Não tem razão pra gemer
Mas não tem razão para rir
Só tem razão pra viver

Sonhei que o domingo chegava
E o som de passarinho cantando
E o barulhinho do café passando
Me dava um pouco de alento
Mas no meu tanto de sofrimento
É um domingo que passa
É mais um dia que vai
É uma vida quebrada
Que nem a pedra da vidraça
Da janela de meu pai
Que um dia eu quebrei
E que apanhei e chorei
E aprendi a ser homem
E a carregar meu nome
Com respeito e tristeza
Porque se o respeito existe
Existe mais a pobreza
E dessa, eu sei bem...
Nela eu vivo, me agüento
Trabalhando como jumento
Não importando qual empresa

Até o dia que cairei de cansado
Se vou morrer de repente
Ou se com a mulher do meu lado
Ou com os meninos em volta
Só Deus quem sabe, e Nossa Senhora
O dia certo e a minha hora
E o lugar que eu vou quando for embora.

Publicado no Recanto das Letras em 27/11/2008

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mariposa

© Pixdaus.com

Gentil e suave mariposa,
Cegaste meus olhos
com o pó de tuas asas?

Porque tornaste meus dias
Cada vez mais embaçados?

Por onde voaste, leve peregrina?
Que mágoas e prazeres carregas,
E que ardores habitam teus pensamentos?

É essa mágoa que hoje me cega?
Ou é um prazer fazer meu olhar
Tornar-se esse confuso jogo de sombras?

Quando eu era criança
Tantas vezes temi encontrar-te
Tantas vezes fugi de ti.

Mas ainda assim admirava-te à distância
Hipnotizavam-me os olhos que carregas
Em cada uma de tuas asas.

E hoje, tamanha ironia
Eu por vontade própria, por total querer

Me abandono ao teu vôo incerto,
Me afeiçôo ao teu silêncio ancestral

E sonho contigo em vôos noturnos
E ao acordar, envolto em penumbra
Esfrego meus olhos, tal fazia em criança

E minha visão se vai,
Mesmo eu acreditando em seu sorriso,
Na suavidade de suas asas
E na paz que suas promessas trouxeram.

Publicado no Recanto das Letras em 11/01/2009

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Cachorro Molhado

© Eirik Solheim
Certa vez vi um cachorrinho
Correndo da tempestade
Corria entre as pessoas sozinho
Queria abrigo na verdade

Um vira-lata perfeito,
O pelo um pouco sujo, vá lá
Nada que um banho não dê jeito
Saudável, olhar aceso, a brilhar.

A chuva ameaçava cair
E o canino, pra lá e pra cá
Sem saber bem pr’onde ir
Querendo num canto ficar

Achou um caixote de papelão
Encostado numa calçada
Passou no meio da multidão
Sob o som das trovoadas
Mas o abrigo não deu não...
O vento levou, de revoada.

Correu, os primeiros pingos caindo
Um terreno abandonado, um poste
Perto de uma rua que ia subindo
No meio de umas coisas, caixote.

Tentou se ajeitar, era de madeira
Esse, o vento não ia levar
Mas furado, de qualquer maneira
Deixava a chuva passar.
Saiu de novo, não achava lugar

Ficou na rua, ali, desconsolado
Com aquela cara mais que peculiar
Típica de cachorro molhado.
Naquele aguaceiro a despencar
E assim, muito de mau jeito
Num banho bem do improvisado,
Mais limpinho, aquela cara de pena,
Foi por alguém resgatado.

Pois que passava uma moça, e o viu
Com aquela cara de “me tira daqui”
Pegou nosso amigo no colo e partiu
E hoje, ele passeia no sol por aí.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Máfias e Caos Sob Um Sol de 40 Graus

Praça da Bandeira Alagada. Em  1940.


Início da década de 90. Quando Fernanda Abreu lançou sua famosa música “Rio 40 Graus”, uma parte da letra atraiu muito minha atenção. Não era uma artista cujo trabalho me despertasse grande admiração. Naqueles idos de 1992, eu pouco tempo depois de entrar pra faculdade, gostava mais de rock’n roll puro e simples. Fernanda era artista “de rádio”, do mundo pop, mas essa música em especial me fez pensar sobre aquele Rio de Janeiro que eu começava a conhecer e por causa da faculdade, freqüentar seis dias por semana. Depois de ter nascido e sido criado no ambiente ainda bastante interiorano da minha cidade natal, era um pouco intrigante ainda ouvir uma música falando tão bem/mal do Rio.

Até então eu me lembrava do Rio cantado apenas como a Cidade Maravilhosa. Não tinha contato mais próximo ou marcante com qualquer outra música que falasse do Rio não-maravilhoso. É claro que eu sabia que o buraco de bala era mais embaixo, mas não através de letras de músicas. Até prestar atenção na letra da Rio 40 Graus. O purgatório da beleza e do caos cantado por Fernanda era algo muito pertinente, uma observação esperta (ixxxperrrrta) do que o Rio de Janeiro passou a ser durante os anos 80, já emergindo com força nos 90. A bolha de pus tinha crescido, era hora de estourar. E a letra falava justamente disso.

Um aspecto da canção que desde aquela época me impressiona é o momento em que se fala das máfias, submáfias, dos governos paralelos, submundos e comandos. Talvez seja essa a característica do universo do Rio de Janeiro que mais represente o atraso do estado. Talvez seja uma característica tipicamente brasileira, alguns diriam. Mas não há como se livrar a cara do Rio nessa. Assim como os peitos e bundas no carnaval, as máfias e submáfias, os comandos, submundos e governos paralelos, podem existir em qualquer lugar do Brasil. Mas é aqui no Rio que eles aparecem no auge de sua sem-vergonhice, que rebolam ostensivamente sua impunidade. Andam com pouca roupa, dão mole pra quem quiserem e são esfregados na sua cara, mais do que em qualquer outro lugar no país.

