quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Resoluções de Ano Novo


© Regis Rodriguez


Bom dia, muito obrigado pela atenção
Desculpe incomodar o silêncio da sua viagem
Trago aqui na promoção
Um pouquinho da minha verdade,
E um panorama da sua ilusão.

Aqui, só aqui na minha mão,
Tenho a mesma ambição que você
Aí fora custa muito mais,
Só vocês é que não podem ver.

Por isso essa minha cara de fome
Por isso essa minha falta de jeito
Mas eu sou sujeito homem,
Não querendo lhe faltar o respeito,

Vim dizer que eu quero mais
Muito mais do que eu tenho agora
Quero tudo que deixaram pra trás
Quero tudo que vocês jogam fora.

Quero tudo, sem pudor nenhum.
E se for pra sobrar, que me sobre algum.
Eu podia estar roubando,
eu podia estar matando, mas não.
Estou aqui, humildemente
Pedindo sua atenção.

O que eu quero não é nada demais,
Quero o carro que seu filho bate toda semana
E não me xingue, não me odeie mais:
Quero a grana que sua filha gasta com pó,
O “din-din” do whisky e da pílula, aliás
Que a senhora usa pra não se sentir tão só.

Quero aproveitar o que eu posso
Com as coisas boas que vocês tem
Porque mesmo isso não sendo nosso,
Vocês não sabem usar também...

Vou desperdiçar a minha educação
Enquanto me botam pra fora da lotação.
Mas não se incomode, um dia eu volto.
E não se espante se eu me revolto.
É que cansei da incompetência de vocês
De sentar na janela e não saber usar a vez.

Menos preguiça, menos, menos
Menos atropelo. Mais zelo, mais, mais.
Mais cuidado, concentração.
Mais sentimento, mais paixão.

Que caia do céu, não tenho vergonha
Direi para todos: sou aquele que sonha
Mais dinheiro? Mais, mais, mais mesmo.
Sabes que não vou gastar a esmo.

Mas agora eu vou partir
Agradeço pela atenção
Espero que o meu pedido
Encontre compreensão
E amanhã, numa virada de um outro ano
Eu já não esteja mais aqui,
Que eu já seja considerado um ser humano.
Com direito de cantar e sorrir.
Odemilson Louzada Junior

Originalmente publicado no Recanto das Letras em 01/01/2009

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Três é Demais? (Parte II)


Seguiu o plano, os dois acertaram os detalhes. Toda a logística seria providenciada por Ronaldo, cabendo a Mariana a palavra final sobre cada detalhe do processo. Ela não deixava de admitir que a hipótese de acontecer, todo o planejamento cuidadoso, toda a antecipação do evento a fazia sentir um pouco daquela ansiedade que Ronaldo demonstrara a princípio. Ele, por sua vez, já não demonstrava todo aquele comportamento que ela tanto estranhara a princípio. Com o acontecimento se desenhando no horizonte, ele tinha aos olhos dela voltado um pouco ao normal, o que ela não deixava de achar bom. Com Ronaldo capitaneando o processo, Mariana acompanhou a criação de perfis do casal em um site de encontros adultos, e opinava em tudo, às vezes sentindo um pouco daquela insegurança inicial, mas às vezes sentindo também um pouco dessa nova excitação pelo desconhecido. Passaram um período considerável de tempo nessa coisa de fazer perfil, escolher fotos, avaliar contatos e tudo mais. Mariana tinha que reconhecer uma coisa, seu marido tinha tomado cuidados para que o processo de busca por um parceiro fosse o mais tranquilo possível. Nessa etapa, ele não demonstrava pressa em escolher alguém nem aparentava estar afoito. Deixava que ela ditasse o ritmo, e volta e meia eles conversavam sobre as características de um eventual parceiro, o local mais adequado para levar a termo a fantasia, e outros detalhes.

Uns três meses depois de montarem o perfil, já tinham descartado um punhado de pretendentes virtuais que por uma razão ou outra pareceram inadequados. Lá pelo quarto mês, começaram a se corresponder por e-mail com um dos poucos candidatos da própria cidade deles que sobreviveu ao “pente fino” que fizeram. Alex era um cara tranquilo, não demonstrava aquele desespero ridículo de muitos que infestam os sites de procura por parceiros sexuais. Parecia entender todas as implicações do que buscava, e nas conversas iniciais que tiveram ele deu a entender que apesar de não muito experiente no assunto, já tinha tido oportunidade de praticar ménage e sexo grupal algumas vezes. Chegaram ao ponto em que tudo parecia ok, trocaram fotos e todos ficaram satisfeitos com o que viram. Mariana achou o rapaz atraente,Alex achou o mesmo dela, e Ronaldo achou que ele não tinha uma aparência que destoasse do casal. O momento se aproximava. Apesar de ainda se mostrar animada com tudo aquilo, bem mais que no princípio, Mariana ainda tinha (embora talvez naquele momento sequer percebesse) plantado lá no fundo de si aquela pequena semente intuitiva. Mas era cada vez mais fácil ignorá-la. Ronaldo e ela discutiram vários detalhes, e ela embarcou com sinceridade no tesão dele. Ao perceber o quanto ele ansiava por vê-la possuída por outro, por dividi-la com outro, os momentos em que falavam no assunto enquanto faziam sexo e se tornavam cada vez mais quentes e intensos. Mais uma vez, a segurança que Ronaldo lhe passava ao repetir sempre que era apenas uma fantasia como muitas que já tinham realizado, só que um pouco mais picante, fazia com que suas intuições ficassem cada vez mais ocultas nos bastidores de sua mente.



Enfim, o dia chegou, com toda a pompa e circunstância. Encontro cuidadosamente planejado, lugar escolhido, um motel que por precaução estava entre os que eles menos freqüentavam, e cujo acesso facilitava a entrada de uma pessoa a mais no carro sem que se criasse um problema. Nesse dia, pela manhã, Mariana sentiu uma pontada mais forte de sua velha intuição, mas não com força suficiente para que sentisse vontade de pisar no freio da situação. Lembrou-se de que era apenas uma fantasia, como costumava dizer seu marido. Além de tudo isso, Alex tinha demonstrado ser, durante todo o período da aproximação, uma pessoa legal. Tiveram oportunidade de confirmar isso uma semana antes, quando marcaram um chopp para conhecê-lo pessoalmente. Sentaram-se num bar conhecido da cidade e conversaram por horas, como bons amigos. Em alguns momentos o papo escorregou para coisas mais picantes, mas em momento algum Alex foi direto ao assunto dos planos que tinham. Preferiu contar histórias de suas experiências anteriores. Era discreto, não revelava nomes, mas soube narrar as histórias de um jeito que deixara Ronaldo e Mariana extremamente excitados com aquele universo que estavam a poucos dias de experimentar. Nessa noite, ao chegar em casa fizeram sexo num grau de intensidade que poucas vezes tinham alcançado em todos os anos em que estavam juntos.

Assim, no dia em que finalmente foram para o motel com Alex, por incrível que pareça, nada foi muito longe do esperado. Mariana conseguiu controlar um pequeno nervosismo inicial, Ronaldo se deliciou como esperava, e Alex cumpriu o papel que o casal esperava dele. Passaram horas, se divertiram, gozaram todos dos prazeres que tinham ansiado para aquela ocasião. O que de realmente notável pode ser dito desse dia, não foi o que aconteceu nele, mas o que aconteceu a partir dele. Passada a ocasião, Alex deixou-se disponível para repetirem sempre que quisessem a brincadeira. E demorou um pouco para que Mariana percebesse que algo havia mudado.



Algumas semanas depois, percebera uma quase imperceptível queda no tom de ânimo de Ronaldo. Coisa que só uma mulher percebe em entes queridos próximos. Não tocou no assunto de pronto. Deixou passar o tempo para ver se algo mudava. Mais algum tempo e algumas transas um pouco menos satisfatórias que o normal deles, Mariana percebeu que Ronaldo também tinha diminuído muito seu costume de falar em fantasias ou mesmo as safadezas de sempre durante o sexo. Começou a sentir-se mal cada vez mais, até o momento em que teve segurança o suficiente para tocar no assunto, sem que o marido pudesse escapar com o famoso “nada não”. Mariana arrependeu-se imediatamente de ter perguntado, pois ao invés da evasiva esperada, a reação de Ronaldo era estranha, diferente do que estava acostumada. Tinha dado uma desculpa esfarrapada, sem nenhum cuidado de parecer plausível, coisa que ele jamais tinha feito com ela. Imediatamente ela sentiu que havia algo de muito errado com ele. E não demorou muito tempo para que seus sentimentos se confirmassem com fatos. Aos poucos Ronaldo foi ficando mais e mais arredio, mais e mais acabrunhado, mais e mais estressado. O sexo diminuiu sensivelmente de quantidade, duração e qualidade.



