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O
título pode ser enganador, eu sei. Mas depois de tudo posto às claras, tenho
certeza que ficará mais fácil de entender o porquê da coisa. A questão é que
existe por aí muito homem que não gosta de mulher. E não, meus amigos... não
estou falando dos homossexuais. Com o direito que me compete de fazer o “trocaralho
do cadilho”, nesse caso o buraco é mais embaixo. Ou mais em cima, talvez. É um
buraco do tipo que psicólogos e sociólogos teriam mais familiaridade para
explicar do que eu. Mas como estou aqui para descrever a fauna dos homens que
não gostam de mulher, e não dos buracos psicossociais que os implicam, vamos ao
trabalho.
O
homem que não gosta de mulher é uma espécie comum, está bem integrada à nossa
fauna, tem se reproduzido em ritmo muito rápido, e à primeira vista tem muito
pouca diferença do homem que gosta. Quase nenhuma, pra falar a verdade. Há
mulheres que casam-se com eles e só vão se dar conta disso lá pelo oitavo,
décimo ano de casamento. A descoberta é algo que contribui muito para as tão
frequentes separações. É comum essa ficha cair na hora em que ela está mandando
o cara pastar, em definitivo. Amiúde, esse tipo de homem ter sido criado por
uma mãe sozinha, ou quando tivesse pai, por uma mãe que mandasse em todos, no
pai inclusive. Mas não se enganem. Ele também pode ter sido criado por uma mãe
submissa e anulada, ao lado de um paizão grosso, agressivo e boçal. Há diversos
ambientes que geram um homem que não gosta de mulher, e cada um desses
personagens citados pode contribuir bastante para a formação do nosso objeto de
estudo.
Temos
aquela mãe que cria o garoto sozinha, por exemplo. Vinda de um casamento
fracassado e de uma separação dolorosa quando ele era ainda muito pequeno, ela depositou
no seu menininho toda a responsabilidade de ser o “cem por cento” da felicidade
dela nesse planeta, e o trata dessa forma, como um presente que caiu do céu e
que está acima de tudo que existe nesse mundo. Um ser divinal, uma criança
dourada, perfeita e fonte de todo o prazer e alegria que uma mãe possa querer.
Não é difícil de imaginar que uma criança amamentada por esse tipo de conceito
realmente vá crescer se achando um presente perfeito, não só para a mamãe dele,
mas por extensão automática, para todas as mulheres desse planeta. Temos aí se
formando um homem que não gosta de mulher. Ele gostará que mulheres o bajulem,
troquem suas fraldas, aceitem tudo que ele faça como se fosse lindo, que jamais
fiquem bravas com ele porque ele afinal, é perfeito ora essa! E isso vale pra
toda a vida adulta do bebê. Não é lindo?
Mas
o pai boçal também sabe produzir seus monstrinhos. A grosseria, a exagerada
atenção à superficialidade, o amor único ao dinheiro, ao status, ao material e
o machismo são ótimos alimentos para crianças que um dia serão homens que não
gostam de mulher. Nesses casos, o menino cresce se espelhando naquele cara que
trata garçons, empregadas, serventes e subalternos mal. Aquele cara que por
mais rico que seja, fala alto e gosta de usar palavrões, dizendo-os com a boca
cheia. É aquele que mesmo quando pertencente às classes mais abastadas, não
abandona o sotaque carregado. O pai que olha a mulher gostosa na rua e não vê a
mulher. Olha através dela. Fala “gostosa” para um conjunto de conceitos, e diz
as palavras no automático. Uma figura humana rasa, mas que justamente por sua
flagrante não-profundidade, consegue reservar espaços preciosos para se tornar
muitas vezes um cara bem-sucedido. É muitas vezes malandro, escroque, desleal,
predatório. Tem pelo sexo a gana que o viciado tem por certas drogas, que mal
passam pela corrente sanguínea, já deixam a fissura no seu rastro. Sexo pra
esse tipo de homem, e para os filhos que crescem idolatrando-os, é a suprema
masturbação, tanto que não gostam de mulheres, apenas as usam como substitutos
enfeitados das mãos para masturbarem-se. Os meninos criados para ser homens que não gostam de mulher muitas vezes são vorazes. Primam pela quantidade, e também pelo seu distorcido senso de qualidade, mas a quantidade vence. E o que é mais engraçado, é que eles muitas vezes pensam que gostam de mulher. Foram ensinados a demonstrar, a fazer o jogo, a aparentar. Em seu código de valores, dificilmente entra o interesse humano. Aquela curiosidade saudável pelo que é da natureza de outra espécie? Eles não ligam. Sabe aquela capacidade dos grandes craques do futebol, que parecem tratar a bola bem, que parecem bailar com a bola, justamente por respeitar seu formato redondo? Esqueça. O homem que não gosta de mulher não sabe fazer isso. Simbolicamente, no que diz respeito a saber como lidar com a pelota, ele seria a epítome do perna-de-pau do mundo do futebol.
