quarta-feira, 16 de maio de 2012

Rio, cidade olímpica. Ou não.

Rio, cidade olímpica. Ou não.


A alma do Rio de Janeiro mora, essencialmente no seu centro. Esqueçam a Zona Sul, deixem a Zona Norte pra lá. Assim como as pessoas, as cidades muitas vezes evoluem, crescem, mudam de categoria, enriquecem. Mas se quisermos entender seu jeito de ser, compreender muitos dos comos e porquês, e reconhecer as origens de suas idiossincrasias, é necessário olhar suas origens. Saber de onde vieram, e como foram criadas. Assim com as pessoas, assim com o Rio de Janeiro. Eu conheci o Rio de Janeiro entrando por sua porta dos fundos. Entrei por um lado diferente do approach turístico, dos que desembarcam no Aeroporto do Galeão (aliás, há tempos mudou o nome, mas prefiro o antigo mesmo) e seguem direto para uma Zona Sul mítica propagandeada por novelas da Globo. Conheci a cidade chegando pela Rodovia Washington Luís, vindo da serra, passando por Duque de Caxias. Conheci a Zona da Leopoldina, com sua decadência, invadida por uma favelização alegre, contrastando com uma eterna cara de desânimo dos moradores antigos, do tempo das crônicas de Nelson Rodrigues.


Cheguei ao centro da cidade via Vigário Geral, Cordovil, Brás de Pina, Penha, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Manguinhos, Benfica, São Cristóvão, Santo Cristo... Pelo caminho, tropecei em bandidos em formação, mendigos, sambistas esquecidos, periguetes com cabelos mal pintados, e outros personagens de toda sorte, afogando suas mágoas com cerveja barata em meio a muito abandono e sujeira. O Centro, de certa forma, acaba virando um desembocadouro de todos esses tipos humanos, uma geléia cinzenta, com belos casarões antigos que nos causam pena de ver abandonados. Volta e meia, desaba um. Nesse mesmo Centro, se aglutinam e se reproduzem ainda nos dias de hoje o mesmo desleixo que os cariocas que receberam a família real de Portugal em 1808 dispensavam à sua cidade. Lixo no chão, lixo nos bueiros e milhões de cariocas tocando suas vidas pra lá e pra cá. Desorganização, preguiça e uma malandragem burra, do tipo que não se reinventou, que não evoluiu, que não se transformou em esperteza, nem em inteligência.Os bacanas da Zona Sul vem trabalhar aqui, pela Presidente Vargas ou pela Rio Branco. Os bacanas do Estácio e da Providência também vem, roubam ali em frente à central. Já os bacanas da Zona Sul que roubam, normalmente dão expediente ou ali ao lado do Paço Imperial ou naquele prédio ao lado da sede dos Correios, na altura do 2.500 da Presidente Vargas. Tá pensando o quê, o Centro é lugar de trabalho.


E eis que um dia alguns bacanas resolveram que para melhorar o Rio de Janeiro, não precisavam de fato melhorá-lo tanto assim. Bastava vendê-lo, mas vendê-lo bem mesmo. Aí os ricaços que engolissem a isca, iriam fazer todo o trabalho. Iriam melhorar a cidade por conta própria. Mas a campanha de promoção teria que ser boa, muito boa. Envolveria o mundo inteiro, quem sabe até conseguir-se-ia trazer uma olimpíada para ser feita na cidade? Mesmo com bueiros explodindo, mesmo com um trânsito patético, mesmo com uma criminalidade próxima à de países em guerra. A propaganda seria a alma do negócio, e os negócios seriam de alto nível. Envolveriam empreiteiras, envolveriam viagens internacionais. Precisaria muita disponibilidade pra viajar, e muita cara-de-pau, muita lábia de vendedor. Por sorte, a paisagem ajuda. Aos investidores gringos mais durões, caipirinhas em profusão, para amolecer o espírito. Assim, vendemos a cidade, transformando-a em uma das mais caras e mais badaladas do mundo. E isso tudo sem precisar gastar muito mais do que sempre gastamos com transporte, limpeza pública e todo o resto, que sempre fizemos na base do cala-boca.


Mas é aquele negócio, fácil de explicar, embora não seja tão fácil de entender... o carioca é tão burro que aceita de bom grado qualquer governante cambeta que aqui chegue, seja um Dom João, seja um Garotinho. Aceita ser atingido por balas perdidas, enquanto aplaude embevecidamente o pôr-do-sol em Ipanema, flutuando na marola dos baseados. Aceita voar não por intermédio de uma companhia aérea, mas por conta de bueiros que explodem... e aterrissar em um monte de lixo, ou quiçá em um aglomerado de viciados em crack dormindo num canteiro do outrora tão belo Campo de Santana.

Mas no fim das contas, o carioca mesmo, não está nem aí pra isso. Sabe como é, né? Carioca é malandro... Então tá. Vai tomando, malandro.

domingo, 13 de maio de 2012

A manada virtual


             Não, eu não acho alguém dizer que “morre de ou por amor” lindo via rede social. Até porque na grande maioria das vezes a mesma pessoa que diz que morre de amor, dali a 2 meses já está achando o namoro “meio chato”. Ou reclamando do ciúme extremo do outro lado, ou dizendo que o outro não quer se compromenter... E não, eu não vou tirar a minha foto no perfil da rede social e colocar uma de nós dois sorridentes. Não vou deixar de ser eu pra me tornar “eu mais você”, porque no apagar das luzes, na hora H, você não é eu, e eu não sou você. O que me torna feliz numa relação é estar ao lado de alguém que é uma pessoa completa, e não uma metade cambeta que dá a entender que precisa de uma muleta pra viver. Tampouco vou colocar mensagens e indiretas para as pessoas que supostamente sentem inveja da minha felicidade. Se eu sou feliz, não há espaço para me importar com gente invejosa. Só se importa realmente (e tanto assim) com a inveja alheia, quem deseja parecer mais feliz do que de fato é. Também não vou passar o dia mandando mensagens edificantes de pensadores, intelectuais e artistas de renome, enquanto minha própria vida é uma prova de que eu não pratico nada daquilo que as tais mensagens aconselham.

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             Não, eu não vou achar que salvar os animais é colocar online uma foto de um cão machucado. Colocar uma foto online é fácil, difícil é ter cabeça no lugar e saber que não dá pra salvar todos os bichos do mundo. Eu não vou achar linda aquela roupinha que faz o seu cachorro parecer ridículo. Tenho certeza que ele concordaria comigo que tratá-lo “como se fosse gente” é de uma certa forma, subestimá-lo em sua condição. Acredito profundamente que na sua maioria, os bichos são muito mais dignos que o ser humano, e quem tenta humanizá-los demais acaba por ofendê-los. Não, não vou bater palmas para as iniciativas de “acumuladores de animais”...  Pessoas que por alguma deficiência emocional, deixam de resolver seus problemas vestindo um manto de salvadores dos pobres bichinhos, muitas vezes condenando-os a condições aquém das ideais, cegos por um “amor” que é apenas uma maneira de ocultar uma doença... E que acaba deixando os pobres animais doentes também.
             Não, eu não vou compartilhar aquela mensagem de ajuda a uma criança deformada, porque a criança deformada da imagem é a mesma de um e-mail que recebi há uns 5 anos atrás. A não ser que essa doença congele o crescimento, a essa altura a criança já morreu ou foi curada. Tampouco vou compartilhar aquela mensagem da menininha desaparecida segurando uma flor. Se contar da primeira vez que recebi essa foto, a menina já deve estar com uns 15 anos hoje em dia. Mas na foto, continua com os mesmos 2 ou 3 anos de idade. E não, eu não vou fazer apologia da minha religião pra quem quer que seja. Se eu desejo seguir minha crença e não imponho a ninguém que o faça, se torna desagradável que acenem insistentemente os pequenos fanatismos do cotidiano na minha frente.]


             Ainda há muito humor, arte, beleza e poesia nas coisas simples do mundo... Mas a sutileza está morrendo, soterrada na mediocridade de uma sociedade que só pensa em termos de agora ou nunca, de vida ou morte, de amor ou ódio. As mentes se estreitam, se apequenam, as artérias ficam cada vez mais estreitas, entupidas pelo açúcar de um romantismo piegas. Há poucas pessoas capazes de olhar por cima desse muro, capazes de enxergar que há um mundo fora da caverna. E aos que já enxergaram, há todo o descontentamento em ver o quanto os que continuam lá dentro brincam com as sombras, de costas para a realidade. Compartilhe coisas boas, mas antes, descubra por si ou que elas são. Tente pôr a cabeça acima e olhar em volta, pois seguir a manada é muito fácil.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Tormentas de sentimentos

© TRA751T

Certas vezes procuramos palavras para expressar sentimentos que não tem nome. Nem sempre vingamos sucesso, pois a maré das paixões humanas é poderosa. Ainda assim, admiro mais aqueles que à guisa de marujos e pescadores, colocam seus pequenos barcos à mercê do mar, ainda que revolto, repleto de tempestades.

 Eu também possuo um barquinho. Eu também me ponho a enfrentar as ondas. Entre boas pescas aqui e amargos naufrágios acolá, sigo vivendo. Carrego em meu peito a honrada felicidade de impor ao mar minha vontade, sempre que é possível. Vivendo destarte, aprendi que o mar revolto dos sentimentos exige respeito, porém só reserva alguma clemência àqueles que respeitam a si mesmos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Mini-ditaduras




Dia desses, li uma matéria interessante a respeito de um assunto polêmico ao qual tenho prestado bastante atenção nos últimos tempos. Falava sobre um jovem casal, profissionais de boa formação, que tinham um relacionamento estável, feliz, e que não desejavam ter filhos. Ao ler a matéria, em muitos momentos me identifiquei com alguns argumentos, já que como mencionei, ultimamente tenho pensado com mais frequência no assunto “ter ou não ter, eis a questão”. Me vi bastante em alguns pontos, em outros nem tanto, mas procurei enxergar os diferentes lados da questão. Ao terminar a leitura, o que me impressionou mais profundamente não foi a matéria em si, mas o teor de alguns dos comentários feitos por pessoas não tanto do bloco dos que apoiavam a decisão de não ter, mas os do bloco dos que discordavam do casal. Percebi isso como sinal de um claro desequilíbrio em nossa sociedade, uma incômoda sensação de que vivemos certos aspectos dela em uma liberdade extremamente frágil. Uma mini-ditadura.