Até o momento, em uma discussão rotineira em que os ânimos se elevaram, trocaram farpas que não tinham nada a ver com o assunto inicial. Mariana acabou mencionando a queda na qualidade sexual e Ronaldo explodiu de maneira irracional. Começou a dizer de forma descontrolada que Mariana gostava mais do sexo de Alex que do dele, que Mariana estava deixando de gostar dele, que ela tinha pensamentos com Alex o tempo todo. Mariana não podia acreditar no que ouvia, era um sentimento de mágoa profunda que brotava em seu coração. Sentia-se tão mal quanto, talvez pior do que se tivesse sido traída. Em questão de segundos milhares de pensamentos formaram um turbilhão em seu cérebro, sendo que conseguia distinguir apenas uns dois ou três, e ficou completamente fora de si. Lembra de pouca coisa do que disse, mas dentre elas, de ter mencionado repetidas vezes que a idéia foi dele, de Ronaldo. Que no início ela não queria. Que ele insistiu que era uma coisa que correria com tranqüilidade. À medida que os ânimos continuavam elevados e o teor de irracionalidade nos argumentos, resmungos e acusações de Ronaldo não diminuía, ela ia experimentando um sentimento que jamais tivera por seu marido, mesmo nas piores brigas que porventura tiveram naqueles 12 anos de convivência. Aquela semente de intuição que antes ela conseguira ignorar diante da excitação do novo, agora tinha crescido e se transformado em uma planta de desgosto. E a atitude de Ronaldo contribuía para nutrir as raízes dessa planta, e torná-la cada vez mais forte.


A mágoa de Mariana cresceu, um extremo desagrado pela atitude de Ronaldo fazia com que dali pra frente, o diálogo entre os dois fosse cada vez mais difícil. De um casal feliz, aos poucos foram passando a conviver num habitat cada vez mais inóspito. A atmosfera entre os dois era mais rarefeita que nunca. Pouco falavam que não fosse de assuntos do cotidiano, ambos conscientes de que qualquer tentativa de voltar ao fatídico tema poderia resultar em nova torrente de acusações impensadas, mal-estares e decepções. Ronaldo oscilava entre um arrependimento mal-humorado e um ressentimento anormal. Mariana entre uma mágoa crescente, misturada a um desapontamento triste, doído. Ambos se tornavam cada vez mais apáticos à medida que cada tentativa de retomar a conversa ou colocar o relacionamento nos eixos fracassava. O que no início eram brigas com agressivas trocas de acusações, aos poucos foram se tornando conversas cada vez mais evasivas, oblíquas e sem clareza de intenções. Passados alguns meses naquele clima péssimo, num momento calmo em que o desânimo mútuo era palpável, decidiram por separarem-se. Algum tempo depois, Mariana pensou em Alex. Lembrou em detalhes daquele dia em que fizera sexo com ele e com seu marido, mas com certa melancolia, percebeu que pouco lembrava do rosto de Alex. Já de Ronaldo, não fazia questão de lembrar. A planta do desgosto tinha crescido, dado frutos e ela esperava o momento em que a mesma planta morresse. Talvez assim, sem as sombras que ela lançava, o sol voltasse a lançar raios sobre seu coração.
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Esse texto não foi escrito para apoiar ou para ir contra a experiência à qual o casal retratado se propôs. Antes de mais nada, desejei traduzir nele a idéia de que mesmo as mais corriqueiras experiências de vida podem ter resultados completamente diferentes em função do quanto seus protagonistas estarão (ou não) preparados para vivenciá-las. Sigo acreditando que viver é complicado: exige arte, competência e capacidade de assimilar porradas. Não vejo com olhos românticos aqueles que caem no caminho, abatidos pelas porradas. É como disse sabiamente o personagem cinematográfico Rocky Balboa, (a vida) “...se trata do quão forte você apanha e  consegue seguir em frente”.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Três é Demais? (Parte I)

Esta é uma história real. Não aconteceu comigo, nem com alguém que eu conheça lá muito bem. Tampouco se trata de um daqueles famosos casos tipo “um amigo meu contou”. É uma história que acompanhei em parte à distância, em outra parte por relatos de pessoas bem mais próximas dos personagens que eu. E é uma história que já deve ter se repetido tantas vezes por aí, nesse nosso mundo, que mesmo ocultando os nomes para proteger a identidade das vítimas, as informações restantes são mais que suficientes para poder montar esse relato. E para que ainda assim, eu corra o risco de que seus protagonistas se reconheçam aqui.

Ronaldo e Mariana (nomes fictícios, porém bem próximos dos verdadeiros) formavam um casal feliz. Consideravam-se uma dupla bastante normal, modernos e bem-resolvidos. Juntos desde a época do ensino médio, morando numa cidade de médio porte e de bom nível de vida no interior do estado. O fato de seu relacionamento ter atravessado período de faculdade, por todas as fases entre noivado, casamento, montagem de casa, e vida a dois sem terem tido grandes brigas, ou idas e vindas, ou crises com separações mesmo que temporárias, tinha deixado em ambos uma confiança bem grande na solidez de sua relação. Se amavam de verdade. Se gostavam. Se respeitavam. Sentiam tesão um pelo outro.

O aspecto tesão, principalmente, era visto pelos dois praticamente como o símbolo-mor do sucesso daquele relacionamento. O relacionamento, contando namoro e casamento já chegava às portas dos 12 anos. E na cama, sempre tinham sabido evoluir bem, das primeiras experiências do início do namoro até o domínio de várias capacidades em dar prazer um ao outro. Dentro do quarto, sempre foram extremamente democráticos, sem-vergonha, desinibidos. E mesmo individualmente, reconheciam que tinham libidos e impulsos sexuais com forças equivalentes. Sentiam com sinceridade que formavam uma boa equipe.

Em algum momento nessa virada dos 12 anos de relação, Ronaldo começou a sentir um pequeno pulsar de insatisfação. Não algo incômodo, nem algo que o fizesse desgostar do sexo que fazia com Mariana, também nada que o fizesse mudar de idéia quanto ao que pensava a respeito da qualidade de sua vida sexual. Apenas um pulsar, um pequeno comichão de curiosidade, uma vontade de saber mais sobre formas mais radicais de sexualidade. Ele sempre tivera uma curiosidade sexual aguçada, até mais acentuada do que a esposa, embora essa curiosidade fosse de fôlego curto. Gostava muito de pornografia, masturbava-se regularmente, adorava ver sacanagem na internet. Mas seu envolvimento com isso era sempre algo raso, algo somente recreativo, ou para inspirar tesão e satisfazê-lo de maneira mais imediata. Só que ultimamente Ronaldo, movido pela curiosidade de sempre, acabava detendo-se mais no que brincava ser o “submundo da internet”, não só satisfazendo-se graficamente, mas também lendo, analisando, pensando em possibilidades. Por um tempo, uma idéia começou a tomar forma no fundo de sua mente, de maneira lenta e gradual, até aparecer com força e identificar-se como uma pequena obsessão que se iniciava. Ronaldo começou a alimentar a fantasia de fazer sexo a três. A coisa tomou forma, floresceu em sua mente, e quando deu por si, havia todo um cenário pensado, onde a idéia de dividir sua mulher (seu amor, sua gostosa, sua safada, sua putinha) com outro homem o deixava cada vez mais excitado.



Mariana era uma mulher simples. Não simplória, nem burra, nem de mente pequena, limitada, nada disso. Simples. Era uma ótima pessoa. Seus impulsos, seus movimentos pela vida, seu jeito de ser como um todo, era baseado na simplicidade.Tivera uma educação sexual inexistente dentro de casa, bastante interiorana. Família católica, muito diálogo sobre a vida, mas muita vergonha , e diálogo pouco ou nenhum sobre sexo. Tudo que sabia na época em que começou a namorar com Ronaldo, aprendera com amigas, na escola, nas conversas com colegas mais saidinhas, enfim...era àquela altura o tipo de menina que morria de vergonha até de pensar em se masturbar. Com a vinda do namoro, com a convivência com Ronaldo, com a confiança construída com o tempo, considerava que aprendeu bastante. Descobriu-se mulher. A cumplicidade de Ronaldo, as informações que a curiosidade natural dele pelo sexo lhe traziam, e a vida a dois do casal fizeram com que o orgasmo, a masturbação, as pequenas fantasias, as brincadeiras eróticas, passassem a fazer parte de sua vida. Davam-lhe prazer não só pelo sexo, mas por sentir-se possuidora de um poder, de algo que sabia ter sempre existido dentro de si, mas que sua sexualmente repressora educação não tinha permitido que desenvolvesse antes. Simples como era, Mariana atirou-se aos seus impulsos sexuais com prazer e alegria. Encontrou-se com toda sua simplicidade, como uma mulher que gostava muito de sexo, simples assim. E compartilhava seus desejos com Ronaldo, divertia-se, tirava deles muito prazer, e era feliz com isso.

