sexta-feira, 4 de março de 2011

190 milhões de palhaços no salão


É o carnaval dos coitados
Presos libertos, assassinos
Bêbados, pobres, desdentados
Dos exploradores de meninos

É o carnaval dos bandidos
Corruptos, contraventores
Dos policiais corrompidos
Dos viciados e fornecedores

É o carnaval da mulher que matou
Uma criança inocente por nada
Carnaval do cara que votou
Numa inacreditável piada

É o carnaval da escola que não ensina
Do emburrecimento, e da pobreza
Dos foliões urinando na esquina
Da mediocridade, eterna certeza

É o carnaval dos proles de Orwell
Embriagados em seu não-saber
Sambando e olhando pro céu
Alheios até não mais poder

É o carnaval da desilusão
Das enchentes e das tragédias
Da idiotice na sua televisão
Da classe baixa e da classe média

É o carnaval ao contrário
Da inversão da cara do Brasil
A canalhice saindo do armário
O engano, o esquema, o ardil

É o carnaval que a todos balança
Assim que o samba termina
E a deputada começa sua dança
Não ligando pro quanto abomina

É o carnaval do desfile do medo
Do concurso de fantasias macabro,
É chorar por quem partiu mais cedo
E temer estarmos nas mãos do diabo

É o carnaval do Brasil-perfeição,
Do povo que nada faz, nada fez
Todo sorrisos, todo ilusão
Fantasiado de bola da vez
Sambando como em convulsão
Esticando por mais de um mês
O salário, a bolsa, a pensão
E roubando no peso do freguês
É o carnaval eterno dos tolos,
Sambamos todos, eu e vocês.

terça-feira, 1 de março de 2011

Engulhos e Preconceitos


Eu, tecendo comentários sobre a recente acusação de anti-semitismo contra o estilista John Galliano? Pode parecer um assunto totalmente diverso das outras coisas que costumo comentar aqui, mas não é. Explicarei por quê. Sempre vejo com olhares oblíquos tudo que diz respeito às atitudes e posicionamentos de quem levanta bandeiras de luta contra preconceitos. Não necessariamente por levantarem-nas, mas costumo prestar atenção no modo como conduzem essas bandeiras. Nem sempre as motivações das pessoas engajadas em uma mesma causa são as mesmas, ainda que estejam aparentemente lutando por um mesmo ideal ou objetivo. E além de nem sempre serem as mesmas, também podem não ser todas tão nobres quanto parecem. Usarei o caso de Galliano para ajudar a ilustrar esse raciocínio.

Nos últimos tempos, o estilista inglês citado acima, assumidamente homossexual, um expoente do mercado da moda, famosíssimo, persona publica, formador de opinião e outros etecéteras, parece ter caído em um inferno astral profissional. E ao que parece, por conta de comportamentos um tanto quanto incômodos até mesmo para um mercado acostumado aos faniquitos, pitis e siricoticos comuns aos “gênios criadores” que saltitam de Maison em Maison. Ele é acusado por um casal, de tê-los agredido com um comportamento extremamente agressivo em um ambiente público e de ter usado termos preconceituosos contra judeus. Foi registrado (em vídeo ao que parece) que o estilista afirmou entre outras pérolas do repertório do preconceito, “amar Hitler”, “lamentar que todos os judeus não tenham sido mortos nas câmaras de gás”. É nesse ponto que eu volto ao assunto do meu olhar oblíquo para com certas pessoas. Toda vez que se fala de alguma minoria que sofre preconceito, as mentes de alcance mais curto automaticamente colocam os oprimidos na posição de pobres coitados. E ao colocá-los nessa posição, levados por um sentimentalismo que cega a verdade, acabam por tirar o foco de um erro que foi cometido para com essas pessoas, para uma espécie de paternalismo assistencialista. Essa distorção muitas vezes tenta compensar esse erro julgando as vítimas incapazes de cometerem erros como se o simples fato de terem sido vítimas daquele fato os transformasse em seres puros e alheios a todo o mal.

Poder-se-ia esperar que uma pessoa como Galliano, que teoricamente sabe o que é ser vítima de preconceito, não seria um ser preconceituoso. Mas esse pensamento de curto alcance, como mencionei antes é algo que não contempla o fato de que a única forma aparentemente mais eficaz de lutar contra o preconceito seja levar-se em conta que não há coitados. Há seres humanos, criaturas multidimensionais e como tal, passíveis tanto de serem vítimas quanto de serem vilões. Parece existir no mundo atual uma mania dicotomizante, que faz com que as pessoas vivam pensando que só existe preto e branco, bem e mal, que é sempre tudo ou nada. Essa tendência é vendida com tanta força, que faz com que as pessoas, já afeitas a pensar pouco acabem se perdendo nessa filosofia do “on ou off”.