Vivemos no estado do governo paralelo das mulheres que querem ser tão “malandras” quanto os homens. Vivemos no estado em que as empresas fogem para não pagarem mais impostos à máfia dos fiscais do que já pagam ao governo. Vivemos no estado onde o comando das boates de luxo paga um gaiato na Ilha do Governador para preencher garrafas vazias de Chivas Regal com Old Eight. Vivemos no estado onde alguém lucra tanto com o tráfico de drogas que consegue calar a boca de governadores, polícia rodoviária, autoridades portuárias, clero, exército, marinha e aeronáutica. Vivemos na terra abençoada por Deus e bonita por natureza, que produz mais lixo que a bem mais populosa e inflada São Paulo. Vivemos na terra dos que se orgulham de ter praia no quintal, mas que nesse lugar tantas vezes cantado como democrático, deixam toneladas e toneladas de lixo e falta de educação a cada fim-de-semana. O Rio não é o berço da máfia, mas os italianos tem lições a aprender conosco. Há 500 anos a terra de São Sebastião acomoda também a mais pura inércia dos não-mafiosos em suas ruas inundadas no verão. Aqui, servindo aos mafiosos vive um povo que quer ser mafioso também. Um povo que gosta de sambar na lama da enxurrada, driblar com galhardice os sacos de lixo que boiam na mistura de água e urina de foliões carnavalescos.

O que esperar de um lugar que foi capital, e ainda exibe o ranço amargo daqueles que perderam um cargo? Não que o “Ridijanêro” tenha que se preocupar, afinal está sendo substituído no cargo de Distrito Federal da filhadaputice com mérito extremado por Brasília. Mas ainda assim, a terra dos 40 graus não se emenda. Mesmo sem a obrigação de ser a capital do Império, continua-se aqui infelizmente sob ares de terra imperial deixada sob a responsabilidade de um regente. E um daqueles regentes do tipo gerente de empresa antiquada. Nunca está, nunca aparece, só recebe sua parte e sabe-se lá Deus onde passa o resto do tempo. No fim, a empresa não é dele. Aliás, ele nem sabe quem é o dono. Nem nós sabemos. Do Rio de Janeiro? Não faço a mínima idéia. Se esse lugar puder ser considerado terra de alguém, eu desconheço o proprietário.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Black Swan


Darren Aronofsky conseguiu de novo. Já não é de hoje que o diretor chega como quem não quer nada e apresenta em mais um de seus filmes, normalmente produções de orçamento modesto (levando em conta o gigantismo das cifras hollywoodianas), com tramas muitas vezes simples, e acaba por arrebatar corações e mentes nas salas de exibição. Apoiado em roteiros espertos, atuações precisas e competentes, e com uma direção orientada a um cinema bastante puro, onde todo o aparato tecnológico, cenográfico e humano está direcionado à mais primordial das necessidades da sétima arte: contar uma história.

E neste Cisne Negro (por mim carinhosamente apelidado numa piada interna de “A Galinha Preta”), o cara conseguiu mais uma vez. Eu já tinha sido acertado por ele na boca do estômago por Réquiem Para um Sonho. Um filme forte, onde despido de todo o melodrama, trocado sem pena pela mais pura contundência ao tratar do assunto do vício e a fuga da realidade. Fui conquistado em O Lutador, pela precisão e pela capacidade de contar a mais prosaica das histórias de uma figura do cotidiano, através de uma pequena poesia urbana que é a vida de um personagem quase marginalizado, e mais, tirando uma atuação espetacular de um já desacreditado Mickey Rourke.

Através da história da bailarina que está prestes a ser alçada à posição de estrela da companhia, prestes a estrear uma importante montagem de O Lago dos Cisnes, o filme nos joga de cabeça na espiral de loucura que se torna a vida de Nina, interpretada por uma Natalie Portman perfeita. Através dela, assistimos a normalmente obsessiva rotina da busca pela perfeição no balé clássico. Vemos sua vida ao lado de uma mãe ex-bailarina e opressora, que não se furta a fazer o velho jogo do “larguei tudo por você”. Acompanhamos o stress das exigências do preparo de um grande espetáculo na sua cabeça insegura e com precária estrutura emocional. Acompanhamos o choque entre sua personalidade submissa e a chegada de uma concorrente extrovertida e igualmente competente. Todas essas nuances torturantes nos são mostradas com precisão, à medida que tudo começa a ruir em volta de Nina, tanto a sanidade, quanto o tempo, e seu próprio eu. E créditos à atuação de Natalie, que consegue transmitir todo o inferno emocional de sua personagem sem se apoiar somente no texto, já que o roteiro é muito mais focado na emoção percebida e no subtexto do que no texto propriamente dito.
Adicione-se a isso a trilha sonora, a ambientação, os efeitos especiais perfeitamente submetidos à tarefa de ajudar a contar a história (e jamais o contrário), e a maestria com que o filme costura tanto os elementos do roteiro quanto as performances dos atores. Esses toques magistralmente colocados, também contribuem de maneira fundamental para tornar a Galinha... ops... O Cisne Negro uma grande experiência de cinema. É o tipo de filme que gostando ou não, dificilmente deixa quem assiste impassível. Mais um golaço do diretor, um filme que merece ser assistido.

Temporais de Janeiro

© thedailygreen.com

Há dias em que preciso dizer não ao cansaço
Em que preciso correr do desconforto
Dias em que preciso receber um abraço
Mesmo que seja da memória de um morto...

Há dias em que tudo parece fechado, sem saída
E ainda assim eu sorrio, olho as nuvens e o mar
E continuo caminhando, no calor da avenida
Mesmo quando a chuva ameaça despencar

Há dias em que a minha rotina se inunda, alaga
E meus sonhos flutuam, sacos na enxurrada
E mesmo assim minha alma ainda se indaga
Se quando o sol voltar, ainda estará ali a estrada...

Nos dias em que o suor escorre e tudo é calor
Sufocado, e limitado por razões a escolher
Invento poesias pra amenizar minha dor
E por bem ele aceita, pra parar de doer

Nesses dias em que tudo que conta são mágoas
E tragédias, fracassos e pontes partidas
Eu ignoro os destroços, e mergulho nas águas
E resgato algumas esperanças perdidas

E sigo assim, defesa civil de meu próprio eu
A salvar alegrias ilhadas, e sorrisos perdidos
Ou algum sentimento que alguém esqueceu
Na seção de triagem dos meus donativos

E quando o período das chuvas se for
Os moradores voltando para as suas casas,
Procurando cada qual consertar seu amor
E deixando seus sonhos secarem as asas.