Até o momento em que Ronaldo veio com a proposta. No início, começou como sempre que tinham uma idéia nova, uma nova fantasia, uma nova travessura sexual. No meio de um ato sexual, na hora em que ambos gostavam de trocar palavras loucas, um e outro xingamento, uma ou outra fantasia solta, Ronaldo mencionou a idéia de transarem a três com um segundo homem. Mariana assustou-se um pouco mas entrou na brincadeira, achou que Ronaldo falava só como componente de excitação da transa. Mas a cada vez em que transavam, ele tornava a entrar no assunto, e ela parou pra pensar. Sentia-se um pouco insegura, não pela fantasia em si. Nem pela ideia ser algo tão exótico. O que a preocupava mais era uma certa insegurança, uma certa intuição de que talvez fosse uma má idéia. Considerava-se uma mulher segura, já não era mais uma adolescente inexperiente, mas como considerava seu relacionamento sexual tão mais saudável que o de tantas mulheres com quem tivera oportunidade de conversar, nunca tinha considerado a hipótese de incluir uma terceira pessoa (fosse homem ou mulher) em suas fantasias sexuais. Então, quando sentiu-se à vontade para tocar no assunto com Ronaldo fora da cama, procurou manter a cabeça aberta ao máximo, mas não podia evitar de sentir uma incômoda insegurança, e mais profundamente ainda, a sensação de que aquilo não era algo que fosse acabar bem.



Mariana estranhou um pouco o jeito de seu marido. Obviamente já tinha visto muitas vezes Ronaldo animado, querendo muito alguma coisa, mas não daquele jeito. Ela associou seu jeito ao de um vendedor desesperado para concluir uma venda. A ansiedade com que ele tentava convencê-la de que seria legal, de que seria um passo à frente em seus currículos sexuais, de como era algo que tanta gente fazia e que não tinha nada a ver, bastava fazer e acabou, e milhares de outros argumentos. Mariana já tinha sentido um pouco de lentidão para digerir a ideia em si, mas com aquela mudança de comportamento de Ronaldo a coisa se tornou ainda mais difícil. Sendo assim, ela pediu que ele desse um tempo, que ia pensar no assunto. À medida que o tempo passava, Mariana pesava prós e contras, analisava a questão, mas sempre com Ronaldo por perto, não exigindo uma resposta, mas tocando de leve no assunto, deixando no ar informações a respeito, ou dando sinais de que estava tudo bem. Não chegava a insistir na resposta, mas também demonstrava que esperava muito por ela. Quando ela finalmente chegou a uma decisão, pesou bastante ter achado que Ronaldo tinha sido cuidadoso em deixar por conta dela a palavra final na escolha do parceiro, e ainda com a promessa de que ela poderia parar o processo a qualquer momento se sentisse que não estava 100% certa de que era pra acontecer. Só que ainda assim, mesmo com todas as garantias e promessas que Ronaldo tinha feito, mesmo com a diminuição da insegurança que sentiu a princípio, em seu íntimo Mariana ainda tinha uma intuição muito discreta de que algo poderia não dar certo. Um último pensamento que passou por sua cabeça, e que fez com que se convencesse afinal, foi o medo que nasceu ao assistir a ansiedade de Ronaldo. A segurança que sentia durante todos esses anos de relação com ele, começou a balançar um pouco, pois imaginava que se dissesse não, por mais que ele dissesse que não queria obrigá-la a nada, fizesse com que ele começasse a desanimar do sexo com ela. E que isso escalaria até chegar a um futuro de insatisfação mútua, que era um cenário que ela não desejava de maneira alguma. Achou, afinal que valia a pena fazer aquela loucura para manter seu casamento em seu devido lugar.

(Continua)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

O homem que não gosta de mulher


© sxc.hu

             O título pode ser enganador, eu sei. Mas depois de tudo posto às claras, tenho certeza que ficará mais fácil de entender o porquê da coisa. A questão é que existe por aí muito homem que não gosta de mulher. E não, meus amigos... não estou falando dos homossexuais. Com o direito que me compete de fazer o “trocaralho do cadilho”, nesse caso o buraco é mais embaixo. Ou mais em cima, talvez. É um buraco do tipo que psicólogos e sociólogos teriam mais familiaridade para explicar do que eu. Mas como estou aqui para descrever a fauna dos homens que não gostam de mulher, e não dos buracos psicossociais que os implicam, vamos ao trabalho.

             O homem que não gosta de mulher é uma espécie comum, está bem integrada à nossa fauna, tem se reproduzido em ritmo muito rápido, e à primeira vista tem muito pouca diferença do homem que gosta. Quase nenhuma, pra falar a verdade. Há mulheres que casam-se com eles e só vão se dar conta disso lá pelo oitavo, décimo ano de casamento. A descoberta é algo que contribui muito para as tão frequentes separações. É comum essa ficha cair na hora em que ela está mandando o cara pastar, em definitivo. Amiúde, esse tipo de homem ter sido criado por uma mãe sozinha, ou quando tivesse pai, por uma mãe que mandasse em todos, no pai inclusive. Mas não se enganem. Ele também pode ter sido criado por uma mãe submissa e anulada, ao lado de um paizão grosso, agressivo e boçal. Há diversos ambientes que geram um homem que não gosta de mulher, e cada um desses personagens citados pode contribuir bastante para a formação do nosso objeto de estudo.

             Temos aquela mãe que cria o garoto sozinha, por exemplo. Vinda de um casamento fracassado e de uma separação dolorosa quando ele era ainda muito pequeno, ela depositou no seu menininho toda a responsabilidade de ser o “cem por cento” da felicidade dela nesse planeta, e o trata dessa forma, como um presente que caiu do céu e que está acima de tudo que existe nesse mundo. Um ser divinal, uma criança dourada, perfeita e fonte de todo o prazer e alegria que uma mãe possa querer. Não é difícil de imaginar que uma criança amamentada por esse tipo de conceito realmente vá crescer se achando um presente perfeito, não só para a mamãe dele, mas por extensão automática, para todas as mulheres desse planeta. Temos aí se formando um homem que não gosta de mulher. Ele gostará que mulheres o bajulem, troquem suas fraldas, aceitem tudo que ele faça como se fosse lindo, que jamais fiquem bravas com ele porque ele afinal, é perfeito ora essa! E isso vale pra toda a vida adulta do bebê. Não é lindo?

             Mas o pai boçal também sabe produzir seus monstrinhos. A grosseria, a exagerada atenção à superficialidade, o amor único ao dinheiro, ao status, ao material e o machismo são ótimos alimentos para crianças que um dia serão homens que não gostam de mulher. Nesses casos, o menino cresce se espelhando naquele cara que trata garçons, empregadas, serventes e subalternos mal. Aquele cara que por mais rico que seja, fala alto e gosta de usar palavrões, dizendo-os com a boca cheia. É aquele que mesmo quando pertencente às classes mais abastadas, não abandona o sotaque carregado. O pai que olha a mulher gostosa na rua e não vê a mulher. Olha através dela. Fala “gostosa” para um conjunto de conceitos, e diz as palavras no automático. Uma figura humana rasa, mas que justamente por sua flagrante não-profundidade, consegue reservar espaços preciosos para se tornar muitas vezes um cara bem-sucedido. É muitas vezes malandro, escroque, desleal, predatório. Tem pelo sexo a gana que o viciado tem por certas drogas, que mal passam pela corrente sanguínea, já deixam a fissura no seu rastro. Sexo pra esse tipo de homem, e para os filhos que crescem idolatrando-os, é a suprema masturbação, tanto que não gostam de mulheres, apenas as usam como substitutos enfeitados das mãos para masturbarem-se. Os meninos criados para ser homens que não gostam de mulher muitas vezes são vorazes. Primam pela quantidade, e também pelo seu distorcido senso de qualidade, mas a quantidade vence. E o que é mais engraçado, é que eles muitas vezes pensam que gostam de mulher. Foram ensinados a demonstrar, a fazer o jogo, a aparentar. Em seu código de valores, dificilmente entra o interesse humano. Aquela curiosidade saudável pelo que é da natureza de outra espécie? Eles não ligam. Sabe aquela capacidade dos grandes craques do futebol, que parecem tratar a bola bem, que parecem bailar com a bola, justamente por respeitar seu formato redondo? Esqueça. O homem que não gosta de mulher não sabe fazer isso. Simbolicamente, no que diz respeito a saber como lidar com a pelota, ele seria a epítome do perna-de-pau do mundo do futebol.
           