À medida que os meus 40 anos vão se aproximando, eu me ponho a pensar a respeito do gerar ou não filhos. À medida que a nossa vida avança, a gente vai percebendo que nem sempre -e nem pra todo mundo- aquele roteirinho pronto de vida perfeitinha funciona. No meu caso, por exemplo, tive um relacionamento sério bem jovem, e ao que tudo parecia, o roteiro ia ser o padrão. Namoro começado quando tinha meus 18, fomos morar juntos quando eu tinha 25. Só que o roteiro mudou. O casamento durou 5 anos apenas, e nos separamos antes de virem os filhos. Aos 30, por uma infinidade de razões (que não cabem neste post, seriam assunto para outro), foi com boa dose de alívio que enfrentamos uma separação que teria sido infinitamente mais estressante e menos civilizada se tivesse criança(s) na questão. Depois disso, vieram anos de solteirice que passaram rápido. Quase nenhum dos relacionamentos desse período conseguiu me levar a considerar a hipótese de casar ou juntar novamente, e nenhum me levou a considerar ter filhos. Aos 37, quase 38, mesmo estando em um relacionamento melhor que os anteriores, me reconheci como uma pessoa diferente de quando estive casado. Somaram-se as novas vivências, experiências e mudanças de modos de pensar a um certo anticonformismo que eu já tinha mesmo, no original. O tempo passou e eu comecei a ter mais capacidade de questionar certos padrões e certas posturas que a sociedade já espera da gente no automático. Não tinha sido a própria vida que em certo momento se recusou a me dar um roteiro padrão para seguir? Pois bem, então. Coincidência ou não, ter conhecido e estar namorando uma mulher tão “ponto fora da curva” quanto eu me fez repensar várias cobranças que a sociedade faz às pessoas. Como essa obrigação de formar famílias, ter filhos, procriar.

Já ouvi pessoas dizendo coisas como “mas quem vai cuidar de você quando ficar velho?” “Ficar velho sozinho é muito ruim” “Filhos são a alegria da nossa vida”... Tudo clichê, tudo pensamento pronto, tudo coisas que podem ser assim OU NÃO. Existe muito velho que tem filhos, e ainda assim se encontra abandonado. Existe muito velho que não tem filhos, mas que nem por isso é alguém solitário ou abandonado. Existe muitos pais e mães cujos filhos trouxeram muito pouca coisa além de sofrimento e desgosto em suas vidas. Já conheci, testemunhei, convivi, com muitas pessoas que não deveriam ter tido filhos. Acredito firmemente que nem todas as pessoas foram feitas pra serem pais. Aliás, a nossa sociedade ainda peca no entendimento de que procriar é muito diferente de formar um filho, ou de criá-lo minimamente bem. Sem contar com a glamourização da gestação, do nascimento, com objetivos puramente mercadológicos. Feiras de “gestantes-e-bebê” e lojas de artigos para bebês são uma ótima forma de observar as pessoas agindo no piloto automático imposto pela sociedade. Mas se você tiver ouvidos atentos, e uma cabeça capaz de entender algo mais complexo que futebol ou novela das oito, irá perceber que nem tudo são rosas. Às vezes você percebe uma mãe estressada pelo milhão de responsabilidades descontando irracionalmente sua frustração nos próprios filhos. Às vezes você testemunha o pai que nada mais foi que só um depositador de esperma num óvulo, faltando com tudo que se espera dele na formação de uma criança. Às vezes você conhece alguém que tem uma miséria emocional tão profunda, que duvida que um filho criado por aquela pessoa seja capaz de sobreviver nesse mundo estranho que temos aí hoje em dia. E no fim, chega à conclusão de que o simples fato de ser pai ou mãe não transforma uma pessoa ruim automaticamente numa pessoa boa. Qualquer canalha pode ter filho.

Mas quando volto ao caso da matéria, o que me vem à mente com mais força não é a questão da escolha de cada pessoa. O estranho é notar nos comentários uma grande quantidade de pessoas condenando a decisão do casal, como se sua verdade de pais fosse automaticamente mais valiosa que a dos não-pais. Fiquei pensando como essas mesmas pessoas reagiriam se fossem condenadas em suas decisões de terem filhos. Se a cada problema que enfrentassem na criação ou educação das crianças, lhes fossem jogadas na cara suas falhas. Tudo isso, se mistura na minha cabeça, conjugando um caldeirão que começa com a lembrança de vários episódios de “Supernanny” onde filhos batem na cara dos pais, crianças incontroláveis, meninas de 12 anos sendo mães nas favelas, inocentes abandonados na rua até não serem mais inocentes, e uma sociedade que discute com mais vontade o aborto do que a inteligência de se refletir sobre se um casal deve ter filhos ou não. Se vivemos numa sociedade de pequenas ditaduras, certamente esta é uma delas.

A propósito, a matéria que mencionei está neste link.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Abolição



















Hoje aboli alguns segredos,
Aboli também alguns medos e delírios...
Decretei, com a pena exata e cruel do destino
A abertura de um processo de libertação
da minha escravatura.

Exigi do meu futuro um abrandamento
Que não seja um fim, para o sofrimento
Ao menos que eu veja, que eu sinta
Um caminho a seguir, sem mentira, sem fintas
Uma estrada clara,ou uma forte viga
Não quero mais empurrar com a barriga.

Hoje aboli toda uma história de procuras cegas
Todo um passado de noites em trevas
Em negação de prazeres e fé.
Me permiti o direito de sonhar com futuros
De sair de subterrâneos, porões escuros
E na luz do dia, postar-me em pé.

Na ressaca da festa da libertação,
Me tornei consciente da minha verdade
Sou um livro aberto, minha própria ficção
A navegar o revolto mar da liberdade.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Dias de luta


















Ao meu lado, minhas botas descansam
Meus pés a sentir o frio do chão
Pela janela, vejo os anos que avançam
Em cada vez mais rápida sucessão.

A semana passou, eu não vi
Chateado, inadequado, dormente
Já a vida passando, eu senti
Pra culpar, só o maldito inconsciente.

Ouço cair uma chuva gentil lá fora
Mais agradável que esses meus dias
Sinto tanta saudade de sentir a demora
Das tardes quentes, das manhãs frias...

Mas a vida está aí, ela é feia, ela é dura
É boa de porrada, bate muito, muito bem
Espera pra te atacar numa esquina escura,
E depois de caído, te olhar com desdém.

Eis, que a semana molhada vai passando
Me retornam as forças, a dor diminui
A velha vontade de viver vai brotando
Já vou sendo outro, não mais quem fui

E o renascer dessas cinzas rotineiras
É a tônica de todo meu cotidiano
Como água a pingar de muitas torneiras
Ou as marés, com que conto meus anos.

(originalmente publicado em 13/06/2011)

Divagações

©Sxc.hu

Às vezes, é minha mente a divagar.
De vagar, de tanto vagar, ela cansa
Mesmo que vagueie devagar,
Mesmo quando a poesia a alcança,
O desânimo vem, e a faz hibernar

 Entra num ócio contido, um quase-sono
Um não-pensar desvalido de abrigo
Um morar em país estranho, sem patrono
É a mente a tropeçar, em território inimigo

Às vezes, é a vida e suas tragédias normais
Sejam más notícias, públicas ou privadas
Às vezes prejuízos, ou doenças mortais
Outras vezes, desilusões desamordaçadas

A mente flutua num âmbar cartilaginoso
Num pântano sutil de impressões a tirar
Uma selva implacável, habitat perigoso
E quase nenhum mapa para me guiar.

O segredo para sair, duramente aprendido
É ir pisando nas pedras que acaso encontrar
Mesmo que às vezes me suspeite perdido
Olha em torno, vê outra pedra onde possa pisar

Só se pisa na próxima, se mostrar-se segura
Firme, capaz de sustentar bem o peso
De nós, nossas vidas, dúvidas, amarguras
Pra seguirmos nosso caminho coeso
E partir de cada pedra, para trilhas futuras

E saindo dali, a mente descansa
Do repouso traz nova energia
Retoma um pouco do riso de criança
E abre espaço para a velha alegria.

sábado, 10 de março de 2012

Saudade


Tem momentos na vida em que a gente congela. Ficamos num estado estranho, no qual a inspiração até existe, mas não tem canal de saída. Aconteceu comigo recentemente. Um hiato de criatividade, um hiato de arte, um hiato de vida. É o que a gente sente na época posterior a uma perda. O falecimento de minha mãe, após seis meses de luta contra uma enfermidade difícil. Uma infecção fortíssima, concentrada na área dorsal da coluna. Descoberta, diagnóstico, tratamento, cirurgia, recuperação promissora, recaída e fim. Pegou a família de certa forma de surpresa, pois que ela, pessoa saudável durante toda a vida, jamais tinha ficado internada em hospital para nada que não fosse dar à luz os filhos. Ela, que do alto de seu 1 metro e meio, já tinha vencido desafios e dificuldades capazes de derrubar gigantes. Aparentemente venceria aquele desafio também. Infelizmente, não foi o que ocorreu, e a nossa pequena guerreira lutou sua última batalha. Com a coragem que lhe era peculiar, e com o apoio da família, até bem perto do último momento não dava mostras de que iria ser vencida, mas o momento derradeiro nos chega para todos, e para ela não foi diferente. Para nós ficou uma saudade imensa. Os procedimentos de velório, de enterro, e as semanas seguintes foram especialmente dolorosas. Burocracias, assuntos de cartórios, bancos, advogados, toda uma sorte de coisas que a família tem que resolver ainda navegando na dor de não ter mais alguém que há pouquíssimo tempo estava ali ao nosso lado. Nesse período, silenciei o que pude. Procurei fazer com que a dor, já que inevitável, fosse calma e trouxesse ensinamentos.