Publicado no Recanto das Letras em 28/01/2010

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Inconstância

Inconstante é a minha vida,
A minha lágrima escorrida
Tão duramente parida
Por uma raiva sofrida

Inconstante é o meu alento
Que chega quieto, vai pro canto
Voa, esvai-se com o vento
Me deixa a sós com meu pranto

Inconstante é o meu querer
Paradoxo constante, tão certo
Que me alfineta, sempre por não ter
O que, e quem eu quero por perto.

Inconstante é meu passado
Que mesmo por ter caminhado
Em meu passo lento, cuidado
Me faz sentir todo dia,
Que errei, que estou enganado

Inconstante é meu presente
Que faz meu peito dormente
Bater meu coração de presente
Bater com ritmo de bebum
Baixo como pia o mutum
Ofertando-se barato
Deitando-se em qualquer prato
Fosse então eu, qualquer um

Inconstante é meu futuro
Um rio de inconstância a passar
Um olhar por cima de um muro
E um destino que dá medo olhar

Inconstante é tudo na vida
É a lágrima, é o rio, é o coração
É a chegada, é a partida.
Inconstante é o local da ferida,
Inconstante é a certeza e o perdão.

Inconstante sou eu e o meu sofrer
Inconstantes somos, sofremos.
Inconstante é a felicidade e o prazer
Assim, Inconstantemente, vivemos.

Publicado no Recanto das Letras em 13/09/2009

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

A Vontade de Mudar

© itsallonething.com
 
Há tempos um assunto tem percorrido os becos da minha mente, mas escapa toda vez que tento ter uma conversa mais séria com ele. Já conversei com ele algumas vezes no passado, e mais recentemente tenho visto sua figura várias vezes de longe. Sei que ele anda perambulando pelas partes menos iluminadas do labirinto das sinapses. Ora tomando umas e outras num bar de neurônios, ora olhando vitrines na alameda da distração, mas o resultado é sempre o mesmo: quando ele pode, eu estou com pressa; quando eu posso, ele desaparece. Hoje pensei no assunto novamente, e ele estava atipicamente disponível para conversar. Resolvi tomar um café da manhã com esse assunto, que atende pelo simpático nome de “vontade de mudar”.

Não devemos nos enganar pela simpatia, vou logo avisando. É um assunto deveras espinhoso. Já outras vezes não apresenta espinhos, mas mostra ser duro a ponto do impenetrável. Outras vezes é liso e escorregadio, impossível de segurar. Dar-lhe uma prensa então, encostar na parede? Nem a pau. Pra conseguir um diálogo com uma coisa tão difícil, só como eu fiz mesmo... Espera-se um dia que o assunto esteja de bom humor, senta-se numa mesa com o café colocado e aproveita-se a oportunidade. Na maioria das vezes, a experiência vale, pelo menos pra quem tiver os ouvidos atentos para o que a vontade de mudar tem a dizer.

Em uma das conversas que já tivemos no passado, ele me contou que as pessoas nesse mundo louco dos dias de hoje o tem interpretado muito mal. Desistiram de encarar a vontade de mudar, e é cada vez mais difícil encontrar quem tenha a capacidade de jogar com ela. Alguns abandonam a vontade de mudar, tratam-na como se fosse um veículo impossível. A mudança deixou de ser algo desejável de ser conquistado. Ou se compra, ou não existe. E a vontade de mudar me contou que hoje em dia há tantos impostores por aí... Ilusão, descrédito, teimosia, burrice, padronização, cultura de consumo exacerbado, falta de responsabilidade, falta de noção. Isso só pra citar alguns mais frequentes. Todos eles circulando nos mesmos ambientes que a vontade de mudar freqüenta, alguns até se metendo em seus negócios. Isso foi deixando a vontade de mudar mais arisca com as pessoas... E as pessoas mais ariscas com a vontade de mudar.

Já a conversa de hoje foi um tanto rápida. Afinal, era apenas um café da manhã. Tanto eu quanto a vontade de mudar tínhamos diversos afazeres pelo dia afora. Mas nosso café foi proveitoso, pois ela me contou que não gosta muito de morar no cérebro. Na verdade, cientificamente, tudo mora no cérebro. A vontade de mudar sabe disso, eu sei disso todos sabemos. Mas simbolicamente, ou a título de efeito prático, é melhor que não more. A vontade de mudar gosta de nascer no cérebro, gosta de ser educada por ele. Gosta da sofisticação que o ambiente cerebral lhe confere. O cérebro torna a vontade de mudar uma coisa factível. Mas é nas entranhas, é nas vísceras, é correndo no sangue que ela se realiza. Ela me contou que esse é um de seus maiores segredos. Ter nascido e ser preparada no cérebro a faz alguém digna de ser ouvida. Mas é só quando grita através de algum órgão, ou até de mais de um, ou até do corpo todo, que a vontade de mudar se sente possível. E mais real também.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

A Alquimia do Ser Vivente

©2010-2011 Andy Park

Quando a espuma das ondas tocou seus pés
Lavando um pouco da areia da praia,
Enquanto ele caminhava, sem pensar no tempo
Como se andasse no convés de um velho navio
Preocupado, ao ouvir no abafado som do mar
O prenúncio de uma perigosa calmaria...
O experiente marujo estudava as nuvens, o jeito do ar
E na verdade se preocupava, pois a falta da tormenta
Era para ele o prenúncio da morte.

E tinha tanto, tanto medo de morrer.
Ele, que viveu tantos anos, coração sempre aos saltos
Ele, que aprendeu a por esse mesmo coração num altar
E jamais questionar nada que fosse que dali viesse,
Hoje tinha medo desse mesmo coração lhe falhar...
E voltava a esse seu deus interior toda força de sua prece.

Ele que tinha amado tanto, a tantas mulheres,
Carregava cada uma como um precioso tesouro.
Mal sabe que a cada uma, por prateados talheres,
Teve sua lembrança apagada, por perfume e por ouro...
Mas ainda assim se enganava, ainda assim se iludia.

Em certo momento, no caminho na praia...
Um anjo do céu lhe apareceu.
Trajava um capote e em vez de auréola, um chapéu
E trazia nas mãos um caduceu.
Era um anjo-alquimista, era um mero plebeu...
Mas ao seu lado caminhou e a conversa que veio,
Fez o homem escutar, e pensar sem rodeios.