             Não é de se admirar que esses meninos cresçam e desenvolvam-se bem. Criados nesse ambiente de tanta atenção, recebendo doses cavalares de amor, e tendo cada mínimo desejo atendido, viram rapagões vistosos. Chegam à adolescência conscientes de seu lugar num mundo onde as aparências reinam supremas. Um mundo ágil, visual e esquizofrênico, onde os conceitos vendidos pela mídia são a verdade mais absoluta, e até mesmo a postura contestadora é milimetricamente padronizada. Um mundo onde você já sabe as bandas que vai escutar, as drogas que vai usar e as cores que irá vestir. Onde o seu corte de cabelo dependerá da turma com quem você anda. E todas as meninas tiram exatamente as mesmas foto na frente do espelho. Nesse mundo onde o padrão é a lei, não se gosta mais de mulher. Gosta-se de simulacros de mulher. Admira-se proporções de peito, coxa e bunda. Toda mulher, é loira. Até a morena é loira. A negra é loira e a japonesa, também é loira!

             Os fashionistas tomaram o poder. O mundo da moda é o Quarto Reich, e os nazistas de passarela não gostam de mulher. Um dia, eles decidiram mandar todas as mulheres de verdade para os campos de concentração. Aqui do lado de fora, ficaram apenas cabides desenvolvidos geneticamente para andar, falar, usar roupas e convencer o resto do mundo de que são a única forma de mulher aceitável no planeta. Enquanto isso, as mulheres de verdade, vivendo em seus Auschwitzes e Treblinkas particulares, submetem-se às mais incríveis sessões de tortura, para ficarem parecidas com os cabides e poderem ser consideradas mulheres de novo. Permitem que médicos pouco qualificados façam com elas coisas que um dia (espero) serão consideradas tão bizarras quanto as câmaras de gás nazistas. Preenchimentos labiais que fazem a mulher parecer um baiacu, remoção de costelas para afinamento de cintura, anorexia, bulimia, inserir um tubo de plástico para sugar de forma aleatória e irregular nacos de gordura das próprias cinturas... Um verdadeiro show de horrores para fazer toda uma população que um dia foi vista simplesmente como mulher, se encaixar em um padrão. E na aurora desses novos tempos, os cabides estão ficando cada vez mais magros, as alterações mais radicais. E o número de homens que não gosta de mulher, mas sim de imagens, de estátuas, de objetos inanimados que não pensam nem interagem, aumenta também. Enquanto isso, os poucos que gostam do que um dia foi chamado de mulher de verdade passam por maus bocados. Sentem-se vazios ao olhar para os cabides de um lado, e assustados ao assistir o crescimento da população dos seus congêneres que não gostam de mulher. Só lhes (nos) resta aproveitar seus (nossos) últimos e bons momentos ao lado das suas amigas, namoradas, parceiras, esposas e seres queridos do intrigante sexo feminino, antes que elas se vão, para nunca mais voltar.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Pai, o problema é só seu mesmo?



Nasci nos anos 70, época em que era bonito fumar. Campanhas contra o tabaco eram a rigor, inexistentes ou restritas ao espaço dos ambulatórios e hospitais. Os adultos daquela geração foram fartamente alimentados com imagens do glamour da era de ouro de Hollywood, ícones do cinema, celebridades e socialites, todos com seus cigarros à mão. Não era de se espantar que o fumo fosse algo tão popular. As propagandas de cigarro estavam invariavelmente, entre as mais caras, sofisticadas e emblemáticas peças de publicidade de então. Uma lembrança que tenho de infância, é a cena comum das mesas dos restaurantes, sempre com um cinzeiro, o ambiente enfumaçado pela presença de um ou às vezes mais de um fumante por mesa. Outra lembrança é a da mesa lá de casa mesmo, onde meu pai costumava fumar. E mesmo então, eu um pirralho (de que, quatro anos? Talvez cinco?) já achava desagradável a fumaça do cigarro, e mais ainda à mesa na hora de se comer. Lembro de reclamar com meu pai. Se ele achava graça, desconversava, ou fazia algo capaz de diminuir meu desconforto, bom aí a minha memória já não chega ao detalhe.

Passou o tempo, vieram campanhas de conscientização, a informação aumentou. Mas mudar toda uma cultura leva tempo, pode ser difícil, e mesmo hábitos danosos à saúde podem ser muito difíceis de perder. Meu pai tinha um histórico de saúde complicado. Desde jovem, segundo minha mãe contava, tinha enfrentado algumas enfermidades que diminuíram consideravelmente sua saúde. E de quaisquer hábitos ruins para a saúde que tivesse, segundo ela, o fumo sempre foi o mais freqüente. Se em algumas épocas se alimentava mal, em outras tinha um bom apetite. Se em certos períodos tendia a perder um pouco a mão na bebida, em outras mantinha-se longos períodos sem beber nada alcoólico. Mas o cigarro, esse não... era companheiro constante, compulsão assumida, muleta, dispositivo indispensável à sua existência. Tendo em vista o cenário montado, não era de se espantar o final do espetáculo: meu pai morreu cedo, aos 55 anos. Vítima de complicações de uma doença crônica que nada tinha a ver com o hábito de fumar, diretamente. Porém, segundo os médicos, tratava-se de uma doença que se bem administrada e tratada, permitiria que qualquer um que a tivesse levasse uma vida praticamente normal até uma idade avançada. Desde que cuidasse de sua saúde. Lembro de, aos 16 anos de idade, chegar um tanto timidamente ao lado do médico e perguntar se o fato de meu pai fumar muito teria adiantado ou contribuído para a morte. “Ah, com certeza”, foi a resposta. É algo difícil de se esquecer.

A vida passa. A gente cresce, segue adiante, mas confesso sentir uma saudade grande do velho. Talvez especialmente doída, por ser mais uma saudade do que não vivi, do que faltou, do que não houve. Meu pai era o tipo de cara pra se curtir na vida adulta. Era um cara inteligente, boa conversa, culto. Que maravilha teria sido sentar com ele num fim de tarde pra falar de cinema, de política, de coisas do mundo. Isso era a cara dele. Mas não penso nisso de uma forma egoísta. Modestamente, creio que teria sido bom pra ele também. Creio que ele gostaria de ver o moleque pequeno dele ter se transformado em homem, e que ele teria gostado de ver que era um homem que gostava de conversar tanto quanto ele, que gostava de um papo inteligente, de assuntos semelhantes e tudo mais. Seria bom para os dois.

Por tudo isso, não consigo deixar de sentir um desconforto quando vejo alguém defendendo o “direito de ser viciado”, o “direito de usar uma substância”, o direito do “quero ser fumante sim, quem se ferra sou só eu”. Me parece de uma hipocrisia profunda, a pessoa usar pra isso o belo e consagrado nome da Liberdade Pessoal enquanto conceito amplo. Parece hipócrita, pois a pessoa o faz para justificar e/ou defender um vício seu, um movimento que provém de uma necessidade interior, de um impulso que se bem analisado, torna todo viciado um egoísta. Claro que isso pode ser aplicado a várias outras substâncias, drogas, mas como aqui a questão é a minha história pessoal, falo do vício no cigarro apenas. Até para evitar infinitos desdobramentos que fariam esse texto perder seu ponto. Meu pai fumava, fumou por anos. Mas justiça seja feita, nunca ouvi da boca dele um “fumo mesmo quem se ferra sou eu” ou um “me deixa, é problema meu”, frases que já ouvi mais de uma vez de mais de um amigo ou conhecido nessa vida afora.