Guardei pouco mais de um mês de distanciamento de muita coisa, para poder colocar meus pobres neurônios em ordem. Guardei luto pela minha mãezinha, que faleceu no dia 3 de fevereiro passado. Logo depois que se passou o falecimento, fiquei pensando no que poderia escrever sobre isso. A emoção que eu sentia me fazia lembrar das milhares de elegias e homenagens que tantas pessoas já fizeram nesse mundo, nas pessoas que estampam fotos de entes queridos mortos na camisa, mas tudo isso me pareceu sem sentido. Como, se a saudade de alguém que me formou como ser humano é impossível de mensurar? Pensei muito nela, muito na pessoa dela, no jeito de ser dela e em tudo que aprendi com ela, e decidi fazer o que ela esperaria que eu fizesse. Mantive a cabeça erguida, segui com a vida. Dei meu tempo pro choro, dei meu tempo pra tristeza, mas segui com a vida. Isso foi o que minha mãe deixou de mais precioso como ensinamento para mim.

Aprendi com ela que a vida é difícil. Aprendi com ela que a vida é pra quem tem força, pra quem não se dobra, pra quem não se abate, pra quem apanha mas segue adiante. Aprendi com ela que amar o próximo não se trata apenas palavras doces e sorrisos, mas também querer o bem de quem se quer, e demonstrar isso até mesmo na hora de reclamar. Aprendi com ela a não dar razão para o erro, nem que seja um erro de quem nos é caro. Aprendi que quando gostamos dos nossos, cuidamos deles, e que cuidar muitas vezes envolve mais coisas que somente aprovar tudo que eles fazem. Com ela aprendi que podemos chorar, mas que não devemos chorar à toa. Que temos que ser bons, mas não devemos ser moles. Aprendi que a vida é mais feliz quando sabemos o que queremos. E que mesmo quando não sabemos o que queremos, saber o que não queremos é fundamental. Aprendi que as posses só trazem felicidade quando sabemos o que fazer com elas. Aprendi que devemos gostar de quem gosta de nós, e que a inversão dessa regra é a causa da infelicidade de muitas e muitas pessoas. Aprendi que por mais difícil que seja a vida, a honestidade é o único caminho certo, e que ter a consciência tranquila é uma benção que ajuda a gente a enfrentar as mais difíceis batalhas.

Poderia enfim, escrever ainda vários volumes sobre tudo que aprendi com ela, mas não viria ao caso. Basta dizer que do fundo da saudade que vai existir pra sempre em meu coração, aprendi com ela o fundamental. Na falta de meu pai, com quem não pude conviver desde os meus 5 anos e que faleceu quando eu tinha apenas 16, foi ela quem me ensinou praticamente tudo o que importa. Foi com ela que eu aprendi a ser um Homem. Isso sim, é uma herança a se deixar. Saudades pra sempre, D. Maroca!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Por trás da Cortina de Algodão-Doce



             Não adianta negar. Também não adianta fantasiar a respeito. Uma hora passa. Uma hora esquecemos. Uma hora o cheiro vai embora, o toque da pele desaparece das nossas memórias e até mesmo a voz é perdida no passado. A não ser, claro que tenhamos a pessoa por perto (e perto o suficiente) para nos lembrarmos de todas essas coisas. Ou que tenhamos uma dose extra desse veneno chamado apego correndo em nossas veias.
             Alguns alegam que é inesquecível, que é algo que fica marcado pra sempre. Normalmente os mais românticos. É mentira. Principalmente porque românticos gostam de mentiras. Tem preferência pelas mentiras mais doces. Mentiras algodão-doce. Cheirosas, macias, atraentes (e tão nutritivas) como uma nuvem de açúcar presa a um palito.
             Na verdade, esse romantismo que aí está é uma grande máquina de produzir covardes. Só que produz covardes que pensam ser heróis. Seu intrincado mecanismo produz ilusões de grandeza que fazem o mais medíocre movimento tomar ares de bailado. E o mais injustificado dos vícios ganhar justificativas até os confins do tempo e do espaço. É um romantismo que se diz democrata, mas oculta um totalitarismo ferrenho. Uma vez instalado na qualidade de sistema de governo, ele produz fanáticos, capazes de isolar e enviar a gulags de preconceito qualquer um que sequer sugira existência de vida fora de suas róseas fronteiras. O tempo desse romantismo passou, seus índices e conquistas já não se sustentam mais. É causa que só continua arrebanhando seguidores à custa de estatísticas fraudadas e sistemático ataque a uma maioria que pouco é dada a pensar.
             Uma grande verdade é que a alternativa é difícil. Sentir de verdade e pagar o preço por isso, sem a ilusão atrelada de corações alados num céu cor-de-rosa? É tão duro quanto gratificante, apesar de ser uma atividade muitas vezes solitária. Saber-nos inteiros, e procurar pernas que andem ao nosso lado em vez de muletas que nos sustentem? É muitas vezes terreno árido, até frustrante. Buscar equilíbrio e paz em um mundo onde o extremismo e o conflito são vendidos como um amargo e padronizado pão de cada dia? Requer coragem negar esse pão, que os simplórios comem até acharem-no delicioso. Saber a diferença entre sentimento e sentimentalismo? Entre amor e romantismo? Entre beleza e pieguice? Há que se ter nervos de aço, estômago de avestruz, olhos de águia e por vezes, saber dar coices poderosos. Escapar de patrulhas de idiotas especialmente treinados cujas únicas e brutas armas são relativizar nosso desconforto e acusar-nos de generalizadores? Requer habilidades refinadas, argumentação sólida e paciência monástica, pois todas as missões são difíceis nessa zona de fronteira.
             Mas chega o momento em que você descobre que é possível. Que há um jeito. Que consegue-se esquecer, barrar a influência e a dor das velhas feridas. Um dia, aprende-se o que é o apego, reconhece-se quando ele nos domina, e os momentos em que ele é perfeitamente dispensável. E o dispensamos. À medida que caminhamos em nossa jornada, aprendemos uma preciosa lição. A nossa sobrevivência com saúde e qualidade de vida emocional depende puramente de aprender a escolher o que levamos conosco e o que deixamos para trás. Pra isso, precisamos ampliar o conceito, e usar nossa visão não só para enxergar, mas também para ver. Ter olhos para ver, é mais ou menos por aí.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resoluções de Ano Novo


© Regis Rodriguez


Bom dia, muito obrigado pela atenção
Desculpe incomodar o silêncio da sua viagem
Trago aqui na promoção
Um pouquinho da minha verdade,
E um panorama da sua ilusão.

Aqui, só aqui na minha mão,
Tenho a mesma ambição que você
Aí fora custa muito mais,
Só vocês é que não podem ver.

Por isso essa minha cara de fome
Por isso essa minha falta de jeito
Mas eu sou sujeito homem,
Não querendo lhe faltar o respeito,

Vim dizer que eu quero mais
Muito mais do que eu tenho agora
Quero tudo que deixaram pra trás
Quero tudo que vocês jogam fora.

Quero tudo, sem pudor nenhum.
E se for pra sobrar, que me sobre algum.
Eu podia estar roubando,
eu podia estar matando, mas não.
Estou aqui, humildemente
Pedindo sua atenção.

O que eu quero não é nada demais,
Quero o carro que seu filho bate toda semana
E não me xingue, não me odeie mais:
Quero a grana que sua filha gasta com pó,
O “din-din” do whisky e da pílula, aliás
Que a senhora usa pra não se sentir tão só.

Quero aproveitar o que eu posso
Com as coisas boas que vocês tem
Porque mesmo isso não sendo nosso,
Vocês não sabem usar também...

Vou desperdiçar a minha educação
Enquanto me botam pra fora da lotação.
Mas não se incomode, um dia eu volto.
E não se espante se eu me revolto.
É que cansei da incompetência de vocês
De sentar na janela e não saber usar a vez.

Menos preguiça, menos, menos
Menos atropelo. Mais zelo, mais, mais.
Mais cuidado, concentração.
Mais sentimento, mais paixão.

Que caia do céu, não tenho vergonha
Direi para todos: sou aquele que sonha
Mais dinheiro? Mais, mais, mais mesmo.
Sabes que não vou gastar a esmo.