O anjo falou das diversas esferas...
Da mágica união, entre o saber e o sentir
Deu ciência da luz, de Trismegisto, e das feras
De procurar o que passou e o que está por vir.
Falou do quanto nos prendemos a idéias
Que nos engessam, que nada transcendem
Que perseguimos como os lobos nas alcatéias
Aceitando embrulhadas do jeito que nos vendem.

E o homem que ria, chorava, e com o tempo se preocupava
Pensou diferente, talvez mais um pouco
No quanto aquela saudade do nada lhe pesava
E nas tantas vezes  que se acercou de ficar louco
E mais que pensar, passou a sentir
Não aquela paixão selvagem de um músculo controverso
Sentiu outra coisa, subiu aos céus e desceu à terra
E aprendeu que de um lado só, não é o inverso
É na duplicidade, cabeça e coração, que se encerram
Os segredos da vida, do amor, e de todo o universo.

O Fantasma da Esperança


Uma das características míticas do brasileiro é a tal da esperança. Ela flutua no imaginário e no coletivo da nossa sociedade de maneira quase espiritual. Para uns, mais identificados com o que se espera da tipicidade tupiniquim, ela assume um ar de fé, de crença quase religiosa. Acaba virando aquela coisa sobrenatural em que se escoram com simplicidade e credulidade muitas e muitas pessoas. Para outros, ela é outra coisa. Entre esses outros, há os que se rebelam em vestir a carapuça das características que nos são impostas. Temos os que não conseguem ver graça no pacote samba-praia-carnaval-futebol. Engrossam o time os que cospem no prato que comem porque nele acabam vendo mais jiló do que filé mignon. Tem também a turma que cresceu influenciada pelo pensamento de que “lá fora” tudo é melhor, como se lá vivessem seres de outro planeta, incapazes das mesmas mediocridades que nós. A todo esse heterogêneo apanhado de revoltados com o ser brasileiro, a esperança é mais uma das características que gostam de desprezar, por força da política de suas preferências.

Daí que toda vez que há uma mudança de governo, de presidente, de síndico do prédio, de técnico do clube de futebol, de gerente na empresa, de vereadores, prefeitos ou deputados, a esperança volta a baixar nos terreiros. A esperança boazinha e etérea, quase inacreditável daqueles primeiro grupo, ou a maldita esperança fantasma, aquela que os do segundo grupo se esforçam para odiar como parte do ser coletivo tupiniquim terceiro-mundista que eles amam odiar. E em qualquer um dos casos, há razão para tal. A esperança é etérea nos dois casos, intangível e inócua. Ambos estão com razão, um por acreditar na esperança como uma superstição, e outro por desacreditá-la como uma balela. Ambos acertam porque se analisarmos como a coisa toda funciona, não há espaço para esperança quando se fala de política – de qualquer tipo não só a governamental – no Brasil. Somos um país político, e política e esperança não são excludentes, apenas profundamente incompatíveis.

O Brasil é um país planejado. Muito bem planejado, diga-se de passagem. Para dar certo pra poucos e errado para muitos, e funciona como um relógio. E é justamente no funcionamento desse relógio que a tal da esperança tem apenas uma função decorativa, jamais interferindo com a máquina. Até a esperança foi planejada para ser como é por aqui. Vivemos em um país fundado em alicerces sólidos. Alguns desses alicerces atendem pelos nomes de burocracia, favorecimento, paternalismo, visão de curto prazo, nepotismo, desprezo à meritocracia, corrupção endêmica, “puxa-saquismo” e “quem indica”. São conceitos que passaram (e continuam) incólumes por toda a História da Terra Brasilis, da colônia à república. Não espanta que nenhum tipo de esperança, desejada ou não, consiga sequer arranhá-los.

Como é típico dos que pretendem olhar de fora, não me arrisco a tomar partido de nenhum dos dois grupos que abordam de maneira oposta a esperança que existe de que tenhamos dias melhores, seja em casa, seja na cidade, seja no país. Só consigo pensar que o sistema só muda de dentro. E como todos nós continuamos os mesmos, sejam os resignados, sorridentes e bovinos da massa de manobra, sejam os revoltadiços, os pirracentos e tantas vezes equivocados que dizem odiar isso aqui como adolescentes brigando com os pais, não vejo mudança tão cedo. Até nisso o projeto foi terrivelmente bem construído. Cabe o contentamento com pouco de uns, o descontentamento inócuo de outros, e a eterna permanência do status quo do projeto original: explorar, destruir, sugar tudo que há de bom, não ver o que poderia ser muito melhor, e ir gastar tudo lá fora, provincianamente. E assim segue o carro de boi, mais de quinhentos anos depois.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Preparação

© Dragonfly Images

Não houve a intenção,
Ó bela interlocutora
De passar essa impressão,
(ainda que sedutora)
De ser tão autossuficiente,
Ou de ser tão autocrente,
(Crente que já sou gente)
E o mundo que me agüente?

Não...
Não foi essa a intenção.

Não foi por certo ou calculado
Ter nascido tão fadado
A incomodar pelo que digo
Mesmo quem não é inimigo...
Não foi de caso pensado
Ter sido assim moldado
Pelos erros e acertos passados
E desses eventos ser resultado

Não me é motivo de vergonha...
Mas de orgulho também não é
É só o caminho das coisas
É por onde andaram meus pés

Não me vejo contando vantagem
Nem preciso ser humilde demais
Sou apenas um sujeito em viagem
Rumando de cais para cais
E se não parei muito na maioria,
Não foi por falta de vontade
É que nem sempre o lugar me queria
Eu estar lá não era necessidade.
E sem ressentimento eu partia
Me dirigindo pra outra cidade,
Onde houvesse alguém que sorria
Ao me ver aportar com saudade.

Depois de muitas viagens eu digo
Que não sou, nem me acho, não
Tenho no peito batendo um amigo
E na cabeça, funcionando um irmão
E digo, tudo que aconteceu comigo
Nada mais foi, que uma preparação.
Para o quê? Ah, mais tarde eu te digo.
Antes, vem aqui e me dê sua mão.