Ninguém parece querer pensar, parecem ter preguiça de considerar que um homossexual pode ser tão mau, tão vil e tão filho da puta quanto um heterossexual. Que um negro pode ser tão preconceituoso quanto um branco e que um funkeiro pode segregar tanto quanto um amante de música clássica. Ignoram que depois de 5 mil anos de dominação e opressão masculina, assim que as mulheres começaram a se libertar de seu jugo, imediatamente partiram para cometer exatamente os mesmos erros que os homens cometeram contra elas nesse período, erros esses dos quais elas reclamavam ferozmente. A busca por esse pensamento pronto, parece nos afastar cada vez mais de um modo Martin Luther King - humanista, contemplativo e consciente, e nos aproxima de um modo Malcolm X - reativo, explosivo, impensado.

Aí vemos com espanto quando um estilista gay (que deveria teoricamente, ter hor-ror a preconceito) desfia contra aquele casal, impropérios anti-semitas com a mesma ferocidade com que em outra situação, um militante skinhead poderia proferir impropérios contra a opção sexual deste mesmo estilista. No apagar das luzes, muitas vezes cheguei a pensar se que talvez mais importante que lutar contra o preconceito, seja lutar contra a incoerência. Porque em uma sociedade onde há coerência, a natureza incoerente do preconceito não permite sua subsistência.

Poesia a Fio


Sedoso fio do qual me utilizo
Para laçar palavras e letras
Que atiro com braço preciso
Camaleão a caçar borboletas

Fio que uso para costurar os tecidos
As tessituras que a vida me dá
Dos tempos futuros e dos tempos idos
E ajusto assim, para podê-las usar

Fio que tal qual prosaico barbante
Usado por mim para embrulhar os problemas
E de lado deixá-los, para em outro instante
Tornarem-se tijolos para novos poemas

Fio de prata, de ouro, ou cordame
Que pra tudo uso, para tudo avio
Fiação do vestido de uma madame
Ou amarras de cais para um grande navio

O fio da aranha que passeia em minha mente
A tecer emaranhados de promessa e oração
Procurando entrelaçar, poética mente
A teia feita, apurada, de realidade e ilusão.

Publicado no Recanto das Letras em 03/02/2010

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Eu conheço esse outro mundo...


Faça um exercício de imaginação. Pense que você foi puxado para outra dimensão, para um mundo paralelo a este em que vivemos. Ao despertar nessa outra realidade, e olhar em volta, de início você não perceberá muita diferença. O mesmo ar, as mesmas coisas, casas, carros, arvores, cidades... o que torna essa uma outra dimensão não são as coisas que você conhece. São coisas das quais você talvez já tenha ouvido falar, mas provavelmente não tenha para com elas muita intimidade.

Nessa outra realidade, não faz tanta diferença a marca da roupa que você está vestindo. Lá, as roupas tem qualidade suficiente para o que você precisa, mas ninguém te vende uma etiqueta colada numa roupa no Leblon, que custa 50 vezes o preço pelo qual a mesmíssima peça de roupa custa na loja de fábrica na cidade onde ela foi feita, ali na região serrana do estado do Rio.

Nessa outra realidade, ninguém se importa com quantos amigos você tem adicionados num perfil de rede social. Na verdade, ninguém se importa SE você tem um perfil em uma rede social. Lá, o que realmente importa é a frequência com a qual você diz sim quando seus amigos combinam pra vocês saírem juntos. O que importa é a quantidade de vezes em que vocês se encontram, trocam novidades, se falam ao telefone. O quanto conversam, o quanto se interessam, o quanto se apóiam, e o quanto se preocupam pelo bem estar uns dos outros. Nessa outra realidade, seus amigos distantes usam a tecnologia para se aproximar, e não para se afastarem de você. E tempo? Lá, tempo para esses amigos sempre se arruma.

Essa realidade vizinha é um lugar onde se pensa mais antes de falar. É um lugar onde sentimento é virtude, não justificativa. Nesse lugar se consome mais filosofia que antidepressivos. Você pode ficar assustado, mas nessa realidade, ficar triste não é visto como algo somente ruim, mas como parte da natureza humana, um mal necessário para se aprender a viver e a valorizar o que há de bom na vida. Nessa realidade, as pessoas andam com mais alegrias batendo no peito do que com buracos escavados na alma. Nesse outro mundo, há um espaço no ser de cada um onde a mente se aquieta e o coração se acalma, e ambos se unem quando a chuva começa a cair de leve fora da janela das pessoas. Nesse mundo a ansiedade é uma aberração, e não uma companheira frequente.

Nessa outra porção do espaço, bem próxima da sua, existem milhares de outros caminhos entre o sim e o não, entre o preto e o branco, entre o tudo e o nada. Lá, a vida é tão mais rica pelo simples fato de se poder ter muito mais escolhas e cores, do que viver esse inferno que é pender eternamente entre a luz total e a mais completa escuridão. É um mundo onde você talvez não gostasse de viver, ou talvez até se adaptasse, mas precisaria de um tempo pra isso. Eu não sei ao certo. Mas eu posso dizer com certeza uma coisa: eu conheço esse outro mundo, e tenho passado cada vez mais tempo lá do que nesse aqui.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Citação 003

"O Nirvana está em nós. O que mata é a culpa, a raiva, o maldito superego."