Não
é de se admirar que esses meninos cresçam e desenvolvam-se bem. Criados nesse
ambiente de tanta atenção, recebendo doses cavalares de amor, e tendo cada
mínimo desejo atendido, viram rapagões vistosos. Chegam à adolescência
conscientes de seu lugar num mundo onde as aparências reinam supremas. Um mundo
ágil, visual e esquizofrênico, onde os conceitos vendidos pela mídia são a
verdade mais absoluta, e até mesmo a postura contestadora é milimetricamente
padronizada. Um mundo onde você já sabe as bandas que vai escutar, as drogas
que vai usar e as cores que irá vestir. Onde o seu corte de cabelo dependerá da
turma com quem você anda. E todas as meninas tiram exatamente as mesmas foto na
frente do espelho. Nesse mundo onde o padrão é a lei, não se gosta mais de
mulher. Gosta-se de simulacros de mulher. Admira-se proporções de peito, coxa e
bunda. Toda mulher, é loira. Até a morena é loira. A negra é loira e a japonesa,
também é loira!
Os
fashionistas tomaram o poder. O mundo da moda é o Quarto Reich, e os nazistas
de passarela não gostam de mulher. Um dia, eles decidiram mandar todas as
mulheres de verdade para os campos de concentração. Aqui do lado de fora,
ficaram apenas cabides desenvolvidos geneticamente para andar, falar, usar
roupas e convencer o resto do mundo de que são a única forma de mulher
aceitável no planeta. Enquanto isso, as mulheres de verdade, vivendo em seus
Auschwitzes e Treblinkas particulares, submetem-se às mais incríveis sessões de
tortura, para ficarem parecidas com os cabides e poderem ser consideradas
mulheres de novo. Permitem que médicos pouco qualificados façam com elas coisas
que um dia (espero) serão consideradas tão bizarras quanto as câmaras de gás
nazistas. Preenchimentos labiais que fazem a mulher parecer um baiacu, remoção
de costelas para afinamento de cintura, anorexia, bulimia, inserir um tubo de
plástico para sugar de forma aleatória e irregular nacos de gordura das
próprias cinturas... Um verdadeiro show de horrores para fazer toda uma
população que um dia foi vista simplesmente como mulher, se encaixar em um
padrão. E na aurora desses novos tempos, os cabides estão ficando cada vez mais
magros, as alterações mais radicais. E o número de homens que não gosta de
mulher, mas sim de imagens, de estátuas, de objetos inanimados que não pensam
nem interagem, aumenta também. Enquanto isso, os poucos que gostam do que um
dia foi chamado de mulher de verdade passam por maus bocados. Sentem-se vazios
ao olhar para os cabides de um lado, e assustados ao assistir o crescimento da
população dos seus congêneres que não gostam de mulher. Só lhes (nos) resta aproveitar
seus (nossos) últimos e bons momentos ao lado das suas amigas, namoradas,
parceiras, esposas e seres queridos do intrigante sexo feminino, antes que elas
se vão, para nunca mais voltar.
4 comentários:
Mais um texto que deveria ser ensinado nas escolas! Nas faculdades tb, para que pais e mães fiquem mais conscientes e diminuam esse horror! O que me faz mais feliz nesse quadro terrível (e real) que você pintou, é saber que eu achei finalmente um homem que gosta de mulher e que com ele eu posso ser eu mesma e ser valorizada por isso! Parabéns pelo texto!
Só digo uma coisa: perde o homem que não gosta de uma mulher, perde os encantos que nós oferecemos a eles. Quando realmente gostamos, nos entregamos, sem medo e sem frescura.
O texto é muito bom, mas acho que você esqueceu de citar os homens que tomam antipatia de mulheres. Não da para confiar em mulher, é difícil ter um relacionamento sério quando não se confia em alguém.
Parabéns pela excelente retórica.Passei a vida toda desconfiada de que existiam heteros que não gostavam de mulheres.Hoje tenho certeza! O mais cruel é que eles estão no poder e é nós, mulheres, que os colocamos nessa posição por desconhecimento da realidade. Homens-que-gostam-de- mulheres são joias raras e precisam ser preservados para que se multipliquem e superem os homens-que-não-gostam-de-mulheres até a extinção.Somente assim teremos um mundo realmente EVOLUÍDO.
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