Cômico Cosmos

© NASA
Desci até os confins de meu ser
Embrenhei-me entre ossos,
Nervos, tecidos
Diferentes ou parecidos,
Desci ainda mais,
Desci demais.
Passei da alma,
Passei da palma...da mão
Passei muito, muito mais
Vi um átomo correndo
Resolvi correr atrás
Acompanhei-o
Ao pub das Moléculas,
Elétrons Prótons, Táquions
Simpáticas, Subatômicas partículas
Receberam-me bem
Conversaram comigo
E me mandaram além.
Disseram que no espaço
Após desfeitos os laços
Além do princípio,
Além do fim,
Havia uma resposta pra mim,
Então eu fui. Desci mais e mais
Virei a realidade ao avesso,
E o que encontrei atrás?
Nebulosas,
Cometas,
Galáxias frondosas...
O velho universo de sempre,
Que deu a volta na existência
E no espelho das aparências
Fechou a curva da infinidade,
E me mandou de volta pra casa
Me sentei num meteorito,
Descansei, (e cansei de dar risadas)
Pensando em como é bonito
Procurar em largas passadas
Vagando pelo infinito
Resolver algum mistério,
Quando não sei nem a sério
Pescar Deus, e suas piadas!

Publicado no Recanto das Letras em 18/05/2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O Bem-Entendido

© Travelpod.com

Há coisa de um momento
Eu não queria mais sentir.
Questão de instantes,
Em que só queria fugir
Deixar pra trás essa terra
Essa cidade, escapulir
Dessa gente que só erra
Que só sabe se distrair...

Há menos de um minuto
Eu queria mais que tudo
Poder tirar o traje de luto
Essa minha roupa tão sóbria
Toda a desculpa que me sobra
Pra não virar um prostituto
Pra não me perder como eles
Abandonar meu olho arguto
E amansar meu instinto feroz.

Há pouco menos de um instante
Abandonei meu modo educado,
Eu deixei de ser um galante,
Que ficava incomodado
Com os modos deselegantes
Dessa gente tão barulhenta
De coração tão arrogante
Com consciência tão curta,
E insegurança gritante.

Mas uma fração de segundo passada,
Numa visão, num lance de vista
Cortaram meu sono à espada
Chamaram meu nome na pista...
E tive que voltar à arena,
Não pra lutar, mas me perguntaram
De que tão cansado eu estava,
Que tipo de ferida me causaram
E de que tormentas me afastava.

Numa troca de olhares cansados
Brilhando o desejo de afastamento
Dessa multidão de humanos errados
E numa busca por mais entendimento
No final luminoso de uma certa tarde
Os dois olharam numa mesma direção
Sem menor escândalo, sem nenhum plano
Quietos, qual a batida de um coração
Entenderam, há todo um mundo de engano..
Mas de bom mesmo, só uma intenção.

Então sorriram, e deram as mãos.

Publicado no Recanto das Letras em 28/12/2010

Resoluções de Ano Novo

© Google

Bom dia, muito obrigado pela atenção
Desculpe incomodar o silêncio da sua viagem
Trago aqui na promoção
Um pouquinho da minha verdade,
E um panorama da sua ilusão.

Aqui, só aqui na minha mão,
Tenho a mesma ambição que você
Aí fora custa muito mais,
Só vocês é que não podem ver.

Por isso essa minha cara de fome
Por isso essa minha falta de jeito
Mas eu sou sujeito homem,
Não querendo lhe faltar o respeito,

Vim dizer que eu quero mais
Muito mais do que eu tenho agora
Quero tudo que deixaram pra trás
Quero tudo que vocês jogam fora.

Quero tudo, sem pudor nenhum.
E se for pra sobrar, que me sobre algum.
Eu podia estar roubando,
eu podia estar matando, mas não.
Estou aqui, humildemente
Pedindo sua atenção.

O que eu quero não é nada demais,
Quero o carro que seu filho bate toda semana
E não me xingue, não me odeie mais:
Quero a grana que sua filha gasta com pó,
O “din-din” do whisky e da pílula, aliás
Que a senhora usa pra não se sentir tão só.

Quero aproveitar o que eu posso
Com as coisas boas que vocês tem
Porque mesmo isso não sendo nosso,
Vocês não sabem usar também...

Vou desperdiçar a minha educação
Enquanto me botam pra fora da lotação.
Mas não se incomode, um dia eu volto.
E não se espante se eu me revolto.
É que cansei da incompetência de vocês
De sentar na janela e não saber usar a vez.

Menos preguiça, menos, menos
Menos atropelo. Mais zelo, mais, mais.
Mais cuidado, concentração.
Mais sentimento, mais paixão.

Que caia do céu, não tenho vergonha
Direi para todos: sou aquele que sonha
Mais dinheiro? Mais, mais, mais mesmo.
Sabes que não vou gastar a esmo.

Mas agora eu vou partir
Agradeço pela atenção
Espero que o meu pedido
Encontre compreensão
E amanhã, numa virada de um outro ano
Eu já não esteja mais aqui,
Que eu já seja considerado um ser humano.
Com direito de cantar e sorrir.

Publicado no Recanto das Letras em 01/01/2009

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Autoestima

© building-self-esteem.net

Ter autoestima, é ter por si
O mais profundo respeito,
É no silêncio, o coração
Batendo calmo no peito
Sem precisar de afirmação,
Reconhecer-se com valor
E o amor por matéria prima,
Construir-se então daí.

Autoestima é tesouro guardado,
É renda, provento, é garantia
É ter segurança, um resguardo
De qualquer tormenta vizinha

Autoestima, é serviço prestado
A si, e à realidade que te encerra
Quem tem consigo ‘se termo quitado
Dificilmente até, com os outros erra.

Autoestima, é valoroso penhor
Necessário à alma, educação
Pois na cartilha de todo amor
Autoestima é a primeira lição

Publicado no Recanto das Letras em 19/09/2010

O Calor Não Gosta de Mim


© TheMuttRoom.com

Não faz calor. O que sinto é algo que ultrapassa a definição de calor. O apocalipse existe, e se parece com um forno. Os poucos sobreviventes correm de um lado para o outro em busca de um ar-condicionado ou, na pior das hipóteses, de uma pouco eficiente sombra. É um período de suor, de gente estranha, de correrias sem sentido e sorvetes derretendo tristemente antes de serem consumidos. Às vezes eu observo as montanhas lá na frente, circundando pacientemente a cidade desde sempre, cobertas com aquele verde. Sinto vontade de estar no meio daquele mato, enfiado numa cachoeira qualquer, desfrutando da água gelada até acabar essa estação inclemente. Confesso que o verde das montanhas não me parece tão belo quanto o da minha terra, porque o vejo através daquela névoa amarelenta da poluição, que sobe centenas de metros acima do chão, fazendo um triste degradê com o azul do céu.