(Léa Waider)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Citação 002

"Diz a lenda que Brasília era uma cidade encantada, num planalto mágico, cheia de Robins Hood ao contrário."

(essa é minha mesmo)

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Tecla


Tem dias em que algumas verdades gritam pra sair de dentro da gente. Nesses dias, não existe a menor paciência com aquele papo politicamente correto de “cada um tem a sua verdade”. Tem dias que o espírito da gente está fervilhando, a despeito de aparentarmos calma exterior. São dias em que simplesmente ouvir alguém dizer que "estou generalizando" é motivo para voar em algum pescoço. Tem dias que o mais irritante são as pessoas. E o que me irrita é a irritação das pessoas, seu nervosismo, a falta de educação e todo aquele ódio contido. E o que me faz ficar mais irritado é que com tudo isso elas conseguem fazer o que eu mais odeio, que é acabar me tornando parecido com elas.
Nesses dias, geralmente o clima é quente e incômodo. O suor escorre pelas costas, incomoda no rosto, molha a roupa. Num dia assim, caminhos que são sempre fáceis ficam engarrafados e você sente uma vontade enorme de descobrir um causador, só para poder sentir ódio. Aliás, num dia como esse a palavra ódio tem um sabor doce na boca. Sobe borbulhando do fundo do estômago, como um fel dormido, mas chega doce na boca. Chega melado e doce como um derradeiro prazer culpado, um pequeno alívio para tanto incômodo e tanta tragédia barata.
Em um dia como esse, você olha para as futilidades coloridas e bem remuneradas de toda uma linha de pensamento, e tem vontade de espumar de raiva. Tem vontade de esganar quem inventou tantos poréns para essa vidinha idiota que grande parte de nós levamos. Tem dias em que você olha a lista de exigências da felicidade plena e sente a mais pura vontade de trucidar quem a escreveu. E tem dias que você lembra daquele momento parado no tempo em que nada disso era importante, em que nada disso fazia diferença, e você se detesta mais um pouco também, por sentir uma maldita nostalgia. E de um tempo que no fim da análise, nem era tão bom assim. Só tinha de bom mesmo o fato de todas essas coisas irritantes (que pessoas irritadas fazem e falam) não faziam a menor diferença pra você.
Aí você se arrasta como uma lesma pelo dia afora, tentando não pular no pescoço de ninguém. Ou tenta não fazer essa camada de pedras que está morando no fundo do seu estômago não incomodar tanto. Num dia como esse, você bebe água, mas queria beber litros de whisky. E, num momento, num pequeno momento, no limite entre a realidade e de uma alucinação barata, você sente seu olhar ser atraído. Pode ser num terminal de banco, num elevador, de frente para o computador, ou olhando para o celular. A realidade se dobra, e brilhando, em preto, com letras gloriosamente azuis você vê a tecla, o botão. Antes mesmo de ler, você sabe que ali está a resposta, a saída, a libertação de todo esse sentimento insuportável que insiste em se pendurar nas suas costas. Perfeitamente delineado, o vocábulo tão belo, tão simples: "Foda-se". É isso. Você aperta, e aí, finalmente, o seu dia... ou melhor, a parte realmente importante dele começa.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Meia Palavra Basta


Eu não sou feito de vidro,
E tampouco feito de pedra
Mas toma cuidado comigo
Senão um dia se quebra
Posso ser um bom amigo
Posso ser um grande irmão
Posso dar calor e abrigo
Ouvido e compreensão

Por tudo isso eu peço pouco:
Não me trate como louco
Nem como um errado
Que antes de sentar no banco
Já está sendo julgado

Quem tem dúvida pergunta
Quem tem problema, assunta
Quem quer abraço, pede
Quem quer que eu me renda, cede.

Posso ser complexo, mas sou fácil de entender
É só prestar atenção,
E não tentar nos meus olhares se perder
É só me dar a mão
E deixar o tempo me explicar
Defeitos? Tenho centenas de milhares
Manias, de todas sortes e azares
Mas pra cada defeito meu que você achar
É um beijo ou um abraço que eu vou ter pra te dar

Faça amizade com meu coração
Deixe ele contar qual é a intenção
Avalie se é isso que te agrada,
E ganharás um bom companheiro de estrada.

Publicado no Recanto das Letras em 10/11/2008

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Aprendendo e Vivendo II


O que te ensinou, o corte da lâmina?
O que aprendestes ao cair da escada?
O que sabes fazer, ao ter ficado de cama?
Que lição te passou, aquela perna quebrada?

O que sabes agora, com seus ferimentos?
O que pôde tirar, daquele tombo tão feio?
Já sabe o devido lugar, dos teus sentimentos?
Ou ainda há um coração burro em teu meio?

O que sabes agora, que foste enganada?
Que direção tu mudaste, após a traição?
Sabes mais hoje, depois de ter apanhado?
E o acidente, que levou teu irmão?