Bem, lá se vão vinte e um anos que meu pai é falecido. Há poucas semanas, minha mãe foi submetida a uma cirurgia complicada. Coisa de coluna, onde precisou ter acesso pelo tórax, coisa grande, seis horas e meia de procedimento. A família toda no suspense, praticamente acampados na frente do centro cirúrgico. Aguardando as notícias e tudo mais. Acontece a cirurgia, felizmente tudo corre bem, os médicos aliviados ao saírem da “batalha”. Numa das conversas ansiosas que temos ao fim de uma coisa dessas, pergunta daqui se correu tudo bem, responde dali da melhor maneira possível, e tudo mais, eu ouço uma pergunta: “Sua mãe fumava?”. Respondemos que não. O médico faz cara de surpresa, diz que a coloração do pulmão da minha mãe (que, repito, não era nem de longe objeto da cirurgia) era bastante característica. Nesse momento, não consegui deixar te sentir uma ponta de raiva do meu falecido pai. Mas rapidamente desviei o ódio para aquele vício maldito, que vinte e um anos depois, se fazia lembrar. Deixando a sua lembrança através de um fumo passivo, de alguém que amava aquele homem que, por escolha própria, decidiu se destruir aos poucos. E deixar uma pequena lambrança dessa destruição, para cada um de nós, seja na saudade que sinto de sua partida prematura, seja nas manchas nos pulmões de uma senhora de 77 anos submetida a uma perigosa e cansativa cirurgia de seis horas e meia. Vício maldito.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Tigre

© GermanGirl
Nasci no escuro da mata,
Sedento de carne e de sangue
Felino raiado, de redonda pata,
Mortal na neve, mortífero no mangue

Fui demônio, fui sábio, fui um deus
Sou a sombra na memória da aldeia
Que já deu fim em muitos dos seus
Sou agente do destino, e de sua teia.

Sou vários poderes encarnados,
Sou belo e terrível de se ver
Sou terror que finda os seus pecados
Ou mais perfeita visão de seu prazer...

Meu pelo, feito de sombra e sol
Meus olhos, portas a outra dimensão
A minha voz, que faz calar o rouxinol
E minha força, que não encontra oposição.

Sou senhor de mim, majestoso, seguro
Não conheço medo, apenas a mágoa de ti
Pois jamais temi pelo meu futuro
Até o bicho homem aparecer por aqui.

Sou tigre, estepes, florestas, montanhas dominei
O rei da Ásia, força encarnada, silêncio mortal
Hoje meu futuro é incerto, do amanhã não sei.
Talvez meu reinado já se encaminhe ao final.

Mas até que o último de meus irmãos se vá, tão cedo
E com as sombras da floresta se junte enfim,
Influenciarei aos homens, com fascínio e medo
E os farei se arrependerem de desejar meu fim.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Muito ajuda quem não atrapalha


Meninos eu vi. Estive na Cinelândia no 20 de setembro. Fui testemunhar como seria a manifestação contra a corrupção. Vi o filme, li o livro, como dizem por aí. Entre 2.500 e 4.000 pessoas reunidas. Uma série de interrogações para quem não foi, um certo prazer, ainda que singelo, discreto até, para quem esteve lá. Foi uma manifestação tranquila, não necessariamente pelo número ainda pequeno de participantes. A tranquilidade talvez viesse de um sentimento reconfortante de saber-se presente em um lugar onde todos concordavam com uma ideia simples. Talvez fosse o sentimento de perceber que afinal, nem todo mundo se encontra tão apático quanto à questão fundo de poço institucional que se instalou na política desse Brasil pós-mensalão petista. De pelo menos ali, no meio daquelas 2.500 a 4.000 pessoas, poder-se olhar para o lado e pensar que alguém que poderia ter ido pra casa resolveu ficar, dar um pouco de seu tempo, participar.

Percebo que muitos colunistas, blogueiros, comentaristas, jornalistas e afins tem criticado de forma rabugenta, desprovida de um mínimo de simpatia ou até contundente esse tipo de movimento. Vê-se em alguns um reflexo de extrema descrença, pessimismo, pragmatismo em níveis pouco saudáveis. Em outros, uma necessidade premente de ligar toda e qualquer manifestação àquela esquerda mais pateta e radical que ainda subsiste por aqui, denotando mais rabugentice ideológica do que interesse em que alguma coisa melhore. Em outros ainda, um certo ar de superioridade, semelhante ao daquele empresário da gravadora Decca que disse que aquele tal de rock que os cabeludos tocavam não tinha futuro. Algo como "eu sou foda, eu sei do que estou falando, e essa merda aí não vai pra frente". Então tá. Todos tem o direito de expressar-se nesse sentido, e quem sou eu para criticar esse direito. Mas penso da seguinte maneira. Tantos comentaristas falaram da validade do uso das redes sociais recentemente nos agitos do Oriente Médio, agora aqui no Brasil dizem que é besteira? Tantos desses articulistas criticam a mania "manifestacionista" dos PSOLs e PSTUs da vida. Entretanto quando é um movimento nascido apartidário, conduzido por cidadãos comuns, que apenas tinha como objetivo passar uma mensagem de insatisfação, acontece eles procuram imediatamente ligar uma coisa à outra? Será que mesmo que os PSOLs e PSTUs eventualmente peguem carona, por puro oportunismo, em alguma dessas manifestações, o fato de serem apartidárias e direcionadas já não seria uma boa coisa. E para ser espírito de porco nesse caso: deveriam ficar menos preocupados, porque cá pra mim, PSOLs e PSTUs são péssimos até pra fazer manifestações efetivas. São café com leite, deles a natureza cuida. Acho que falta um pouco de boa vontade aos nossos articulistas, colunistas, blogueiros e jornalistas de plantão. Talvez pensar que toda manifestação que faça um cara como eu tirar a bunda da cadeira e ir até lá, pode fazer com que outros cidadãos façam o mesmo. Foco, objetivo, direção, tudo isso pode vir depois. Sem a vontade de que a coisa dê certo, nada sai do papel. Nem uma coluna de periódico, nem uma mudança de paradigma nacional.

A coisa é seminal. Poucos perceberam o germe plantado. Muitos criticaram a inocência, a basalidade do movimento. É engraçado ler, ouvir, assistir pessoas fazendo comentários nessa direção, mas aparentemente sem levar em conta que até pouco tempo atrás, o grau de apatia era tão maior, que fazia um movimento assim impensável. Que esse tipo de movimento tem um crédito de conseguir ir aos poucos, sensibilizar a participação de pessoas que até então provavelmente não tomariam parte em tais iniciativas. É certo quando alguém diz que para combater políticos ruins, os bons precisam aprender a fazer política. Mas falando de Brasil atual, antes de fazer-se política, ainda tem-se que pensar política. O começo pode ser aí. Não importa se é na rede social. Se serve para aumentar o interesse político de um cara como eu, que antes das redes sociais estava muito mais próximo do "analfabeto político" de Brecht do que estou hoje, já vale. Por menor que seja, um passo pra longe da escuridão é um passo pra mais perto da luz. E se mais pessoas deixarem a rabugentice e a vaidade de lado e usarem suas cabeças para contribuir, seja com atos ou seja apenas com opiniões, ideias e insights, os movimentos contra a corrupção que irão surgindo e se agregando (como quem esteve ontem lá ficou sabendo que já está ocorrendo) só tem a ganhar com isso. Dar palpite no futebol é fácil, amigo. Quero ver dar palpite pra melhorar teu país. Agora, pelo menos você já tem onde fazer isso.

E pra terminar a conversa, descobri que ainda faz um bem danado cantar o Hino Nacional no Fim. Deixa o coração um pouquinho mais leve.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Chocolate


Ah, esse tal chocolate... um mulato mestiço de mexicano, baiano e suíço, o único dentre nós que verdadeiramente entende as mulheres.

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Máfias, culpados e um bonde no meio


©Band

Nessas últimas semanas, testemunhamos fatos que embora bastante diferentes em si, evocam todo um espírito de descrença política. Não uma descrença conhecida, a descrença que todos os brasileiros tem para com seus representantes. Trata-se de uma descrença mais abrangente, uma descrença ampla, quase global. Quanto a nossos representantes, muito é dito, muito é discutido, muito é investigado. Muito é até provado, mas eles conseguem se valer das artimanhas do sistema, criado e gerido por eles próprios, para planarem graciosamente acima de todo e qualquer impropério, acusação ou revolta que a sociedade possa sentir pelos atos perpetrados por eles.