Meu organismo de ser das montanhas não comporta tanta agressividade de temperatura. Não aceita esse abafamento sórdido e tampouco se acostuma ao calor que profana até as noites. As noites são regiões em que desde sempre, instalou-se em meu imaginário e em meu coração um friozinho ameno, um agradável incentivo à procura por um aconchego, seja ele qual for.E no calor inclemente de um verão que mal é chegado, percebo que há muitas conexões simbólicas a serem feitas. É um calor que emperra pessoas e instituições. É um calor que incentiva a fuga, a irresponsabilidade e a falta de compromisso. É um calor que penetra no DNA de toda uma espécie. Um calor que incita ao engano e à trapaça. Um calor que chega cedo, come muito, causa prejuízos, vai embora tarde e sai sem pagar.

Mas não é justo dizer que o calor é o culpado por tudo. Apenas me compadeço daqueles cuja vida não pode parar por causa da simples chegada do calor. Tenho mais reservas com aqueles que engolem com facilidade o marketing e a venda de conceitos de prazer e diversão que a chegada do verão oferece. A avidez pelo não-trabalho, pela não-produção, pelo ócio eterno. Sempre me surpreendi ao ver como se reclamava da chuva, do frio e de dias cinzentos, ansiando por um clima que só pode ser aproveitado adequadamente por quem não tem obrigações e responsabilidades. Jamais achei que o verão não devesse existir. Tenho ótimas lembranças de ótimos verões.

Não me dou bem organicamente com o calor, mas diferente dos seres estranhos que povoam este planeta, consigo ver a mesma estranha beleza na água de uma praia tranqüila brilhando gentilmente no sol do fim da tarde e no descer suave de uma névoa matinal sobre as montanhas, num dia de inverno na serra.  Consigo amar igualmente a beleza dos vestidos e a soltura dos corpos das moças no verão, e o indescritível prazer de se aconchegar procurando o calor num dia de inverno, onde o brilho de um olhar e o toque de um nariz gelado podem ser o prenúncio de inúmeros bons momentos. Gosto do vento, gosto do sol, gosto da chuva, gosto do azul, gosto do cinza sobre o verde. Gostaria até do calor, mas infelizmente, o calor não gosta de mim.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Antes de Içar as Velas

"Arrastão à Tardinha" de Lucio Quental

Às vezes nos surpreendemos girando gentilmente nas águas de um turbilhão de compromissos, obrigações, prazeres, encontros, sorrisos e pequenos e agradáveis desesperos. Alguns de nós acabam conseguindo apertar o botão de pause num desses momentos para poder descansar. Enquanto isso o corpo continua pilotando o caiaque que desce essa corredeira na qual nossa vida se transforma em certas épocas. Na maioria das vezes é tranqüilo, em outras não. Algumas vezes temos que correr lá e tomar o controle. Voltar ao foco se não a gente se perde no meio das pedras, ou toma um caldo aqui ou ali.

Hoje tirei uns 5 minutos pra pensar nisso. Sinto saudade da época que o tempo passava na sua velocidade real. Fiquei nostálgico do tempo em que um sábado parecia eterno pra mim. Quando um fim de semana era uma eternidade a se explorar. E nesse festival de analogias e metáforas aquáticas, de tanto pensar, acabo encontrando meu coração no meio do caminho. Pensar sobre sentimentos. Sentir sobre pensamentos. Eu tenho afeição por pensar, sinto carinho por desenvolver um assunto na cabeça. Mas me assusta a rigidez das filosofices. Se filosofar é rigor, é regra, é engenharia com pensamentos, acabei me afastando disso. Há quem goste, há quem faça bem, há quem nasceu pra tanto. Quero pensar de forma artística mesmo.  Desenhar pensamentos. Pequenas aquarelas coloridas com lembrança. Fotografar as mil faces da ilusão, os mil tons do amor, as mil formas da amizade. Fazer esculturas com a massa cinzenta que anda tão mal utilizada ultimamente.

Mas no final, tudo se resume a navegar. Quando o caiaque termina de descer as corredeiras, vai chegando mais perto da foz do rio. Abre-se diante de nós aquele enorme estuário das possibilidades, cercado do mangue ao mesmo tempo riquíssimo e assustador do amanhã. Nessa hora é necessário pensar, sentir, e saber. Tudo ao mesmo tempo. Nessa hora, o preparo é o que separa os amadores dos profissionais. O mar aberto está logo ali, logo depois da próxima curva. E se atirar numa aventura no mar aberto é de um prazer assustador, mas todo navegador sabe que é burrice fazer isso sem uma boa embarcação. Sem bons mapas, bons instrumentos e suprimentos. O mar é imprevisível, ninguém que vai a ele sabe com certeza de sua volta. Mas estar bem preparado é prerrogativa de quem quer não só a aventura, mas todos os maravilhosos proveitos, aprendizados e experiências que podemos tirar dela. Atire-se na jornada, mas cheque seu equipamento antes, por bem do seu próprio prazer e felicidade.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A Ilha das Coisas Selvagens

 

Where the Wild Things Are (2009) Copyright © Warner Bros. Pictures.

Cada vez que eu cometia um erro
O anjo morria um pouco em mim
E o menino-fera ficava mais forte.
Uma espécie de desterro,
Começava a acontecer assim
E errar passava a ser meu esporte.

Sempre que eu percebia reprovação
Mais triste ficava, e mais errava.
E do erro a fera se alimentava.
Era um caminho sem outra opção,
Essa estrada pela qual eu andava.
De mim nada bom ninguém esperava.

Mas ainda existia por baixo de tudo
Da roupa de lobo, de focinho pontudo
Um resto do anjo que esperava ser salvo.
Infeliz, que um dia, por erros a mais
Fui condenado, e fugi para o cais.
Naveguei ao horizonte, fugi de ser alvo.

E cheguei numa ilha das mais estranhas
Onde moravam feras de grandeza tamanha,
Mas simples e toscos, cada qual a seu jeito.
Me admiraram justo por meu selvagem ser
E ser como eles, nos domínios de seu parecer
Me trataram por rei, me prestaram respeito.