Aprendeste algo após emprestar sem poder?
E a votar, já aprendeste também?
Ser lesado e injustiçado, te fez aprender?
Ou segues de burro-de-carga de alguém?

O que te ensinou, ter se afogado?
O que aprendestes, ao brigar na rua?
O que sabes agora, após ter se drogado?
E viver uma vida, que não é a sua?

Sabes mais, por se apaixonar pelo cara errado?
Ou casar com a mulher que te tratava mal?
Aprendeste da vida, por ter confiado?
Viraste um sábio, ou só um cara normal?

Tem gente que aprende, tem gente que não.
Há quem se supera, e há quem se derrota
Tem gente que cai, mas levanta do chão
E gente que se perde e não acha a porta.

Publicado no Recanto das Letras em 28/02/2010

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Um dia de segunda?

Como seria a segunda pra eles?
 A minha segunda-feira normalmente, é um dia bastante comum. Muita gente reclama, discrimina e massacra o pobre dia. Ancorados no tenebroso simbolismo da segunda-feira, surram essas 24 horas seguintes ao domingo sem a menor pena. Mas creio que levantar da cama já é ruim quando não se quer ir a lugar algum. Já tive momentos de saborear a liberdade de não querer (e não ir) a lugar algum numa segunda-feira. Mas já o fiz em uma quinta também. E foi bom. Na sexta eu ainda não tentei, talvez o faça um dia.

Mas a segunda, pobre dia. Tenho certa pena dele, ou dela. Dias da semana já tem uma vida bastante complicada. Têm nomes femininos, mas são masculinos. Tirando a sexta, que trabalha pouco, enrola muito, é festeira e sem limites, os outros cada qual tem lá seus pequenos dramas. Até o sábado, que sofre uma crise de identidade danada, por não saber se trabalha, estuda, descansa, lava o carro, faz compras ou vai à praia ou pra noitada. Muitas vezes tenta fazer tudo ao mesmo tempo, e passa o domingo desacordado. Mas de todos os dias, a segunda sofre mais. No seu trânsito murrinhento, a gente fica pensando onde ficam todos os automóveis que engarrafam a ida, mas não engarrafam a volta. Se faz sol, maldizemos seu nome preferindo milhões de vezes estar numa praia. Se chove, amaldiçoamos sua existência por nos receber tão mal em uma nova semana.

A única redenção da segunda é quando ela, por obra de um acaso calendárico, vem como feriado. É um caso sublime para a maioria, pois ela se torna um segundo domingo. Anulam-se seus defeitos e ao mesmo tempo, diferente de quando é ela a começar a semana, o dia seguinte não recebe seu mau agouro. Uma terça pós feriado na segunda jamais será uma segunda-feira. Todos vão à vida sabendo que é um dia a menos. Um dia ameno até!

Enquanto penso nisso tudo, vou tentando conviver bem com a pobre da segunda. Os dias passam, eu me canso e descanso, mas às vezes me dou conta das simbologias meio idiotas da nossa sociedade. E percebo o quanto é boa a sensação de que não preciso pensar igual. A noção de que não existem tantas diferenças entre os dias. Considerar que mais dignas de reclamação são as pequenezas das nossas cabeças limitadas, manipuladas e padronizadas. De quantas divisões burocráticas dessas mesmas 24 horas que perdemos reclamando dos dias que passam. Já fiz muita coisa boa numa segunda-feira, e numa terça, e numa quarta, em todos os dias, pra esquecer de que os dias vão correndo, mas que às vezes quem fica mesmo pra trás é a nossa mentalidade. Eu faço aniversário, curiosamente, junto com o Garfield, até gosto de lasanha (mas posso viver sem), só não acordo cedo porque durmo tarde, e não vejo porque odiar a segunda-feira.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Citação 001

"Para ser um gde amante é preciso aprendizagem e espontaneidade. Como em qualquer forma de arte, fazer sexo requer técnica e sensibilidade."

(Regina Navarro Lins)

Dois Sorrisos


Hoje perguntei ao destino
Se algo pode durar para sempre
Ou se a meu coração de menino
Cabe seguir por anos, contente

Será que a vida que se estende
Tão livre adiante, e tão estranha
É feita do que sozinho se aprende
Ou do quanto sozinho se apanha?

Desisti de encontrar as respostas
Resisti, quis tentar mais um pouco
Ainda que quisesse dar as costas
Antes que por fim ficasse louco,

Só abri meus braços uma vez mais
E fui ler lá no fundo do seu olhar,
Um espírito pedindo um pouco de paz
E dois corações querendo descansar.

E o difícil ficou mais fácil, mas não muito
O fascínio de um coração limpo, novo
A velha sensação do agradável tumulto
E a agradável vontade de contar ao povo...

E com calma, mas com carinho
Como alguém que foi premiado,
Eu, que antes sorria sozinho
Hoje estou sorrindo ao teu lado.

Publicado no Recanto das Letras em 07/02/2011

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

E as cinzas vieram antes...