Tome-se como exemplo Governador do Estado do Rio de Janeiro, que em nome de uma "cruzada do oba-oba para trazer investimentos ao nosso Estado" elegantemente ignora todo e qualquer problema infraestrutural que aconteça por aqui. E por problemas infraestruturais, entenda-se uma política de segurança que tenta conjugar combate ao crime de uma forma marketeira com (pasmem) a manutenção de uma banda podre firmemente instalada na polícia há anos. Entendam-se também absurdos que vão desde a flagrante falta de atenção para com a gestão criminosa de recursos destinados a defender as cidades da serra das chuvas de verão por parte de seus próprios prefeitos, até a bueiros explodindo e causando danos a cidadãos, automóveis e outras propriedades, passando por esdrúxulos acidentes com os centenários bondes de Santa Teresa, que de tão sucateados, transformaram-se de atração turística a peças de trem-fantasma. Sem contar aí com o que todo morador mais ou menos informado do estado sabe: o interesse do governador em trazer investimentos passa muito mais para abocanhar parte desses investimentos em proveito próprio e de seus aliados, amigos e associados, conduta esta que coaduna-se com a prática já notória de colocar o escritório de advocacia onde sua esposa atua como representante de várias empresas, órgãos e áreas de interesse do estado. Não é à toa que o povo do Twitter criou uma hashtag famosa e recorrente na rede social, a #MafiadoCabral.

Em outro episódio do mais dantesco desrespeito ao eleitor, a câmara dos deputados em Brasília absolveu ontem a Sra. Jaqueline Roriz das patifarias que ela foi (flagrada em vídeo, inclusive) acusada de cometer. Um episódio enojante, mas ao mesmo tempo, triste de tão previsível. Coisas do tipo que me fazem sair do óbvio, portar meu pensamento do foco principal e começar a olhar a questão de uma forma mais periférica. Se são todos representantes eleitos por nós, não seria razoável imputar a responsabilidade por esses desmandos a nós mesmos? Ou pelo menos não seria mais útil mudar o foco de nossa indignação? Parar de pensar em como os políticos são corruptos, venais, fisiológicos, e começarmos a pensar em como votamos mal, em como encaramos a política de uma forma "nas coxas"? Não é a hora de colocar a mão na consciência e pensar em quantos de nós não sabe sequer o nome dos deputados e senadores para quem demos nossos votos na última eleição? Não adianta reclamar depois que os jogadores estão em campo, principalmente em um jogo onde quem faz as regras são eles. Ao pensar nisso, uma última imagem invade minha lembrança. Quando é época de eleição, nas vias em que costumamos circular nas cidades grandes, é normal vermos com frequência carros adesivados com os nomes de diversos candidatos. É normal vermos as pessoas oferecendo esse espaço em troca de "uma força na gasolina", em troca de "um troquinho",em troca de um apadrinhamento, de uma vantagem, de um favorzinho lá na frente. Pergunto que tipo de políticos podemos esperar vindos de um ambiente desse tipo. Pergunto por que tantas pessoas se surpreendem quando um canalha escapa de uma cassação ou condenação, livre por seus pares, sendo que todos são nascidos e amamentados na prática do toma lá dá cá. E lembro que o toma lá dá cá não é invenção do político, é parte componente do DNA nacional, do jeitinho brasileiro, do material de que todos nós, gostando ou não, somos feitos. Somos um povo com defeitos e qualidades. Adoramos vangloriar nossas qualidades, mas constantemente nos surpreendemos com nossos defeitos, só porque os vemos refletidos nos outros, como se eles, apesar de políticos, não tivessem saído do mesmo lugar que nós. O tamanho da nossa responsabilidade é, ou ao menos deveria ser, maior do que o da nossa indignação.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

O Velho



Sempre tirei um bom proveito das redes sociais em das quais participei. Acesso a informações, diversão, conhecimento... Todos os regalos que agradam um espírito faminto de informações, curiosidades e trilhas para seguir como o meu. Apesar de sua gênese se dar no meio virtual, de seu ambiente ser o recente (historicamente falando) mundo da informática, as redes sociais não são diferentes de outras interações humanas. Por trás de todas as placas, teclados, monitores, conexões, discos rígidos, web sites e servidores, ainda somos nós lá. Interagindo mal e porcamente, como fazemos desde que descemos das árvores, com poucos momentos de melhora no desempenho de nossas interações. Seria ilusão nossa acreditar que não existiam trolls, que naquela época deviam ser conhecidos por espíritos de porco (ou algo que o valha) nas assembléias da Grécia clássica. Quiçá desde o tempo das cavernas. Sabendo disso, poucas vezes me indispus ou se indispuseram comigo nesses anos de convívio virtual nas redes.

Hoje, mesmo depois de tanto tempo, me surpreendi um pouco. Infelizmente, para mal. Tinha adicionado em uma dessas redes um senhor gaúcho, escritor com exímio domínio da língua portuguesa, por quem eu tinha bastante admiração. Não o conhecia profundamente, mas procurava ler sempre que podia seus escritos e deles absorver o máximo de informação. Em nossa etérea convivência virtual, percebi algumas vezes certa rabugice com relação a certos assuntos, mas nada que comprometesse a fundo minha admiração por suas qualidades, que já descrevi. Eis que em uma de nossas trocas de mensagens, percebi em seu discurso certo ranço, certa insistência fazer uma demonização extrema da influência americana nos eventos que levaram ao golpe militar de 1964. Apesar de ter lido sobre e conhecer alguns detalhes sobre essa influência, e sobre a política americana para a América Latina naquele período, na época da citada conversa dei pouca atenção a isto, pois foi uma nuance de opinião que apareceu de forma lateral na discussão de outro assunto. Mas ficou registrada essa insistência teimosa, coisa que não combinava muito bem com uma pessoa de quem se depreendia uma inteligência mais ponderada, menos extremista ou não tão dada a simplismos maniqueístas.

Em uma troca de comentários, dei uma opinião sobre o que chamei simbolicamente de “DNA do Brasil”. Afirmei simbolicamente que o brasileiro, (enquanto resultado de uma soma, e não como indivíduo) possuía características que eram muito presentes e perenes, desde o período da colônia, durante o império, república, ditadura militar, e até hoje, que pouco mudaram. Afirmei que pouco foi feito ou estimulado por quem quer que estivesse no poder durante nesses quinhentos e tantos anos para que essas características quando boas, sobressaíssem e quando ruins, fossem trabalhadas no intuito de melhorar. O velho senhor (que aparentemente se esforçava para destruir a boa imagem que tinha aos meus olhos), procurou encurralar-me em meus argumentos, afirmando que minha falta de estudo histórico (decidida por ele como líquida e certa através do simples fato de eu não concordar com seus argumentos) impedia que eu continuasse uma conversa, que eu deveria estudar mais a história de nosso país. Montado em um desespero eqüino para tentar derrubar meus argumentos, que apresentei com a máxima serenidade, tornou-se monocórdio em suas afirmações. Arvorou-se em uma empáfia desmesurada e vazia baseada na repetição “do quanto ele estudou na vida”, e chegou ao ponto ridículo de acusar-me de racismo contra os negros. Isso por eu mencionar a valorização que o brasileiro dá àquela famosa e macunaímica dose de malemolência, preguiça e “malandragem inocente” como algo que sempre foi valioso para os poderosos no sentido de manter o povo dócil, avesso ao progresso pessoal e à consciência de mobilização. Vi naquele senhor brados por um patriotismo realmente senil, que destoava de seus textos tão lúcidos. Li em seus comentários (cada vez mais absurdos) sugestões de que o ufanismo cego é a saída, de que a mais profunda negação de valores universais é a solução e de que aparentemente, só abraçando como se fossem qualidades todos os nossos mais vergonhosos defeitos, estaríamos no caminho certo. Desisti.