Mas senti que eles não eram de verdade.
Eram parte de mim, eram meus sentimentos
Cada qual em forma de monstro encarnado.
Eram todos soma de pureza e maldade.
Eram básicos, imperfeitos estranhos tormentos
Retratos perfeitos de quanto fui descontrolado.

Precisei dominá-los, ou ao menos convencer
Com muita diplomacia, me fazer entender,
Para sair vivo da ilha e não ser devorado.
E voltei para casa, com a alma cansada de doer
E um sentimento novo no coração a bater
E os sentimentos que deixei para trás, dominados.

Na minha volta encontrei mais calor e alegria
Aprendi a trabalhar naquilo que me cabia
E a ter responsabilidade não só por pensar.
Trouxe da ilha a lembrança de tudo que sentia,
Tudo que gostava e o que não me servia,
E aprendi, finalmente a tudo isso equilibrar.

Rasguei as vestes de menino-fera,
Como anjo apareci, com experiência aprendida
Deixei os farrapos pra trás,  e de repente
Todos perceberam, mesmo sem espera
A fera deixou a marca da própria mordida
E naquele momento, de fera, voltei a ser gente.

Publicado no Recanto das Letras em 16/06/2010

(Livremente inspirado no Livro / Filme "Onde Vivem os Monstros")

sábado, 11 de dezembro de 2010

Buscas



Tem dias que meu coração
Fica num estado tal,
Tomado de tanta emoção
Algo fora do normal

Tem horas que chega doer
Ouvir uma música bela,
Ler num livro algo bonito
Ou apenas parar, e pensar nela...

Em outros dias, meu coração
É víscera, é animal
Em estado de agitação
Uma fera, um ser primal

Tem horas que é afiado
Tem jeito de vidro partido
Como por aço ou ferro forjado
Por vezes fere, ou é ferido

Uns dias meu olhar captura
A mais singela das cenas
E ali, no peito a segura
Pra não esquecer, apenas.

Uns dias, vejo só a dor
A minha, a de quem passa perto
Da solidão, da falta de amor
Das surpresas, ou do incerto

Uns dias, trago o mundo na alma
E uma flor em minhas mãos
A música que as feras acalma
No olhar trago pronto o perdão

Em outros, sou puro tormento
Advogado, juiz, júri, executor
Não sei de nada, só do momento
Nada me tira desse torpor

E chega um dia em que nada sou
Despido de tudo, até de mim mesmo
Olho pra trás, para quem me amou
Alcanço no mais profundo do meu ser
E pergunto, “quem, quem mesmo eu sou?”
O passado olha minha face triste
De joelhos, me curvo ante o vazio infinito
Mais uma vez pergunto, as mãos em riste
O céu responde, num vento aflito

Cinzento, escuro o ar abafado
Eu na terra, por formigas rodeado
Sinto o cheiro molhado do chão
E começa a chover então...

O mundo me troveja respostas
Gotas de verdade caem em mim
Não nasci para virar as costas
Nem pro que é bom, nem pro que é ruim

Essa é a minha sina, a minha missão
Andar, esperar, fazer o que puder
Agarrar se estiver ao alcance da mão
Ofertar um sorriso a alguém quando der

Procurar o meu próprio Deus pessoal
Com meu jeito, meu pleito, minha feição
Esperar que a paz venha um dia, afinal
E amar, e escrever, e fazer disso oração.


Publicado no Recanto das Letras em 17/09/2009

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Lembranças do Amanhã

London Eye - ©Paulo Nogueira

Lembro-me do futuro
Da cor da camisa que usaria
De não estar em cima dum muro
Lembro-me de uma certa alegria.

E me lembro naquele futuro
Do perfume de coisas belas
De sentir-me calmo e seguro
De esperança em cada janela

Houve tempo em que tive saudades
Do futuro que eu muito queria ter
Um futuro de perfumadas felicidades
Um futuro impossível de esquecer.

Tive tanta, tanta saudade
Daquele futuro brilhante
De uma bela e grande cidade
Quem sabe, um país distante

Mas como todo futuro pensado
Ele acabou ficando pra trás
Acabou se tornando passado
Sem o que, nem porque mais...

E vieram tantos, e frios presentes
Urgentes e insistentes agoras,
Que mesmo a esperança resistente
Sentiu-se fraquejar naquela hora.

Momentos reais, perdas, esperas
Eu vivendo a roda viva da vida
Trancado na jaula das feras
E sem futuro para uma acolhida

Mas passado um momento, e tudo mais
Li em algum lugar uma frase
Quem sabe em revistas, talvez em jornais
Dizia que até o presente é uma fase,
E que a poesia, estando instalada
Se tornava o fiel da minha balança
Nas mãos do poeta, tal qual espada
Ou talvez até uma lança
A empunhar palavras,
Num campo de batalha
Com seu olhar puro,
Poeticamente trabalha,
Para lembrar-se do futuro.

Publicado no Recanto das Letras em 08/12/2010

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um ano em poucas palavras...


Há tempos que não paro para escrever sobre o presente. Há um certo tempo que não parava para olhar para a minha rotina e para contemplar de fora da cabine de comando essa nave desembestada que é o meu ser. Desde que tive que mudar de casa, mudar de bairro, mudar de vizinhança, me virar com tudo isso e adaptar, e me adaptar, vinha até esquecendo de olhar para o resto das coisas que compõem a minha vida. Agora o fim do ano se aproxima, este ano estranho, bagunçado e cheio de perguntas ao qual deram o número de 2010. Esse ano que começou como um simples resto de 2009, que por sua vez foi o que sobrou cuspido de um 2008 mastigado. Esse dois mil e dez que foi nada mais que a tradução de uma esperança de melhoras em vários aspectos, mas que me provou que nada melhora e nada muda se eu não me mexer. Por mais difícil que seja. O ano anterior, foi feito basicamente de escombros econômicos de uma crise que parece ter afetado só a alguns países do hemisfério norte e mais a parte da minha carteira onde ficam as notas. Foi construído em cima de tentativas e erros de sair-se de um problema enfrentando outro, mas ainda assim foi um ano corajoso, um ano de fechamentos e um ano de conclusões. Houve enganos, mas também houve esclarecimentos. Apareceram promessas, algumas se cumpriram, outras não. Algumas com tranqüilidade, outras doeram mais um pouco. A maioria delas só serviu pra jogar um pouco mais de concreto na mistura dos meus sentimentos. Mas sobrevivi e cheguei a este ano que corre...E corre... Corre muito.