Mas agora eu vou partir
Agradeço pela atenção
Espero que o meu pedido
Encontre compreensão
E amanhã, numa virada de um outro ano
Eu já não esteja mais aqui,
Que eu já seja considerado um ser humano.
Com direito de cantar e sorrir.
Odemilson Louzada Junior

Originalmente publicado no Recanto das Letras em 01/01/2009

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Três é Demais? (Parte II)


Seguiu o plano, os dois acertaram os detalhes. Toda a logística seria providenciada por Ronaldo, cabendo a Mariana a palavra final sobre cada detalhe do processo. Ela não deixava de admitir que a hipótese de acontecer, todo o planejamento cuidadoso, toda a antecipação do evento a fazia sentir um pouco daquela ansiedade que Ronaldo demonstrara a princípio. Ele, por sua vez, já não demonstrava todo aquele comportamento que ela tanto estranhara a princípio. Com o acontecimento se desenhando no horizonte, ele tinha aos olhos dela voltado um pouco ao normal, o que ela não deixava de achar bom. Com Ronaldo capitaneando o processo, Mariana acompanhou a criação de perfis do casal em um site de encontros adultos, e opinava em tudo, às vezes sentindo um pouco daquela insegurança inicial, mas às vezes sentindo também um pouco dessa nova excitação pelo desconhecido. Passaram um período considerável de tempo nessa coisa de fazer perfil, escolher fotos, avaliar contatos e tudo mais. Mariana tinha que reconhecer uma coisa, seu marido tinha tomado cuidados para que o processo de busca por um parceiro fosse o mais tranquilo possível. Nessa etapa, ele não demonstrava pressa em escolher alguém nem aparentava estar afoito. Deixava que ela ditasse o ritmo, e volta e meia eles conversavam sobre as características de um eventual parceiro, o local mais adequado para levar a termo a fantasia, e outros detalhes.

Uns três meses depois de montarem o perfil, já tinham descartado um punhado de pretendentes virtuais que por uma razão ou outra pareceram inadequados. Lá pelo quarto mês, começaram a se corresponder por e-mail com um dos poucos candidatos da própria cidade deles que sobreviveu ao “pente fino” que fizeram. Alex era um cara tranquilo, não demonstrava aquele desespero ridículo de muitos que infestam os sites de procura por parceiros sexuais. Parecia entender todas as implicações do que buscava, e nas conversas iniciais que tiveram ele deu a entender que apesar de não muito experiente no assunto, já tinha tido oportunidade de praticar ménage e sexo grupal algumas vezes. Chegaram ao ponto em que tudo parecia ok, trocaram fotos e todos ficaram satisfeitos com o que viram. Mariana achou o rapaz atraente,Alex achou o mesmo dela, e Ronaldo achou que ele não tinha uma aparência que destoasse do casal. O momento se aproximava. Apesar de ainda se mostrar animada com tudo aquilo, bem mais que no princípio, Mariana ainda tinha (embora talvez naquele momento sequer percebesse) plantado lá no fundo de si aquela pequena semente intuitiva. Mas era cada vez mais fácil ignorá-la. Ronaldo e ela discutiram vários detalhes, e ela embarcou com sinceridade no tesão dele. Ao perceber o quanto ele ansiava por vê-la possuída por outro, por dividi-la com outro, os momentos em que falavam no assunto enquanto faziam sexo e se tornavam cada vez mais quentes e intensos. Mais uma vez, a segurança que Ronaldo lhe passava ao repetir sempre que era apenas uma fantasia como muitas que já tinham realizado, só que um pouco mais picante, fazia com que suas intuições ficassem cada vez mais ocultas nos bastidores de sua mente.



Enfim, o dia chegou, com toda a pompa e circunstância. Encontro cuidadosamente planejado, lugar escolhido, um motel que por precaução estava entre os que eles menos freqüentavam, e cujo acesso facilitava a entrada de uma pessoa a mais no carro sem que se criasse um problema. Nesse dia, pela manhã, Mariana sentiu uma pontada mais forte de sua velha intuição, mas não com força suficiente para que sentisse vontade de pisar no freio da situação. Lembrou-se de que era apenas uma fantasia, como costumava dizer seu marido. Além de tudo isso, Alex tinha demonstrado ser, durante todo o período da aproximação, uma pessoa legal. Tiveram oportunidade de confirmar isso uma semana antes, quando marcaram um chopp para conhecê-lo pessoalmente. Sentaram-se num bar conhecido da cidade e conversaram por horas, como bons amigos. Em alguns momentos o papo escorregou para coisas mais picantes, mas em momento algum Alex foi direto ao assunto dos planos que tinham. Preferiu contar histórias de suas experiências anteriores. Era discreto, não revelava nomes, mas soube narrar as histórias de um jeito que deixara Ronaldo e Mariana extremamente excitados com aquele universo que estavam a poucos dias de experimentar. Nessa noite, ao chegar em casa fizeram sexo num grau de intensidade que poucas vezes tinham alcançado em todos os anos em que estavam juntos.

Assim, no dia em que finalmente foram para o motel com Alex, por incrível que pareça, nada foi muito longe do esperado. Mariana conseguiu controlar um pequeno nervosismo inicial, Ronaldo se deliciou como esperava, e Alex cumpriu o papel que o casal esperava dele. Passaram horas, se divertiram, gozaram todos dos prazeres que tinham ansiado para aquela ocasião. O que de realmente notável pode ser dito desse dia, não foi o que aconteceu nele, mas o que aconteceu a partir dele. Passada a ocasião, Alex deixou-se disponível para repetirem sempre que quisessem a brincadeira. E demorou um pouco para que Mariana percebesse que algo havia mudado.



Algumas semanas depois, percebera uma quase imperceptível queda no tom de ânimo de Ronaldo. Coisa que só uma mulher percebe em entes queridos próximos. Não tocou no assunto de pronto. Deixou passar o tempo para ver se algo mudava. Mais algum tempo e algumas transas um pouco menos satisfatórias que o normal deles, Mariana percebeu que Ronaldo também tinha diminuído muito seu costume de falar em fantasias ou mesmo as safadezas de sempre durante o sexo. Começou a sentir-se mal cada vez mais, até o momento em que teve segurança o suficiente para tocar no assunto, sem que o marido pudesse escapar com o famoso “nada não”. Mariana arrependeu-se imediatamente de ter perguntado, pois ao invés da evasiva esperada, a reação de Ronaldo era estranha, diferente do que estava acostumada. Tinha dado uma desculpa esfarrapada, sem nenhum cuidado de parecer plausível, coisa que ele jamais tinha feito com ela. Imediatamente ela sentiu que havia algo de muito errado com ele. E não demorou muito tempo para que seus sentimentos se confirmassem com fatos. Aos poucos Ronaldo foi ficando mais e mais arredio, mais e mais acabrunhado, mais e mais estressado. O sexo diminuiu sensivelmente de quantidade, duração e qualidade.



Até o momento, em uma discussão rotineira em que os ânimos se elevaram, trocaram farpas que não tinham nada a ver com o assunto inicial. Mariana acabou mencionando a queda na qualidade sexual e Ronaldo explodiu de maneira irracional. Começou a dizer de forma descontrolada que Mariana gostava mais do sexo de Alex que do dele, que Mariana estava deixando de gostar dele, que ela tinha pensamentos com Alex o tempo todo. Mariana não podia acreditar no que ouvia, era um sentimento de mágoa profunda que brotava em seu coração. Sentia-se tão mal quanto, talvez pior do que se tivesse sido traída. Em questão de segundos milhares de pensamentos formaram um turbilhão em seu cérebro, sendo que conseguia distinguir apenas uns dois ou três, e ficou completamente fora de si. Lembra de pouca coisa do que disse, mas dentre elas, de ter mencionado repetidas vezes que a idéia foi dele, de Ronaldo. Que no início ela não queria. Que ele insistiu que era uma coisa que correria com tranqüilidade. À medida que os ânimos continuavam elevados e o teor de irracionalidade nos argumentos, resmungos e acusações de Ronaldo não diminuía, ela ia experimentando um sentimento que jamais tivera por seu marido, mesmo nas piores brigas que porventura tiveram naqueles 12 anos de convivência. Aquela semente de intuição que antes ela conseguira ignorar diante da excitação do novo, agora tinha crescido e se transformado em uma planta de desgosto. E a atitude de Ronaldo contribuía para nutrir as raízes dessa planta, e torná-la cada vez mais forte.


A mágoa de Mariana cresceu, um extremo desagrado pela atitude de Ronaldo fazia com que dali pra frente, o diálogo entre os dois fosse cada vez mais difícil. De um casal feliz, aos poucos foram passando a conviver num habitat cada vez mais inóspito. A atmosfera entre os dois era mais rarefeita que nunca. Pouco falavam que não fosse de assuntos do cotidiano, ambos conscientes de que qualquer tentativa de voltar ao fatídico tema poderia resultar em nova torrente de acusações impensadas, mal-estares e decepções. Ronaldo oscilava entre um arrependimento mal-humorado e um ressentimento anormal. Mariana entre uma mágoa crescente, misturada a um desapontamento triste, doído. Ambos se tornavam cada vez mais apáticos à medida que cada tentativa de retomar a conversa ou colocar o relacionamento nos eixos fracassava. O que no início eram brigas com agressivas trocas de acusações, aos poucos foram se tornando conversas cada vez mais evasivas, oblíquas e sem clareza de intenções. Passados alguns meses naquele clima péssimo, num momento calmo em que o desânimo mútuo era palpável, decidiram por separarem-se. Algum tempo depois, Mariana pensou em Alex. Lembrou em detalhes daquele dia em que fizera sexo com ele e com seu marido, mas com certa melancolia, percebeu que pouco lembrava do rosto de Alex. Já de Ronaldo, não fazia questão de lembrar. A planta do desgosto tinha crescido, dado frutos e ela esperava o momento em que a mesma planta morresse. Talvez assim, sem as sombras que ela lançava, o sol voltasse a lançar raios sobre seu coração.
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Esse texto não foi escrito para apoiar ou para ir contra a experiência à qual o casal retratado se propôs. Antes de mais nada, desejei traduzir nele a idéia de que mesmo as mais corriqueiras experiências de vida podem ter resultados completamente diferentes em função do quanto seus protagonistas estarão (ou não) preparados para vivenciá-las. Sigo acreditando que viver é complicado: exige arte, competência e capacidade de assimilar porradas. Não vejo com olhos românticos aqueles que caem no caminho, abatidos pelas porradas. É como disse sabiamente o personagem cinematográfico Rocky Balboa, (a vida) “...se trata do quão forte você apanha e  consegue seguir em frente”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Três é Demais? (Parte I)

Esta é uma história real. Não aconteceu comigo, nem com alguém que eu conheça lá muito bem. Tampouco se trata de um daqueles famosos casos tipo “um amigo meu contou”. É uma história que acompanhei em parte à distância, em outra parte por relatos de pessoas bem mais próximas dos personagens que eu. E é uma história que já deve ter se repetido tantas vezes por aí, nesse nosso mundo, que mesmo ocultando os nomes para proteger a identidade das vítimas, as informações restantes são mais que suficientes para poder montar esse relato. E para que ainda assim, eu corra o risco de que seus protagonistas se reconheçam aqui.