Procurei defender-me com retidão da injusta acusação de racismo, tratei de pilhá-lo por ter tentado comigo um artifício de argumentação tão basal, e procurei uma oportunidade para dar a discussão por encerrada. Antes disso, meu antes prezado interlocutor ainda teve tempo de dirigir-me algumas linhas malcriadas e recomendar-me que fosse estudar mais e passasse bem. Fui obrigado a finalizar minha participação nessa infrutífera discussão confessando que se fosse para chegar ao fim de minha vida um velho rabugento, monocórdio, de mente empedernida e com idéias tão bolorentas e pouco imaginativas quanto aquelas que ele tinha me apresentado ali, preferia estudar outras coisas. No fim, achei o saldo positivo. Pude exercitar meus argumentos em uma discussão até certo ponto de bom nível. Pude sentir-me mais seguro de que a temperança é um caminho bem melhor que o extremismo. Pude reafirmar minha desconfiança de que o avançar dos anos não traz a mesma carga de sabedoria a todos nós. E pude arrumar assunto para escrever mais um texto, exercitar e procurar chegar um dia em que escreva tão bem quanto o velho lá, só que com a mente mais aberta. Lembrei que sempre gostei muito de todos os velhos com que convivi. Mas também lembrei que sempre demonstrei uma enorme insatisfação com velhos mal-educados. Espero apenas que quando eu chegar lá, a dupla Seu Alzheimer e Dona Esclerose mantenha-se longe dos meus queridos neurônios, pois estando lúcido, ao menos um velho educado eu garanto que serei.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Stake Land


Há filmes que nos fazem pensar, sem que tenhamos esperado por isso. Alguns conseguem essa façanha de mesmo não sendo especialmente bons, inéditos, artisticamente destacados, ou vindos de criadores famosos. Às vezes, basta o fato de lançarem uma nova luz sobre velhas questões, ou de saberem nos levar, mesmo que sem querer, a um mundo diferente do nosso. Recentemente assistindo ao despretensioso filme Stake Land, acabei encontrando não só um entretenimento de boa qualidade, mas alguns pontos para se refletir também.

Neste filme de terror de 2010, a peculiaridade já começa pelo próprio gênero. Apesar de estarem presentes todo o clima e os elementos necessários a um filme do tipo, algo chama a atenção a um observador mais atento, desde o princípio. O diretor Jim Mickle procurou (sabiamente, a meu ver) contemplar a história de uma forma mais intimista, com a câmera reproduzindo o olhar sensível e o "tempo para respirar" muito mais comum nos filmes de drama do que nos frenéticos e simplistas filmes de terror com os quais esse poderia ser facilmente confundido. Ao escolher esse caminho, Mickle conseguiu pontos a mais, elevando do que poderia ser apenas mais um filme do gênero "epidemia de vampiros bestiais" para um patamar acima. O resultado é uma jornada melancólica e pós-apocalíptica com tons de A Estrada e O Livro de Eli,  onde o foco principal não está nos famigerados vampiros, mas na busca por um local melhor para se viver, numa sociedade que desmorona completamente.

É justamente aí que começa a parte "para pensar" que mencionei no início do texto. Vemos que os criadores Jim Mickle e Nick Damici (respectivamente diretor, co-roteiristas e ator principal) conseguiram fazer dentro de um filme de terror que poderia ser visto somente como isso, uma alegoria bastante precisa e ácida do atual momento dos Estados Unidos da América. Temos o jovem Martin, que representa o futuro, o inseguro e despreparado jovem americano comum, criado com a intenção de ser e viver feliz, mas completamente incerto de seu amanhã. Martin acompanha e é orientado (e protegido) pelo misterioso Mister, a epítome do passado americano, o cowboy calado, o guerreiro cuja única função é sobreviver, o homem que faz o que um homem tem que fazer e que já não vê lugar para si no mundo caótico em que vive. A sociedade em total ruína, os vampiros perambulando pelo país como meros animais que se alimentam do sangue das pessoas comuns, seriam algo como  a parcela da sociedade atual perdida para o crime e as drogas, ou em última análise, para a própria imbecilidade, improdutividade e desemprego crescente daquela sociedade. E no cenário do ideologicamente atrasado meio-oeste americano, outras alegorias tomam forma: o fanatismo religioso, as seitas que surgem utilizando o nome de um Deus que aparentemente virou o rosto para outro lado. O que ainda não foi  consumido pela destruição bestial dos vampiros é dominado por seitas que usam o nome de Deus para buscar seus próprios objetivos insanos, uma representação clara do retrocesso e da ultra-religiosidade direitista ferrenha que volta e meia deixa os próprios EUA perplexos. As seitas do filme representam bem o nosso momento atual, não só nos EUA mas em todos os países onde neopentecostais e diversas outras denominações cristãs,  florescem com sua canhestrice, preconceitos arraigados, e a busca por óbvios interesses financeiros que apenas a seus líderes carismáticos interessam.

E onde está a solução? De forma ao mesmo tempo inteligente e autocrítica, o roteiro evidencia que a viagem sempre em direção ao norte é a forma de desistir de todo aquele país destroçado, que não se cumpriu. No norte, está a "terra prometida", está o Canadá. É o americano sendo obrigado a desconstruir toda a sua auto-imagem e arrogância. O filme acerta em mostrar um punhado de sobreviventes atravessando milhas e milhas de amargura em direção ao antes desprezado vizinho, agora transformado na única esperança de algum futuro melhor. Como eu disse antes, é bom encontrar no meio de uma diversão despretensiosa, algo que nos faça pensar. Stake Land, um filme que merece ser comentado por conta dessa boa surpresa.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Meditação Forçada




E lá foi a socialite para a Índia
Não bastava a cafeína
Nem o cão, cheio de frufrus
Nem as festas com cocaína

Não bastou posar para a Playboy
Nem ter vivido o hedonismo...
Nada impediu o vazio que corrói
E seu atual estado de egoísmo.

Entre uma compra e outra no shopping
Resolveu: vou partir pra Índia!
Lá eu vou encontrar com Deus!
O místico será meu anti-doping!

E assim sucedeu, partiu numa manhã
Com milhares de malas, cheias de panos
De bagagem de mão, uma esperança vã
E a firme resolução de cumprir seu plano.

Qual não foi sua surpresa, ao lá chegar,
Que estranho, que fedorento, que pobreza.
Apinhado de gente, pitoresco lugar...
E a dondoca já não tinha tanta certeza
De que era ali que realmente queria estar.

E seguiu, ao Ashram do mestre famoso
Na porta, belíssimos carros esporte
Os mais exclusivos, e de valor espantoso
De gente que queria entender vida e morte.

E ficou lá, se achando a iluminada
Na companhia de milionários culpados
Aprendendo a orar, gastando uma bolada
Deixando o mestre cada vez mais incensado.

Mas iluminação de verdade, ela conheceu
Em um passeio certo dia, desprevenida
No centro da cidade, imprevisto ocorreu
Precisou de um banheiro, (ou coisa parecida)

Indicaram uma casinha, suspeita então.
Sem vaso, sem descarga, sem vaidade
Quatro paredes, um buraco no chão
Pra fazer as suas tais necessidades...

E o papel, onde estava? Não tinha.
O costume local é usar a mão esquerda
E perto do buraco, um pote ou latinha
Onde limpa-se a mão suja de “mêr-da.”

Acabou ali, a graça da nossa amiga.
Seu encontro com Deus falhou.
Foi embora daquele país de formiga.
E pra lá, nunca, nunca mais voltou.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Viver ou Sonhar?


Não sejas vítima! Não faça seu sonho morrer. Não faça o pobre correr o risco desnecessário de se trancar num armário por conta de tua imprudência, ou da infantil carência, de não saber diferenciar. A ilusão, do trocar a paixão pelo real amar, o frisson pelo real sonhar, o viver, pelo ilusório de ser.

E aprenda com a vida, querida. Aprenda. E aprendendo, compreenda... Que viver um sonho vale. Ainda que o sonho se cale sob a tua insistente noção de matar cada sonho bom, para viver de ilusão.

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Adaptado do poema "Viver um Sonho" (Junho/2009)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Porque eu "detesto" a Tati Bernardi


Assim como são as pessoas são as criaturas, e se fôssemos todos iguais o mundo seria chato além da conta, certo? Porque digo isso? Porque não gosto dessa autora, a tal da Tati Bernardi*. Tudo que ela escreve me passa uma sensação de desvario, glicose em excesso, sentimentalismo exacerbado e culto ao erro. Me pergunto quantos diabéticos já não devem ter morrido lendo os escritos dela.

Cá do meu canto, continuo na minha função de observar vocês terráqueos na sua eterna atividade de quebrar a cara e não aprender. E vejo o quanto a celebração dos extremos é importante para vocês, habitantes desse planeta. As mulheres, claro são as que puxam o bonde. Os homens, dominados por elas desde sempre, só fazem o que elas querem, seguem o bonde. O sucesso que fazem os textos dessa moça são um exemplo dessa civilização que se criou, onde a paixão, onde o calor, onde a adrenalina e a emoção no máximo são a tônica. É uma civilização sem sutileza, que desconhece o prazer do autoconhecimento, da delicadeza, e da paz de espírito. É a civilização onde o sofrer, o se dar mal, e os becos sem saída emocionais são celebrados com passadas de mão na cabeça.