© Gabriel de Paiva/O Globo
Aconteceu em uma segunda-feira de verão. Uma segunda-feira quente, muito quente. Trânsito truncado, época de volta às aulas. Primeira semana de fevereiro. No clima agradável que descrevo, outro fator que desde criança sempre me causou um certo desconforto já se anuncia. O carnaval está aí, batendo à porta. Assim aconteceu uma estranha coincidência. Uma semana antes eu pensei justamente no assunto geral dessa postagem: o carnaval carioca ser o símbolo do que o Estado do Rio se tornou. O carnaval, assim como o Estado, ser uma colagem amadora de interpretações, tocada por um povo que levou o termo “trabalhar à moda boi” ao ápice da exatidão, e com uma máfia qualquer exercendo poderes de decisão por trás das cortinas do espetáculo.

Já adulto, tentei mapear a origem de meu desgosto com a festa mais popular do Rio de Janeiro, e da maioria absoluta do Brasil. Lembro de na infância detestar os mascarados. Era medo também, medo primal de criança, mas mesclado a isso havia o ódio. Eu me lembro de ouvir minha mãe dizer que eram apenas mascarados, apenas garotos maiores fantasiados, mas não sentia assim. Na minha cabeça era como se fossem criaturas que renunciaram à sua forma humana para se tornar outra coisa. E ao se tornarem essa outra coisa, faziam com que eu me sentisse no direito de odiá-los a ponto de querer suprimir sua existência. Estranho e complexo isso, mais ainda talvez pra uma criança de quatro anos. Mas era o que eu sentia, vou fazer o que?

Mais tarde, veio o incômodo com a obrigatoriedade. Era uma semana onde se ouvia apenas um tipo de música no rádio. Tudo bem que fui criado na frente da TV, mas meus pais eram da época do rádio. Ouvi muito rádio quando criança. E na televisão, a coisa não era muito melhor. Os horários da programação mudavam. Eu encarava aquela coisa estranha a que chamavam de carnaval como um invasor que mudava de forma compulsória a minha rotina. E me impedia de fazer e ouvir coisas de que eu gostava. Na minha semi-roça infantil, a gente não tinha casa de praia pra escapar. Então, a minha revolta era mais do que justificada naquele período. Pelo menos enquanto eu ainda morava numa vizinhança em que não tinha uma criançada da minha idade. Depois disso, minha vivência de carnaval acabou tomando o rumo da pré-adolescência, onde o ápice da diversão era “jogar água nos carros”. Ficávamos na porta da vila, armados de bisnagas de lança-perfume (o de água, não aquele outro que era fácil de comprar no Paraguai), com as quais molhávamos a janela dos incautos que passavam na nossa rua. Uma vez ou outra dávamos sorte e conseguíamos molhar alguém de fato... E quando o cidadão parava o carro e fazia menção de nos perseguir? Cara, isso era o máximo da adrenalina infantil interiorana. Esporte radical de moleque morador do centro da cidade. Perdões, mas ninguém é perfeito.

Pulei a adolescência no que diz respeito a carnaval, porque aí eu já tinha descoberto que o gene folião não fazia parte do meu DNA. E já naquela época eu era meio avesso a gostar do mesmo que todo mundo, a querer ser muito igual, e coisas do tipo. Acabava procurando opção para aproveitar o tempo jogando bola ou fazendo algum dos passeios ou viagens que as amizades da época volta e meia proporcionavam. E vinham as primeiras saídas, aprender a beber, e as paqueras, e as festinhas, e nada disso tinha a ver com carnaval pra mim.

Cheguei à idade adulta, vim mais pra perto da metrópole e também do carnaval. Passei a ver o carnaval com mais senso crítico que tinha antes. Comecei a retornar ao sentimento primordial da infância e descobri que o que me incomodava não era o carnaval em si, mas o ter que engolir de forma tão compulsória o paticundum prugurundum como se quem não gostasse disso bom sujeito não fosse, tivesse problemas da cabeça ou alguma impedimento ortopédico. E comecei a olhar de outra forma para o famoso carnaval do Rio, tão famoso e tão magnético para turistas e todo um universo de pessoas. Comecei a ver o “maior espetáculo da terra” como um circo que curiosamente, é tão incompetente quanto fascinante. Não lembro de sequer um desfile das escolas do grupo principal onde não tenha acontecido algum problema com algum carro, alegoria ou em que alguma escola não tenha se levantado em fúria por ter se achado preterida ou injustiçada em algum momento.