Ronaldo e Mariana (nomes fictícios, porém bem próximos dos verdadeiros) formavam um casal feliz. Consideravam-se uma dupla bastante normal, modernos e bem-resolvidos. Juntos desde a época do ensino médio, morando numa cidade de médio porte e de bom nível de vida no interior do estado. O fato de seu relacionamento ter atravessado período de faculdade, por todas as fases entre noivado, casamento, montagem de casa, e vida a dois sem terem tido grandes brigas, ou idas e vindas, ou crises com separações mesmo que temporárias, tinha deixado em ambos uma confiança bem grande na solidez de sua relação. Se amavam de verdade. Se gostavam. Se respeitavam. Sentiam tesão um pelo outro.

O aspecto tesão, principalmente, era visto pelos dois praticamente como o símbolo-mor do sucesso daquele relacionamento. O relacionamento, contando namoro e casamento já chegava às portas dos 12 anos. E na cama, sempre tinham sabido evoluir bem, das primeiras experiências do início do namoro até o domínio de várias capacidades em dar prazer um ao outro. Dentro do quarto, sempre foram extremamente democráticos, sem-vergonha, desinibidos. E mesmo individualmente, reconheciam que tinham libidos e impulsos sexuais com forças equivalentes. Sentiam com sinceridade que formavam uma boa equipe.

Em algum momento nessa virada dos 12 anos de relação, Ronaldo começou a sentir um pequeno pulsar de insatisfação. Não algo incômodo, nem algo que o fizesse desgostar do sexo que fazia com Mariana, também nada que o fizesse mudar de idéia quanto ao que pensava a respeito da qualidade de sua vida sexual. Apenas um pulsar, um pequeno comichão de curiosidade, uma vontade de saber mais sobre formas mais radicais de sexualidade. Ele sempre tivera uma curiosidade sexual aguçada, até mais acentuada do que a esposa, embora essa curiosidade fosse de fôlego curto. Gostava muito de pornografia, masturbava-se regularmente, adorava ver sacanagem na internet. Mas seu envolvimento com isso era sempre algo raso, algo somente recreativo, ou para inspirar tesão e satisfazê-lo de maneira mais imediata. Só que ultimamente Ronaldo, movido pela curiosidade de sempre, acabava detendo-se mais no que brincava ser o “submundo da internet”, não só satisfazendo-se graficamente, mas também lendo, analisando, pensando em possibilidades. Por um tempo, uma idéia começou a tomar forma no fundo de sua mente, de maneira lenta e gradual, até aparecer com força e identificar-se como uma pequena obsessão que se iniciava. Ronaldo começou a alimentar a fantasia de fazer sexo a três. A coisa tomou forma, floresceu em sua mente, e quando deu por si, havia todo um cenário pensado, onde a idéia de dividir sua mulher (seu amor, sua gostosa, sua safada, sua putinha) com outro homem o deixava cada vez mais excitado.



Mariana era uma mulher simples. Não simplória, nem burra, nem de mente pequena, limitada, nada disso. Simples. Era uma ótima pessoa. Seus impulsos, seus movimentos pela vida, seu jeito de ser como um todo, era baseado na simplicidade.Tivera uma educação sexual inexistente dentro de casa, bastante interiorana. Família católica, muito diálogo sobre a vida, mas muita vergonha , e diálogo pouco ou nenhum sobre sexo. Tudo que sabia na época em que começou a namorar com Ronaldo, aprendera com amigas, na escola, nas conversas com colegas mais saidinhas, enfim...era àquela altura o tipo de menina que morria de vergonha até de pensar em se masturbar. Com a vinda do namoro, com a convivência com Ronaldo, com a confiança construída com o tempo, considerava que aprendeu bastante. Descobriu-se mulher. A cumplicidade de Ronaldo, as informações que a curiosidade natural dele pelo sexo lhe traziam, e a vida a dois do casal fizeram com que o orgasmo, a masturbação, as pequenas fantasias, as brincadeiras eróticas, passassem a fazer parte de sua vida. Davam-lhe prazer não só pelo sexo, mas por sentir-se possuidora de um poder, de algo que sabia ter sempre existido dentro de si, mas que sua sexualmente repressora educação não tinha permitido que desenvolvesse antes. Simples como era, Mariana atirou-se aos seus impulsos sexuais com prazer e alegria. Encontrou-se com toda sua simplicidade, como uma mulher que gostava muito de sexo, simples assim. E compartilhava seus desejos com Ronaldo, divertia-se, tirava deles muito prazer, e era feliz com isso.

Até o momento em que Ronaldo veio com a proposta. No início, começou como sempre que tinham uma idéia nova, uma nova fantasia, uma nova travessura sexual. No meio de um ato sexual, na hora em que ambos gostavam de trocar palavras loucas, um e outro xingamento, uma ou outra fantasia solta, Ronaldo mencionou a idéia de transarem a três com um segundo homem. Mariana assustou-se um pouco mas entrou na brincadeira, achou que Ronaldo falava só como componente de excitação da transa. Mas a cada vez em que transavam, ele tornava a entrar no assunto, e ela parou pra pensar. Sentia-se um pouco insegura, não pela fantasia em si. Nem pela ideia ser algo tão exótico. O que a preocupava mais era uma certa insegurança, uma certa intuição de que talvez fosse uma má idéia. Considerava-se uma mulher segura, já não era mais uma adolescente inexperiente, mas como considerava seu relacionamento sexual tão mais saudável que o de tantas mulheres com quem tivera oportunidade de conversar, nunca tinha considerado a hipótese de incluir uma terceira pessoa (fosse homem ou mulher) em suas fantasias sexuais. Então, quando sentiu-se à vontade para tocar no assunto com Ronaldo fora da cama, procurou manter a cabeça aberta ao máximo, mas não podia evitar de sentir uma incômoda insegurança, e mais profundamente ainda, a sensação de que aquilo não era algo que fosse acabar bem.



Mariana estranhou um pouco o jeito de seu marido. Obviamente já tinha visto muitas vezes Ronaldo animado, querendo muito alguma coisa, mas não daquele jeito. Ela associou seu jeito ao de um vendedor desesperado para concluir uma venda. A ansiedade com que ele tentava convencê-la de que seria legal, de que seria um passo à frente em seus currículos sexuais, de como era algo que tanta gente fazia e que não tinha nada a ver, bastava fazer e acabou, e milhares de outros argumentos. Mariana já tinha sentido um pouco de lentidão para digerir a ideia em si, mas com aquela mudança de comportamento de Ronaldo a coisa se tornou ainda mais difícil. Sendo assim, ela pediu que ele desse um tempo, que ia pensar no assunto. À medida que o tempo passava, Mariana pesava prós e contras, analisava a questão, mas sempre com Ronaldo por perto, não exigindo uma resposta, mas tocando de leve no assunto, deixando no ar informações a respeito, ou dando sinais de que estava tudo bem. Não chegava a insistir na resposta, mas também demonstrava que esperava muito por ela. Quando ela finalmente chegou a uma decisão, pesou bastante ter achado que Ronaldo tinha sido cuidadoso em deixar por conta dela a palavra final na escolha do parceiro, e ainda com a promessa de que ela poderia parar o processo a qualquer momento se sentisse que não estava 100% certa de que era pra acontecer. Só que ainda assim, mesmo com todas as garantias e promessas que Ronaldo tinha feito, mesmo com a diminuição da insegurança que sentiu a princípio, em seu íntimo Mariana ainda tinha uma intuição muito discreta de que algo poderia não dar certo. Um último pensamento que passou por sua cabeça, e que fez com que se convencesse afinal, foi o medo que nasceu ao assistir a ansiedade de Ronaldo. A segurança que sentia durante todos esses anos de relação com ele, começou a balançar um pouco, pois imaginava que se dissesse não, por mais que ele dissesse que não queria obrigá-la a nada, fizesse com que ele começasse a desanimar do sexo com ela. E que isso escalaria até chegar a um futuro de insatisfação mútua, que era um cenário que ela não desejava de maneira alguma. Achou, afinal que valia a pena fazer aquela loucura para manter seu casamento em seu devido lugar.

(Continua)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O homem que não gosta de mulher


© sxc.hu

             O título pode ser enganador, eu sei. Mas depois de tudo posto às claras, tenho certeza que ficará mais fácil de entender o porquê da coisa. A questão é que existe por aí muito homem que não gosta de mulher. E não, meus amigos... não estou falando dos homossexuais. Com o direito que me compete de fazer o “trocaralho do cadilho”, nesse caso o buraco é mais embaixo. Ou mais em cima, talvez. É um buraco do tipo que psicólogos e sociólogos teriam mais familiaridade para explicar do que eu. Mas como estou aqui para descrever a fauna dos homens que não gostam de mulher, e não dos buracos psicossociais que os implicam, vamos ao trabalho.