Tudo que aconteceu na virada da maré, toda a necessidade de mudança, de sacudir a estrutura, de me livrar de um ambiente no qual eu tinha escrito uma história há muito cancelada, tudo isso aconteceu, ainda que um pouco atrasado, na hora certa pra mim. Aquela sensação de urgência, a adrenalina do “quase não dá”, o quase fechamento de negócio com uma imobiliária que fez meu picaretômetro apitar, e o aparecimento de uma oportunidade quase perdida em outro lado aparentemente mais honesto, tudo isso veio com o sabor dos grandes e clássicos imprevistos que já se tornaram a matéria-prima dessa minha peculiar vida. Arrumei casa, a tempo, me livrei dos inquilinos, dos problemas crônicos do prédio antigo, e de quebra deixei pra trás um universo de lembranças muitas vezes desnecessárias. E mais. A despeito de vários conselhos cautelosos e coerentes recebidos, consegui fazer tudo do meu jeito. Determinadamente quase não dando. Mas com minha vontade férrea de fazer o que queria, mais uma vez atraindo magneticamente pra minha realidade o melhor possível na situação em que me encontrava. Com o passar do tempo, cansei de ser teimoso e passei a dar crédito à minha própria teimosia. Aprendi a empregá-la a meu favor. E quando ela se transforma em magnetismo, eu deixo. Atrai coisas boas para mim. Assim tem sido desde então, a segunda metade deste ano está se passando em novos ares, não tão dados a exuberâncias e delírios de consumo de classe média-alta, porém mais enxutos. Tanto financeira quanto espiritualmente. Assim como na moradia, na mudança (nossa, quantas coisas velhas coloquei pra doação, joguei fora, ou vendi) estou aprendendo a eliminar supérfulos. Sejam eles materiais, sejam energéticos. Isso tem me feito mais feliz.

Falando em felicidade, não é por acaso que deixo essa nota por último. Talvez eu tenha demorado a perceber, nessa correria em forma de ano, nesse período de pouquíssimos e rápidos meses que tentam me convencer que são doze, que à medida que a situação prática da minha vida ia sendo arrumada, ou ao menos reorganizada, eu meio que de propósito, meio sem querer, fui deixando a velha procura de lado. As incongruências que são tão boas como material para poesia, que floresceram no solo fértil em encontros e desencontros do ano passado, nesse ano foram menos aceitas. Acabei deixando-as um pouco de lado e descansei o velho coração. Findo o meio do ano, findo o último engano, finda a brincadeira, ao mesmo tempo em que procurava casa nova, botei o coração pra lavar. Tirei da máquina, sacudi e pendurei no varal pra secar. Coitado. Quase o deixei esquecido no apartamento antigo. Quase, por pouco não me mudo pra casa nova sem ele. Mas acabei lembrando, sem dar muita importância, mas lembrei. Não que não me seja caro, não que não me fosse importante, mas naquele momento, o melhor a fazer era deixá-lo quieto por lá. Tinha muito trabalho a fazer, muita coisa a arrumar e nos momentos de lazer, eu realmente não precisava dele. Qualquer pessoa que já tenha apanhado um mínimo nos ringues do sentimento saberá do que falo.

Mas eis que o tempo passa, e ele sente vontade de ser usado novamente, como roupa limpa e passada pendurada no cabide. Procurei uma solução muito comum, porém pouco tentada. Procurei um ambiente onde pudesse oferecer e também exigir um mínimo de observação prévia, um ambiente controlado. Já tinha cansado de viajar milhas para levar tiros à queima-roupa. Se fosse para morrer à bala, que fosse perto de casa. Escrevi minhas condições, pendurei na parede, e deixei para apreciação pública. Se eu disser que não esperava nada, estarei mentindo. A princípio, é bem claro que realmente, tudo que eu esperava passou pela minha frente. Um ou outro olhar, um ou outro conversar, um ou outro interesse, mas nada diferente do jogo que eu já via sendo jogado há muito tempo. Nada que me fizesse pensar em coisas novas. Nada que minha mente não conseguisse mapear em 10 segundos. Nada que me desse vontade de perguntar ao menos um porquê. Mas, como em toda boa história, quando eu menos estava esperando... Apareceu algo que me fizesse pensar em coisas novas, que eu não consegui mapear em 10 segundos e me deu vontade de perguntar vários porquês. Apareceu alguém que abordou não só minha pessoa mas a minha proposta. Apareceu alguém que falou uma língua que eu entendia de ouvido, sem precisar ligar o filtro tradutor de jogos e intenções ocultas. E de repente eu tive a sensação de me refrescar com isso, em pleno início de verão, como um mergulho na cachoeira depois de meia hora de trilha. A velha curiosidade não só apareceu, mas foi manifestada do lado de lá também. E eu me vi no espelho, um dia depois, com a cara mais relaxada do mundo, banho tomado e barba feita, pronto pra tudo, e ao mesmo tempo para qualquer coisa e coisa alguma que acontecesse. Eu me vi seguro mesmo antes de saber que poderia, se deveria. Acompanhanei uma belíssima tarde azul até o seu final, disposto a investigar uma séria suspeita de descoberta de pedra preciosa. E minhas suspeitas se confirmaram, constatei a boa procedência e qualidade da gema. Foram mais de 6 horas da mais minuciosa análise, e um grau de qualidade aferido e testado além dos prognósticos. Perguntei coisas para saber respostas para elas e para outras perguntas. Descobri nuances e colorações dificilmente encontrados numa mesma situação antes, e me surpreendi ao perceber propriedades que já não mais julgava existentes no mercado. Me entreguei com prazer e animação em conhecer minha jóia recém descoberta. Naquele dia voltei pra casa seriamente impressionado. Mesmo depois de um tempo sem uso, meu coração me avisava que ali poderia haver uma boa oportunidade. Comecei a deixar depois de muito tempo que ele chefiasse a investigação, cujo resultado final seria obter permissão para gravar nele, em meu coração, mesmo tão prematuramente (muito mais que o costumeiro) o nome dessa preciosidade recém-descoberta: Clarice. E assim foi gravado. E vejam, antes desse ano tão espetacularmente peculiar terminar.