Vejo as figuras de proa da administração carnavalesca, os donos das escolas, os presidentes das ligas, os carnavalescos, e fico abismado como se consegue sequer montar um desfile com figuras como essas comandando o show. Há que se ter muito dinheiro para cobrir os buracos. E no fim, meu pensamento retorna ao dia de hoje, à gigantesca coluna de fumaça que subia da cidade do samba. Pensei, com um desde já admitido grau de crueldade, que era benfeito. Me sinto cansado de ver coisas importantes, mesmo que não pra mim, mas para muita gente, serem administradas com incompetência, por máfias, por capitães, por bicheiros, por bandidos. Cansa ver todo ano ser elevado ao status de maior show da terra uma atividade mal profissionalizada, pós-artesanal, que recebe dinheiro de todos os lados, mas que ainda assim permanece ano após ano incapaz de colocar todas as suas alegorias na rua. Estou sendo duro? Acontece com qualquer show? Pode até ser, mas se fosse assim na Broadway aquilo lá já teria falido há muito tempo. Pegou fogo? Benfeito. Só gostaria que no trabalho de rescaldo, os bombeiros encontrassem um ou outro bicheiro ou presidente de escola de samba, irremediavelmente queimado junto com seus pensamentos e filosofias.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quinze pra Meia-noite

© Colin Brough

É tanta coisa pra fazer
Tanta vida pra acertar
É pouco tempo pra viver
E um novo tempo a cavalgar

Mais rápido que me lembrava
Sou resquício de outra hora
Um tempo em que me chateava
Com o tempo e sua demora

E se passaram alguns verões
Os tempos quentes aumentaram
Mudaram músicas, estações
Meus sentidos se ampliaram
Passei a sentir paixões.

Meu coração pegou no tranco
Em uma época de intermédio
Caíram alguns barrancos,
Morei em casa, morei em prédio
E a memória deu um branco.
(Pela primeira vez, eu sei)

Hoje lembro de ruas onde andei
Com passos de ansiedade
Lembro de curvas arborizadas,
Da Praça da Liberdade,
De outonos belos e claros
De invernos, passeios de carro
Lembro do fim de uma dinastia
Do fim de um tempo que só existia
Ali, e naquele momento
Congelado naquele frio
Conservado naquele vento
Mas que sobrevive até hoje
Impresso em meu pensamento.

Publicado no Recanto das Letras em 02/02/2011

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Verão, me dá um tempo?


Tem momentos na vida em que a mente pede desesperadamente um descanso. Não que a minha seja tão acelerada. Nem acho que seja. O descanso pedido aqui não é descanso dela mesma. Pobre da minha mente, não é tão culpada assim. E tem se comportado bem demais até, ultimamente. Ela quer descanso sim, é dessa realidade momentânea. Dessa realidade dura, incômoda. Uma realidade que se impõe demais, que invade a vida da gente sem pedir licença. Uma realidade que faz com que as tentativas mundanas de escondê-la por parte dos que estão próximos da nossa observação, pareçam tentativas tolas. Às vezes insultos à nossa já cansada inteligência. Por isso que às vezes a mente pede pra descansar.

O mundo é um lugar estranho, isso eu sempre soube. Tem momentos em que é possível gostar mais dele, em outros momentos se gosta menos. Algumas estranhices a gente suporta melhor, outras nos incomodam mais, mas de qualquer forma são onipresentes, as estranhices do mundo. Só que chega uma hora em que começo a querer muito que certas estranhices não existissem, ou que ao menos não me fossem impostas. Certos tipos de música. Certos tipos de clima. Certos tipos de padrão cultural... Certos tipos de assunto, que acabam se tornando uma espécie de agenda oficial da imbecilidade brasileira popular, e acabam estampadas na sua cara, você querendo ou não olhar para aquilo. E a pior sensação envolvida nesse processo em específico é saber que algumas dessas coisas são criadas especificamente para embriagar a mente de uma parte da sociedade. E a sensação que a gente tem ao descobrir que isso funciona? E quando sabe que não funciona conosco, mas com uma grande, majoritária parcela de todo o resto? Aí é a hora que a sensação de estranheza incomoda, e a gente fica com vontade de pedir para o mundo parar, que a gente quer saltar.

Sim, estou falando da mídia, estou falando do povão, estou falando de Big Brother Brasil, e estou falando do quanto me sinto um alienígena quando não me vejo representado nessa onda de imbecilidade que parece invadir nosso país a cada verão. Desde as "modinhas do verão" até os programas dos quais "todo mundo" fica falando, o incômodo é saber que por mais que você não dê a minima para essa estação tão incômoda, ela acaba te incomodando de um jeito ou de outro. Se o velho Vira-Latas entrou no modo "cão rabugento", o que me resta agora? Torcer pra que o calor não seja tão ridiculamente desconfortável, que eu tenha ao menos a liberdade de ler meus livros sem ter que ouvir um pagode xexelento como trilha sonora, e que houvesse uma enxurrada de lama não na Região Serrana do RJ, mas sim no Projac. Que levasse Boninho, BBBs e Bial, todos irremediavelmente embora da minha realidade.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Desacordos


Uma garganta rouca
A cabeça meio louca
E uma condição pouca...

Que mais pra calar minha boca?
Que mais para cobrarem de mim?
Que mais pra que seja assim?

E passam-se os dias, o ar sufocando
Num verão inclemente, subsaariano
Derretendo em suor cada um dos meus planos

E que me resta pra olhar nesse outro mundo?
Pessoas sozinhas, alheias no meio de tudo?
Almas corrediças, espíritos de grito mudo?