             O homem que não gosta de mulher é uma espécie comum, está bem integrada à nossa fauna, tem se reproduzido em ritmo muito rápido, e à primeira vista tem muito pouca diferença do homem que gosta. Quase nenhuma, pra falar a verdade. Há mulheres que casam-se com eles e só vão se dar conta disso lá pelo oitavo, décimo ano de casamento. A descoberta é algo que contribui muito para as tão frequentes separações. É comum essa ficha cair na hora em que ela está mandando o cara pastar, em definitivo. Amiúde, esse tipo de homem ter sido criado por uma mãe sozinha, ou quando tivesse pai, por uma mãe que mandasse em todos, no pai inclusive. Mas não se enganem. Ele também pode ter sido criado por uma mãe submissa e anulada, ao lado de um paizão grosso, agressivo e boçal. Há diversos ambientes que geram um homem que não gosta de mulher, e cada um desses personagens citados pode contribuir bastante para a formação do nosso objeto de estudo.

             Temos aquela mãe que cria o garoto sozinha, por exemplo. Vinda de um casamento fracassado e de uma separação dolorosa quando ele era ainda muito pequeno, ela depositou no seu menininho toda a responsabilidade de ser o “cem por cento” da felicidade dela nesse planeta, e o trata dessa forma, como um presente que caiu do céu e que está acima de tudo que existe nesse mundo. Um ser divinal, uma criança dourada, perfeita e fonte de todo o prazer e alegria que uma mãe possa querer. Não é difícil de imaginar que uma criança amamentada por esse tipo de conceito realmente vá crescer se achando um presente perfeito, não só para a mamãe dele, mas por extensão automática, para todas as mulheres desse planeta. Temos aí se formando um homem que não gosta de mulher. Ele gostará que mulheres o bajulem, troquem suas fraldas, aceitem tudo que ele faça como se fosse lindo, que jamais fiquem bravas com ele porque ele afinal, é perfeito ora essa! E isso vale pra toda a vida adulta do bebê. Não é lindo?

             Mas o pai boçal também sabe produzir seus monstrinhos. A grosseria, a exagerada atenção à superficialidade, o amor único ao dinheiro, ao status, ao material e o machismo são ótimos alimentos para crianças que um dia serão homens que não gostam de mulher. Nesses casos, o menino cresce se espelhando naquele cara que trata garçons, empregadas, serventes e subalternos mal. Aquele cara que por mais rico que seja, fala alto e gosta de usar palavrões, dizendo-os com a boca cheia. É aquele que mesmo quando pertencente às classes mais abastadas, não abandona o sotaque carregado. O pai que olha a mulher gostosa na rua e não vê a mulher. Olha através dela. Fala “gostosa” para um conjunto de conceitos, e diz as palavras no automático. Uma figura humana rasa, mas que justamente por sua flagrante não-profundidade, consegue reservar espaços preciosos para se tornar muitas vezes um cara bem-sucedido. É muitas vezes malandro, escroque, desleal, predatório. Tem pelo sexo a gana que o viciado tem por certas drogas, que mal passam pela corrente sanguínea, já deixam a fissura no seu rastro. Sexo pra esse tipo de homem, e para os filhos que crescem idolatrando-os, é a suprema masturbação, tanto que não gostam de mulheres, apenas as usam como substitutos enfeitados das mãos para masturbarem-se. Os meninos criados para ser homens que não gostam de mulher muitas vezes são vorazes. Primam pela quantidade, e também pelo seu distorcido senso de qualidade, mas a quantidade vence. E o que é mais engraçado, é que eles muitas vezes pensam que gostam de mulher. Foram ensinados a demonstrar, a fazer o jogo, a aparentar. Em seu código de valores, dificilmente entra o interesse humano. Aquela curiosidade saudável pelo que é da natureza de outra espécie? Eles não ligam. Sabe aquela capacidade dos grandes craques do futebol, que parecem tratar a bola bem, que parecem bailar com a bola, justamente por respeitar seu formato redondo? Esqueça. O homem que não gosta de mulher não sabe fazer isso. Simbolicamente, no que diz respeito a saber como lidar com a pelota, ele seria a epítome do perna-de-pau do mundo do futebol.
           
             Não é de se admirar que esses meninos cresçam e desenvolvam-se bem. Criados nesse ambiente de tanta atenção, recebendo doses cavalares de amor, e tendo cada mínimo desejo atendido, viram rapagões vistosos. Chegam à adolescência conscientes de seu lugar num mundo onde as aparências reinam supremas. Um mundo ágil, visual e esquizofrênico, onde os conceitos vendidos pela mídia são a verdade mais absoluta, e até mesmo a postura contestadora é milimetricamente padronizada. Um mundo onde você já sabe as bandas que vai escutar, as drogas que vai usar e as cores que irá vestir. Onde o seu corte de cabelo dependerá da turma com quem você anda. E todas as meninas tiram exatamente as mesmas foto na frente do espelho. Nesse mundo onde o padrão é a lei, não se gosta mais de mulher. Gosta-se de simulacros de mulher. Admira-se proporções de peito, coxa e bunda. Toda mulher, é loira. Até a morena é loira. A negra é loira e a japonesa, também é loira!

             Os fashionistas tomaram o poder. O mundo da moda é o Quarto Reich, e os nazistas de passarela não gostam de mulher. Um dia, eles decidiram mandar todas as mulheres de verdade para os campos de concentração. Aqui do lado de fora, ficaram apenas cabides desenvolvidos geneticamente para andar, falar, usar roupas e convencer o resto do mundo de que são a única forma de mulher aceitável no planeta. Enquanto isso, as mulheres de verdade, vivendo em seus Auschwitzes e Treblinkas particulares, submetem-se às mais incríveis sessões de tortura, para ficarem parecidas com os cabides e poderem ser consideradas mulheres de novo. Permitem que médicos pouco qualificados façam com elas coisas que um dia (espero) serão consideradas tão bizarras quanto as câmaras de gás nazistas. Preenchimentos labiais que fazem a mulher parecer um baiacu, remoção de costelas para afinamento de cintura, anorexia, bulimia, inserir um tubo de plástico para sugar de forma aleatória e irregular nacos de gordura das próprias cinturas... Um verdadeiro show de horrores para fazer toda uma população que um dia foi vista simplesmente como mulher, se encaixar em um padrão. E na aurora desses novos tempos, os cabides estão ficando cada vez mais magros, as alterações mais radicais. E o número de homens que não gosta de mulher, mas sim de imagens, de estátuas, de objetos inanimados que não pensam nem interagem, aumenta também. Enquanto isso, os poucos que gostam do que um dia foi chamado de mulher de verdade passam por maus bocados. Sentem-se vazios ao olhar para os cabides de um lado, e assustados ao assistir o crescimento da população dos seus congêneres que não gostam de mulher. Só lhes (nos) resta aproveitar seus (nossos) últimos e bons momentos ao lado das suas amigas, namoradas, parceiras, esposas e seres queridos do intrigante sexo feminino, antes que elas se vão, para nunca mais voltar.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pai, o problema é só seu mesmo?



Nasci nos anos 70, época em que era bonito fumar. Campanhas contra o tabaco eram a rigor, inexistentes ou restritas ao espaço dos ambulatórios e hospitais. Os adultos daquela geração foram fartamente alimentados com imagens do glamour da era de ouro de Hollywood, ícones do cinema, celebridades e socialites, todos com seus cigarros à mão. Não era de se espantar que o fumo fosse algo tão popular. As propagandas de cigarro estavam invariavelmente, entre as mais caras, sofisticadas e emblemáticas peças de publicidade de então. Uma lembrança que tenho de infância, é a cena comum das mesas dos restaurantes, sempre com um cinzeiro, o ambiente enfumaçado pela presença de um ou às vezes mais de um fumante por mesa. Outra lembrança é a da mesa lá de casa mesmo, onde meu pai costumava fumar. E mesmo então, eu um pirralho (de que, quatro anos? Talvez cinco?) já achava desagradável a fumaça do cigarro, e mais ainda à mesa na hora de se comer. Lembro de reclamar com meu pai. Se ele achava graça, desconversava, ou fazia algo capaz de diminuir meu desconforto, bom aí a minha memória já não chega ao detalhe.

Passou o tempo, vieram campanhas de conscientização, a informação aumentou. Mas mudar toda uma cultura leva tempo, pode ser difícil, e mesmo hábitos danosos à saúde podem ser muito difíceis de perder. Meu pai tinha um histórico de saúde complicado. Desde jovem, segundo minha mãe contava, tinha enfrentado algumas enfermidades que diminuíram consideravelmente sua saúde. E de quaisquer hábitos ruins para a saúde que tivesse, segundo ela, o fumo sempre foi o mais freqüente. Se em algumas épocas se alimentava mal, em outras tinha um bom apetite. Se em certos períodos tendia a perder um pouco a mão na bebida, em outras mantinha-se longos períodos sem beber nada alcoólico. Mas o cigarro, esse não... era companheiro constante, compulsão assumida, muleta, dispositivo indispensável à sua existência. Tendo em vista o cenário montado, não era de se espantar o final do espetáculo: meu pai morreu cedo, aos 55 anos. Vítima de complicações de uma doença crônica que nada tinha a ver com o hábito de fumar, diretamente. Porém, segundo os médicos, tratava-se de uma doença que se bem administrada e tratada, permitiria que qualquer um que a tivesse levasse uma vida praticamente normal até uma idade avançada. Desde que cuidasse de sua saúde. Lembro de, aos 16 anos de idade, chegar um tanto timidamente ao lado do médico e perguntar se o fato de meu pai fumar muito teria adiantado ou contribuído para a morte. “Ah, com certeza”, foi a resposta. É algo difícil de se esquecer.

A vida passa. A gente cresce, segue adiante, mas confesso sentir uma saudade grande do velho. Talvez especialmente doída, por ser mais uma saudade do que não vivi, do que faltou, do que não houve. Meu pai era o tipo de cara pra se curtir na vida adulta. Era um cara inteligente, boa conversa, culto. Que maravilha teria sido sentar com ele num fim de tarde pra falar de cinema, de política, de coisas do mundo. Isso era a cara dele. Mas não penso nisso de uma forma egoísta. Modestamente, creio que teria sido bom pra ele também. Creio que ele gostaria de ver o moleque pequeno dele ter se transformado em homem, e que ele teria gostado de ver que era um homem que gostava de conversar tanto quanto ele, que gostava de um papo inteligente, de assuntos semelhantes e tudo mais. Seria bom para os dois.

Por tudo isso, não consigo deixar de sentir um desconforto quando vejo alguém defendendo o “direito de ser viciado”, o “direito de usar uma substância”, o direito do “quero ser fumante sim, quem se ferra sou só eu”. Me parece de uma hipocrisia profunda, a pessoa usar pra isso o belo e consagrado nome da Liberdade Pessoal enquanto conceito amplo. Parece hipócrita, pois a pessoa o faz para justificar e/ou defender um vício seu, um movimento que provém de uma necessidade interior, de um impulso que se bem analisado, torna todo viciado um egoísta. Claro que isso pode ser aplicado a várias outras substâncias, drogas, mas como aqui a questão é a minha história pessoal, falo do vício no cigarro apenas. Até para evitar infinitos desdobramentos que fariam esse texto perder seu ponto. Meu pai fumava, fumou por anos. Mas justiça seja feita, nunca ouvi da boca dele um “fumo mesmo quem se ferra sou eu” ou um “me deixa, é problema meu”, frases que já ouvi mais de uma vez de mais de um amigo ou conhecido nessa vida afora.

Bem, lá se vão vinte e um anos que meu pai é falecido. Há poucas semanas, minha mãe foi submetida a uma cirurgia complicada. Coisa de coluna, onde precisou ter acesso pelo tórax, coisa grande, seis horas e meia de procedimento. A família toda no suspense, praticamente acampados na frente do centro cirúrgico. Aguardando as notícias e tudo mais. Acontece a cirurgia, felizmente tudo corre bem, os médicos aliviados ao saírem da “batalha”. Numa das conversas ansiosas que temos ao fim de uma coisa dessas, pergunta daqui se correu tudo bem, responde dali da melhor maneira possível, e tudo mais, eu ouço uma pergunta: “Sua mãe fumava?”. Respondemos que não. O médico faz cara de surpresa, diz que a coloração do pulmão da minha mãe (que, repito, não era nem de longe objeto da cirurgia) era bastante característica. Nesse momento, não consegui deixar te sentir uma ponta de raiva do meu falecido pai. Mas rapidamente desviei o ódio para aquele vício maldito, que vinte e um anos depois, se fazia lembrar. Deixando a sua lembrança através de um fumo passivo, de alguém que amava aquele homem que, por escolha própria, decidiu se destruir aos poucos. E deixar uma pequena lambrança dessa destruição, para cada um de nós, seja na saudade que sinto de sua partida prematura, seja nas manchas nos pulmões de uma senhora de 77 anos submetida a uma perigosa e cansativa cirurgia de seis horas e meia. Vício maldito.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tigre

© GermanGirl
Nasci no escuro da mata,
Sedento de carne e de sangue
Felino raiado, de redonda pata,
Mortal na neve, mortífero no mangue

Fui demônio, fui sábio, fui um deus
Sou a sombra na memória da aldeia
Que já deu fim em muitos dos seus
Sou agente do destino, e de sua teia.

Sou vários poderes encarnados,
Sou belo e terrível de se ver
Sou terror que finda os seus pecados
Ou mais perfeita visão de seu prazer...

Meu pelo, feito de sombra e sol
Meus olhos, portas a outra dimensão
A minha voz, que faz calar o rouxinol
E minha força, que não encontra oposição.

Sou senhor de mim, majestoso, seguro
Não conheço medo, apenas a mágoa de ti
Pois jamais temi pelo meu futuro
Até o bicho homem aparecer por aqui.

Sou tigre, estepes, florestas, montanhas dominei
O rei da Ásia, força encarnada, silêncio mortal
Hoje meu futuro é incerto, do amanhã não sei.
Talvez meu reinado já se encaminhe ao final.

Mas até que o último de meus irmãos se vá, tão cedo
E com as sombras da floresta se junte enfim,
Influenciarei aos homens, com fascínio e medo
E os farei se arrependerem de desejar meu fim.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Muito ajuda quem não atrapalha


Meninos eu vi. Estive na Cinelândia no 20 de setembro. Fui testemunhar como seria a manifestação contra a corrupção. Vi o filme, li o livro, como dizem por aí. Entre 2.500 e 4.000 pessoas reunidas. Uma série de interrogações para quem não foi, um certo prazer, ainda que singelo, discreto até, para quem esteve lá. Foi uma manifestação tranquila, não necessariamente pelo número ainda pequeno de participantes. A tranquilidade talvez viesse de um sentimento reconfortante de saber-se presente em um lugar onde todos concordavam com uma ideia simples. Talvez fosse o sentimento de perceber que afinal, nem todo mundo se encontra tão apático quanto à questão fundo de poço institucional que se instalou na política desse Brasil pós-mensalão petista. De pelo menos ali, no meio daquelas 2.500 a 4.000 pessoas, poder-se olhar para o lado e pensar que alguém que poderia ter ido pra casa resolveu ficar, dar um pouco de seu tempo, participar.

Percebo que muitos colunistas, blogueiros, comentaristas, jornalistas e afins tem criticado de forma rabugenta, desprovida de um mínimo de simpatia ou até contundente esse tipo de movimento. Vê-se em alguns um reflexo de extrema descrença, pessimismo, pragmatismo em níveis pouco saudáveis. Em outros, uma necessidade premente de ligar toda e qualquer manifestação àquela esquerda mais pateta e radical que ainda subsiste por aqui, denotando mais rabugentice ideológica do que interesse em que alguma coisa melhore. Em outros ainda, um certo ar de superioridade, semelhante ao daquele empresário da gravadora Decca que disse que aquele tal de rock que os cabeludos tocavam não tinha futuro. Algo como "eu sou foda, eu sei do que estou falando, e essa merda aí não vai pra frente". Então tá. Todos tem o direito de expressar-se nesse sentido, e quem sou eu para criticar esse direito. Mas penso da seguinte maneira. Tantos comentaristas falaram da validade do uso das redes sociais recentemente nos agitos do Oriente Médio, agora aqui no Brasil dizem que é besteira? Tantos desses articulistas criticam a mania "manifestacionista" dos PSOLs e PSTUs da vida. Entretanto quando é um movimento nascido apartidário, conduzido por cidadãos comuns, que apenas tinha como objetivo passar uma mensagem de insatisfação, acontece eles procuram imediatamente ligar uma coisa à outra? Será que mesmo que os PSOLs e PSTUs eventualmente peguem carona, por puro oportunismo, em alguma dessas manifestações, o fato de serem apartidárias e direcionadas já não seria uma boa coisa. E para ser espírito de porco nesse caso: deveriam ficar menos preocupados, porque cá pra mim, PSOLs e PSTUs são péssimos até pra fazer manifestações efetivas. São café com leite, deles a natureza cuida. Acho que falta um pouco de boa vontade aos nossos articulistas, colunistas, blogueiros e jornalistas de plantão. Talvez pensar que toda manifestação que faça um cara como eu tirar a bunda da cadeira e ir até lá, pode fazer com que outros cidadãos façam o mesmo. Foco, objetivo, direção, tudo isso pode vir depois. Sem a vontade de que a coisa dê certo, nada sai do papel. Nem uma coluna de periódico, nem uma mudança de paradigma nacional.

A coisa é seminal. Poucos perceberam o germe plantado. Muitos criticaram a inocência, a basalidade do movimento. É engraçado ler, ouvir, assistir pessoas fazendo comentários nessa direção, mas aparentemente sem levar em conta que até pouco tempo atrás, o grau de apatia era tão maior, que fazia um movimento assim impensável. Que esse tipo de movimento tem um crédito de conseguir ir aos poucos, sensibilizar a participação de pessoas que até então provavelmente não tomariam parte em tais iniciativas. É certo quando alguém diz que para combater políticos ruins, os bons precisam aprender a fazer política. Mas falando de Brasil atual, antes de fazer-se política, ainda tem-se que pensar política. O começo pode ser aí. Não importa se é na rede social. Se serve para aumentar o interesse político de um cara como eu, que antes das redes sociais estava muito mais próximo do "analfabeto político" de Brecht do que estou hoje, já vale. Por menor que seja, um passo pra longe da escuridão é um passo pra mais perto da luz. E se mais pessoas deixarem a rabugentice e a vaidade de lado e usarem suas cabeças para contribuir, seja com atos ou seja apenas com opiniões, ideias e insights, os movimentos contra a corrupção que irão surgindo e se agregando (como quem esteve ontem lá ficou sabendo que já está ocorrendo) só tem a ganhar com isso. Dar palpite no futebol é fácil, amigo. Quero ver dar palpite pra melhorar teu país. Agora, pelo menos você já tem onde fazer isso.

E pra terminar a conversa, descobri que ainda faz um bem danado cantar o Hino Nacional no Fim. Deixa o coração um pouquinho mais leve.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Chocolate


Ah, esse tal chocolate... um mulato mestiço de mexicano, baiano e suíço, o único dentre nós que verdadeiramente entende as mulheres.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Máfias, culpados e um bonde no meio


©Band

Nessas últimas semanas, testemunhamos fatos que embora bastante diferentes em si, evocam todo um espírito de descrença política. Não uma descrença conhecida, a descrença que todos os brasileiros tem para com seus representantes. Trata-se de uma descrença mais abrangente, uma descrença ampla, quase global. Quanto a nossos representantes, muito é dito, muito é discutido, muito é investigado. Muito é até provado, mas eles conseguem se valer das artimanhas do sistema, criado e gerido por eles próprios, para planarem graciosamente acima de todo e qualquer impropério, acusação ou revolta que a sociedade possa sentir pelos atos perpetrados por eles.