Que me resta pra fazer nesse calor febril?
Alinhavar profecias, com encanto juvenil?
Ou mandar certas pessoas para a ponte...
Aquela...
A que caiu.

Se a paciência me falta, não me culpo só
É culpa do bolo, do rolo, é culpa do nó.
Na boca do estômago e na garganta inflamada
Também é culpa dessa gente tão igual, coitada.

Acabo desejando a essa gente-cachorro,
Se comportando pior que os cachorros-gente
Se afoguem na limitação, e não chegue socorro.
Que tudo seja primavera pra quem pensa diferente.

Publicado no Recanto das Letras em 24/01/2011

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Quando a lama começa a secar...

© Felipe Dana/AP - G1.com
Hoje, a lama que cobre a Região Serrana do Estado do RJ começa a secar. É uma lama fétida. E o cheiro de morte que dali emana não vem dos corpos das vítimas ou dos restos de vidas e lares que foram arrastados. Mais da metade dessa lama é política. A lama que serviu de veículo para as pedras, pedaços de árvores, veio misturada à água da chuva que cai todo verão (desde sempre) na região. Quem vê os nossos governantes fazendo cara de coitadinhos na TV pode até pensar diferente. Podem até pensar que a enxurrada que atingiu velocidades na casa dos 80Km/h, seja fruto apenas de um inclemente desequilíbrio ecológico. Outros podem pensar que as avalanches de água, terra e pedras enormes que destroçaram as vidas de famílias inteiras sejam algum tipo de castigo divino ou sinal de algum tipo de final dos tempos. Poucos imaginam o quanto mais prosaicas e próximas são as razões para que tantas almas tenham se perdido para a catástrofe.

Já tive a oportunidade em outro texto, de falar sobre como vivemos em um estado de máfias. São máfias na política, máfias no mercado imobiliário, máfias nos transportes, máfias de todo tipo. Não seria diferente na bucólica região serrana. O Imperador D. Pedro II já tinha conhecimento, através do Major Júlio Frederico Koeler (executor do planejamento urbanístico de Petrópolis) da necessidade de proteger as matas nas encostas. Estas dependiam da profundidade das raízes das árvores para diminuir a possibilidade de deslizamentos, o que acabava por limitar a área que podia receber construções na geografia típica daquela região. Já se sabia disso no século XIX. Chega a ser escandaloso que hoje, em pleno século XXI, mal cresça um matinho sobre uma área de deslizamento para que comecem a surgir barraquinhos novamente por ali. Há algo de podre no reino do Brasil, Vossa Majestade Imperial.

Entre o início da década de 80 e meados da década de 90, Petrópolis pulou de cerca de 180 mil habitantes para quase o dobro disso em menos de 20 anos. Cito Petrópolis em específico, por ter nascido e vivido na cidade durante todo este período, mas a mesma coisa aconteceu de maneira semelhante em toda a região. Foi neste período em que se iniciou uma política insistente de assentamento de pessoas em comunidades carentes, patrocinada por políticos locais. Era a onda do “cada barraco, um voto”. Conheci pessoas em Petrópolis que moravam em bairros anteriormente agrícolas, que após tantos assentamentos se tornaram favelas, nos moldes das que existem nas maiores capitais brasileiras. Esses mesmos novos moradores, ao ouvir alguém falar mal do político responsável pelo inchaço naquela região, chegavam a brigar com quem levantasse dúvidas ao caráter do tal político. “Doutor Fulano foi quem deu o tijolo para eu construir meu barraco”, cheguei a ouvir uma vez. Assim acontece até hoje. Há políticos que conseguem votos e mais votos prometendo dentaduras a desdentados, mesmo que, simbolicamente entreguem 1 único dente a cada 4 anos. É fácil. Brasileiro não pensa. Brasileiro só reage.

Os mesmos políticos que assentaram muitas pessoas na região a título de criação de currais eleitorais, também possuem seus esquemas com a máfia imobiliária. Tornou-se fácil contornar leis ambientais e conseguir permissões para construir em locais que fariam o velho D. Pedro II arrepiar a barba. A partir do momento em que certas regiões da serra se tornaram destinos turísticos valorizados, a possibilidade de lucros atraiu as varejeiras mafiosas a esse suculento pedaço de carne. O que poderia se chamar de parceria público-privada-profana neste caso foi simples e eficiente. Bairros inteiros foram criados, casas de campo para a classe média-alta e alta, e mais assentamentos de populações menos privilegiadas em torno, afinal os mais ricos precisam de empregados, como sempre. Até que um dia, literalmente a casa caiu. Ou para ser mais exato, foi arrasada, destruída pela enxurrada.

Morreram ricos e pobres, humanos e animais, adultos, jovens, velhos e crianças. E a lama que vimos não é nem de longe a mesma que se vê nas encostas da região. É outro tipo de lama, aquela lama fedorenta, a mesma que cobre o chão de Brasília, a mesma que permanece invisível aos olhos de uns, mas evidente aos olhos de uns poucos. É a lama podre da qual nasce a política nacional. A lama da nossa falta de consciência. A lama do sentimentalismo sem pensamento. A lama da reação sem planejamento. A lama de quem reúne donativos para outros roubarem. A lama de quem tem piedade pelo próximo mas que não tem consciência de que a realidade só melhora com uma mudança de pensamento. E pensamento é o que mais tem feito falta na cabeça do brasileiro. Em especial na do povo do Rio de Janeiro. Em breve, a lama vai secar, a serra lamberá suas feridas, e se voltará a falar em futebol, Big Brothers, novela das 8, e o onipresente pagode com churrasco no fim-de-semana... Pobre população de bovinos, que ora pasta alegremente, ora é obrigada a rolar na lama.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Trabalhadores do Meu Brasil


Sonhei que o dia chegava
E tudo vinha mais fácil
Era o destino que me pagava
E ainda breve esperava
A minha vida tão dura
Tão suada e sacudida
Essa vida bandida
De quem trabalha sem futuro
De quem perde a saúde na lida
De quem dá todo dia duro
Sem saber de sua guarida

Sonhei que a noite chegava
E o descanso me bastava
E a dor, essa não tinha
E que a nega me sustinha
E os filhos me chamavam
E eu ria com eles na sala
E a coisa toda ia bem
E não devia nada a ninguém
Mas a vida não é assim
Não tem tanto pra mim
Não tem razão pra gemer
Mas não tem razão para rir
Só tem razão pra viver

Sonhei que o domingo chegava
E o som de passarinho cantando
E o barulhinho do café passando
Me dava um pouco de alento
Mas no meu tanto de sofrimento
É um domingo que passa
É mais um dia que vai
É uma vida quebrada
Que nem a pedra da vidraça
Da janela de meu pai
Que um dia eu quebrei
E que apanhei e chorei
E aprendi a ser homem
E a carregar meu nome
Com respeito e tristeza
Porque se o respeito existe
Existe mais a pobreza
E dessa, eu sei bem...
Nela eu vivo, me agüento
Trabalhando como jumento
Não importando qual empresa

Até o dia que cairei de cansado
Se vou morrer de repente
Ou se com a mulher do meu lado
Ou com os meninos em volta
Só Deus quem sabe, e Nossa Senhora
O dia certo e a minha hora
E o lugar que eu vou quando for embora.

Publicado no Recanto das Letras em 27/11/2008

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Mariposa

© Pixdaus.com

Gentil e suave mariposa,
Cegaste meus olhos
com o pó de tuas asas?

Porque tornaste meus dias
Cada vez mais embaçados?

Por onde voaste, leve peregrina?
Que mágoas e prazeres carregas,
E que ardores habitam teus pensamentos?

É essa mágoa que hoje me cega?
Ou é um prazer fazer meu olhar
Tornar-se esse confuso jogo de sombras?

Quando eu era criança
Tantas vezes temi encontrar-te
Tantas vezes fugi de ti.

Mas ainda assim admirava-te à distância
Hipnotizavam-me os olhos que carregas
Em cada uma de tuas asas.

E hoje, tamanha ironia
Eu por vontade própria, por total querer

Me abandono ao teu vôo incerto,
Me afeiçôo ao teu silêncio ancestral

E sonho contigo em vôos noturnos
E ao acordar, envolto em penumbra
Esfrego meus olhos, tal fazia em criança

E minha visão se vai,
Mesmo eu acreditando em seu sorriso,
Na suavidade de suas asas
E na paz que suas promessas trouxeram.

Publicado no Recanto das Letras em 11/01/2009

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Cachorro Molhado

© Eirik Solheim
Certa vez vi um cachorrinho
Correndo da tempestade
Corria entre as pessoas sozinho
Queria abrigo na verdade

Um vira-lata perfeito,
O pelo um pouco sujo, vá lá
Nada que um banho não dê jeito
Saudável, olhar aceso, a brilhar.

A chuva ameaçava cair
E o canino, pra lá e pra cá
Sem saber bem pr’onde ir
Querendo num canto ficar

Achou um caixote de papelão
Encostado numa calçada
Passou no meio da multidão
Sob o som das trovoadas
Mas o abrigo não deu não...
O vento levou, de revoada.

Correu, os primeiros pingos caindo
Um terreno abandonado, um poste
Perto de uma rua que ia subindo
No meio de umas coisas, caixote.

Tentou se ajeitar, era de madeira
Esse, o vento não ia levar
Mas furado, de qualquer maneira
Deixava a chuva passar.
Saiu de novo, não achava lugar

Ficou na rua, ali, desconsolado
Com aquela cara mais que peculiar
Típica de cachorro molhado.
Naquele aguaceiro a despencar
E assim, muito de mau jeito
Num banho bem do improvisado,
Mais limpinho, aquela cara de pena,
Foi por alguém resgatado.

Pois que passava uma moça, e o viu
Com aquela cara de “me tira daqui”
Pegou nosso amigo no colo e partiu
E hoje, ele passeia no sol por aí.