Tome-se como exemplo Governador do Estado do Rio de Janeiro, que em nome de uma "cruzada do oba-oba para trazer investimentos ao nosso Estado" elegantemente ignora todo e qualquer problema infraestrutural que aconteça por aqui. E por problemas infraestruturais, entenda-se uma política de segurança que tenta conjugar combate ao crime de uma forma marketeira com (pasmem) a manutenção de uma banda podre firmemente instalada na polícia há anos. Entendam-se também absurdos que vão desde a flagrante falta de atenção para com a gestão criminosa de recursos destinados a defender as cidades da serra das chuvas de verão por parte de seus próprios prefeitos, até a bueiros explodindo e causando danos a cidadãos, automóveis e outras propriedades, passando por esdrúxulos acidentes com os centenários bondes de Santa Teresa, que de tão sucateados, transformaram-se de atração turística a peças de trem-fantasma. Sem contar aí com o que todo morador mais ou menos informado do estado sabe: o interesse do governador em trazer investimentos passa muito mais para abocanhar parte desses investimentos em proveito próprio e de seus aliados, amigos e associados, conduta esta que coaduna-se com a prática já notória de colocar o escritório de advocacia onde sua esposa atua como representante de várias empresas, órgãos e áreas de interesse do estado. Não é à toa que o povo do Twitter criou uma hashtag famosa e recorrente na rede social, a #MafiadoCabral.

Em outro episódio do mais dantesco desrespeito ao eleitor, a câmara dos deputados em Brasília absolveu ontem a Sra. Jaqueline Roriz das patifarias que ela foi (flagrada em vídeo, inclusive) acusada de cometer. Um episódio enojante, mas ao mesmo tempo, triste de tão previsível. Coisas do tipo que me fazem sair do óbvio, portar meu pensamento do foco principal e começar a olhar a questão de uma forma mais periférica. Se são todos representantes eleitos por nós, não seria razoável imputar a responsabilidade por esses desmandos a nós mesmos? Ou pelo menos não seria mais útil mudar o foco de nossa indignação? Parar de pensar em como os políticos são corruptos, venais, fisiológicos, e começarmos a pensar em como votamos mal, em como encaramos a política de uma forma "nas coxas"? Não é a hora de colocar a mão na consciência e pensar em quantos de nós não sabe sequer o nome dos deputados e senadores para quem demos nossos votos na última eleição? Não adianta reclamar depois que os jogadores estão em campo, principalmente em um jogo onde quem faz as regras são eles. Ao pensar nisso, uma última imagem invade minha lembrança. Quando é época de eleição, nas vias em que costumamos circular nas cidades grandes, é normal vermos com frequência carros adesivados com os nomes de diversos candidatos. É normal vermos as pessoas oferecendo esse espaço em troca de "uma força na gasolina", em troca de "um troquinho",em troca de um apadrinhamento, de uma vantagem, de um favorzinho lá na frente. Pergunto que tipo de políticos podemos esperar vindos de um ambiente desse tipo. Pergunto por que tantas pessoas se surpreendem quando um canalha escapa de uma cassação ou condenação, livre por seus pares, sendo que todos são nascidos e amamentados na prática do toma lá dá cá. E lembro que o toma lá dá cá não é invenção do político, é parte componente do DNA nacional, do jeitinho brasileiro, do material de que todos nós, gostando ou não, somos feitos. Somos um povo com defeitos e qualidades. Adoramos vangloriar nossas qualidades, mas constantemente nos surpreendemos com nossos defeitos, só porque os vemos refletidos nos outros, como se eles, apesar de políticos, não tivessem saído do mesmo lugar que nós. O tamanho da nossa responsabilidade é, ou ao menos deveria ser, maior do que o da nossa indignação.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Velho



Sempre tirei um bom proveito das redes sociais em das quais participei. Acesso a informações, diversão, conhecimento... Todos os regalos que agradam um espírito faminto de informações, curiosidades e trilhas para seguir como o meu. Apesar de sua gênese se dar no meio virtual, de seu ambiente ser o recente (historicamente falando) mundo da informática, as redes sociais não são diferentes de outras interações humanas. Por trás de todas as placas, teclados, monitores, conexões, discos rígidos, web sites e servidores, ainda somos nós lá. Interagindo mal e porcamente, como fazemos desde que descemos das árvores, com poucos momentos de melhora no desempenho de nossas interações. Seria ilusão nossa acreditar que não existiam trolls, que naquela época deviam ser conhecidos por espíritos de porco (ou algo que o valha) nas assembléias da Grécia clássica. Quiçá desde o tempo das cavernas. Sabendo disso, poucas vezes me indispus ou se indispuseram comigo nesses anos de convívio virtual nas redes.

Hoje, mesmo depois de tanto tempo, me surpreendi um pouco. Infelizmente, para mal. Tinha adicionado em uma dessas redes um senhor gaúcho, escritor com exímio domínio da língua portuguesa, por quem eu tinha bastante admiração. Não o conhecia profundamente, mas procurava ler sempre que podia seus escritos e deles absorver o máximo de informação. Em nossa etérea convivência virtual, percebi algumas vezes certa rabugice com relação a certos assuntos, mas nada que comprometesse a fundo minha admiração por suas qualidades, que já descrevi. Eis que em uma de nossas trocas de mensagens, percebi em seu discurso certo ranço, certa insistência fazer uma demonização extrema da influência americana nos eventos que levaram ao golpe militar de 1964. Apesar de ter lido sobre e conhecer alguns detalhes sobre essa influência, e sobre a política americana para a América Latina naquele período, na época da citada conversa dei pouca atenção a isto, pois foi uma nuance de opinião que apareceu de forma lateral na discussão de outro assunto. Mas ficou registrada essa insistência teimosa, coisa que não combinava muito bem com uma pessoa de quem se depreendia uma inteligência mais ponderada, menos extremista ou não tão dada a simplismos maniqueístas.

Em uma troca de comentários, dei uma opinião sobre o que chamei simbolicamente de “DNA do Brasil”. Afirmei simbolicamente que o brasileiro, (enquanto resultado de uma soma, e não como indivíduo) possuía características que eram muito presentes e perenes, desde o período da colônia, durante o império, república, ditadura militar, e até hoje, que pouco mudaram. Afirmei que pouco foi feito ou estimulado por quem quer que estivesse no poder durante nesses quinhentos e tantos anos para que essas características quando boas, sobressaíssem e quando ruins, fossem trabalhadas no intuito de melhorar. O velho senhor (que aparentemente se esforçava para destruir a boa imagem que tinha aos meus olhos), procurou encurralar-me em meus argumentos, afirmando que minha falta de estudo histórico (decidida por ele como líquida e certa através do simples fato de eu não concordar com seus argumentos) impedia que eu continuasse uma conversa, que eu deveria estudar mais a história de nosso país. Montado em um desespero eqüino para tentar derrubar meus argumentos, que apresentei com a máxima serenidade, tornou-se monocórdio em suas afirmações. Arvorou-se em uma empáfia desmesurada e vazia baseada na repetição “do quanto ele estudou na vida”, e chegou ao ponto ridículo de acusar-me de racismo contra os negros. Isso por eu mencionar a valorização que o brasileiro dá àquela famosa e macunaímica dose de malemolência, preguiça e “malandragem inocente” como algo que sempre foi valioso para os poderosos no sentido de manter o povo dócil, avesso ao progresso pessoal e à consciência de mobilização. Vi naquele senhor brados por um patriotismo realmente senil, que destoava de seus textos tão lúcidos. Li em seus comentários (cada vez mais absurdos) sugestões de que o ufanismo cego é a saída, de que a mais profunda negação de valores universais é a solução e de que aparentemente, só abraçando como se fossem qualidades todos os nossos mais vergonhosos defeitos, estaríamos no caminho certo. Desisti.

Procurei defender-me com retidão da injusta acusação de racismo, tratei de pilhá-lo por ter tentado comigo um artifício de argumentação tão basal, e procurei uma oportunidade para dar a discussão por encerrada. Antes disso, meu antes prezado interlocutor ainda teve tempo de dirigir-me algumas linhas malcriadas e recomendar-me que fosse estudar mais e passasse bem. Fui obrigado a finalizar minha participação nessa infrutífera discussão confessando que se fosse para chegar ao fim de minha vida um velho rabugento, monocórdio, de mente empedernida e com idéias tão bolorentas e pouco imaginativas quanto aquelas que ele tinha me apresentado ali, preferia estudar outras coisas. No fim, achei o saldo positivo. Pude exercitar meus argumentos em uma discussão até certo ponto de bom nível. Pude sentir-me mais seguro de que a temperança é um caminho bem melhor que o extremismo. Pude reafirmar minha desconfiança de que o avançar dos anos não traz a mesma carga de sabedoria a todos nós. E pude arrumar assunto para escrever mais um texto, exercitar e procurar chegar um dia em que escreva tão bem quanto o velho lá, só que com a mente mais aberta. Lembrei que sempre gostei muito de todos os velhos com que convivi. Mas também lembrei que sempre demonstrei uma enorme insatisfação com velhos mal-educados. Espero apenas que quando eu chegar lá, a dupla Seu Alzheimer e Dona Esclerose mantenha-se longe dos meus queridos neurônios, pois estando lúcido, ao menos um velho educado eu garanto que serei.