Imagino um futuro onde as pessoas não terão medo de se relacionarem umas com as outras, construindo laços de formas e cores variadas. Amor será algo superior a essa mania de paixão, a esse produto que se inventou. Mas para chegar-se nesse ponto, seria necessário que se parasse de vender (ou traficar?) a paixão como um produto tão mais atraente que o amor. Tal como são as drogas, só que nesse caso, algo perfeitamente legal, permitido, estimulado e vendido como mais do que realmente é.

A paixão e a cultura em torno dela, está para o espírito humano como o fast food está para o corpo. É bem-vendido, se acha em todos os lugares, é barato, colorido e atraente, mas não presta pra saúde. Já o amor, ah... o amor é a comida caseira, é aquela coisa que os vendedores da paixão insistem em taxar de sem graça, de demodé, de sem sal. As Tatis Bernardis da vida só comem paixão, são as primeiras a pularem dizendo que sem paixão a vida não existe. Pera lá! Quem disse, cara-pálida? Não no meu planeta. No meu planeta quem manda é o amor. Porque o amor em vez de tirar a consciência, de nublar a visão, nos torna mais lúcidos. E quando somos mais lúcidos, nossa visão fica mais sensível. A ponto de vermos nas coisas mais simples da vida cores que nem pensávamos que existiam.

Não que a paixão não devesse existir. Mas que se venda com seu verdadeiro tamanho, importância e informações nutricionais impressas na embalagem, por favor.

Muito amor pra vocês.


* Tati Bernardi é uma escritora e roteirista de TV paulistana. Seus textos são muito bem escritos, mas fazem um mal enorme à saúde emocional das pessoas.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Onze e meia em Cronos


Lá se vai o pretenso sábio
Tal qual o espectro morto
Envolvido em cinqüenta metros de pano
Tecido negro, como seu inventário torto.
Nem ao se vestir de malha de prata
Reluzente à luz do sol
Nem ao se exibir a construída e exata
Precisão do seu cabedal em rol,
Encontra paz, o pretenso sábio.

Agruras da vida o caçaram
Dificuldades que só ele enxerga
O seu sucesso não o satisfez
Não importa o que um dia fez
Nega-se ele ao prazer da entrega
Só o fluir etílico anestesia
É a pretensa vida que se (in)completa
Aos verdadeiros sábios copia
Aos verdadeiros idiotas simula
Para a morte, uma estrada reta
Pela vida, uma estrada dura.

Lá se vai o pretenso humilde
Cheio de si em só descrição
Esconde o orgulho em um copo
Uma dose de mágoa, duas de ilusão
Aparece em todas as portas
Senta-se em todas as mesas
Conhece todas as línguas,
Dono de todas certezas.

Quando lembra na caverna à noite,
Qual morcego em seu recôndito úmido
Da infância que foi seu açoite
Dos momentos de abuso pútrido
E das desventuras que se seguiram
Cada vez mais azeda um esgar.
Rir do mundo e dele fazer pouco
Estar aliado aos pessimistas
Abandonar a luz com um riso rouco
De escárnio e de sofrimento
Abandonar a luz ainda mais
Deixando a esperança para trás
E partir sábio, para o esquecimento.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sono após o almoço


E o sono vem,
A fera desabalada,
Alimentada por bons sabores
A apresentar-se num palco
Perigosamente iluminado,
Profusamente colorido
De enebriante, e perfumado
Ar por vezes aquecido,
Outras vezes esfriado
Mas nem assim desprendido
Desse sono que me domina.

E o sono vem,
Montado a galope,
Nas rédeas de um corcel,
De nome Escalope,
Filho de Bolo de Tapioca,
Com Cafezinho e Pão de Mel.
Ele vem, certo da sua vitória
De sagrar-se aqui vencedor
E quem vence, escreve a história.

O sono vem,
Trazendo brumas e fadas
E eu travando batalhas,
Vem sem armadura ou espada
Apenas algumas migalhas
Que sobraram do meu almoço.
Mas que são suficientes
Para fazer alvoroço,
Nesses meus olhos dormentes,
Prestes a se entregarem,
As pálpebras a se juntarem
E o fim derradeiro,
A rendição final,

Sozinho, mais ninguém resta
Me encontro no fim da festa
Cansado a respirar,
O sono ocupa lugar,
Meu cansaço, a descansar
A vontade da velha acolhida
Que seja uma curta dormida,
Uma pedra irei me tornar.

E veio o sono,
E o papel foi seu, a saber
De fazer-se tema
Para poema eu fazer.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Hanna


Assisti ao filme “Hanna” de Joe Wright, diretor do festejado Desejo e Reparação, de 2007. A presença de 2 atores de quem eu gosto bastante, como Eric Bana e Cate Blanchett, além da vontade de rever a quase impronunciável, Saoirse Ronan, que tinha feito um bom trabalho naquele mesmo Desejo e Reparação, fez com que eu me interessasse por esse filme, que prometia ser um bom thriller de espionagem. Mas, nem tudo neste filme é o que parece. E, apesar dessa característica funcionar bem em alguns filmes, neste aqui não foi bem o que aconteceu.

Partimos da premissa já bastante explorada da “tentativa genética de se criar uma arma perfeita”. Apesar de batida, nada contra o ponto de partida da trama, que já rendeu e ainda pode render bons filmes nesse filão, desde que a idéia seja bem explorada. A tal “arma perfeita” é personificada aqui por uma adolescente criada desde a infância em um ambiente inóspito, por um pai que demonstra ser um agente secreto competente. Percebe-se que todos esses anos passados em isolamento, serviram apenas para que a menina se escondesse, ao mesmo tempo em que o pai a ensinava todo o necessário para se proteger caso algum dia fosse descoberto seu paradeiro. Mesmo sem o filme entregar os detalhes todos de cara, quem está habituado com esse tipo de roteiro matará algumas charadas de pronto. Na primeira quinta parte do filme, já vimos pistas o suficiente de que a experiência que resultou no nascimento da menina em algum momento foi cancelada. Que há toda uma divisão da CIA, comandada por uma agente implacável, interessada em que essa informação jamais chegue a público.

Até certo momento, as decisões criativas do diretor parecem funcionar bem. A utilização de conceitos pouco usuais para esse tipo de filme, seja no tratamento visual, seja nos jogos de câmera, e até mesmo certas decisões de roteiro, funcionam bem em alguns momentos. Acaba criando-se um clima diferente, destacando a história e dando um sabor diferente do que outros filmes do mesmo gênero costumam mostrar. Porém, se esse estilo funciona bem em alguns momentos, as mesmas decisões começam a fazer o barco balançar para o lado errado muitas outras vezes, atrapalhando até um pouco mais que ajudando. Em alguns momentos a simbologia poética que ele procura utilizar em certas cenas se perde por não condizer com o estilo da trama, em outros a forma de filmar as cenas de luta e ação parece um tanto inadequada, ou até mesmo datada. Chega-se ao extremo desse aspecto em uma cena onde a personagem principal derruba um inimigo com rapidez, cortando-o várias vezes na área do tórax e pescoço com uma faca, conseguindo a façanha de não vermos uma gota de sangue decorrente do ataque. A questão de

Enquanto os atores estão corretos em seus papéis, certas situações em que o roteiro os colocam não são favoráveis a seus desempenhos. Eric Bana convenceria como um agente recluso que tenta proteger a filha a todo custo, se o roteiro não fizesse com que ele se separasse dela em pontos cruciais da história. Cate Blanchett convenceria como a agente implacável, que quer eliminar tanto pai como filha a qualquer custo, se tivesse cenas onde pudesse mostrar de fato porque é uma agente implacável, ou uma vilã desprezível. Vemos seu modus operandi, mas pouco sabemos de suas motivações. E Saoirse Ronan como Hanna, simplesmente emprestou sua aparência ao personagem, mas pouco contribuiu com algo que tornasse o personagem marcante. Vemos em Hanna uma menina que poderia ter sido interpretada por qualquer outra atriz da mesma idade e característica física. Somado a isso, um elenco de apoio variando entre o pobre e o irrelevante ajudou a balançar um pouco mais o barco do filme. Alguns dos capangas e a personagem da menina que em certo ponto da fuga, faz amizade com Hanna, pareciam ter saído de filmes de comédia, sendo este um dos pontos mais fracos de toda a obra.

Concluo considerando que o filme não é de todo ruim. Como produção, não deixa a desejar. Algumas decisões estéticas, a sacada de mesclar conceitos e simbologias de um conto de fada dos irmãos Grimm a um thriller de espionagem, e a trilha sonora dos Chemical Brothers também é um toque de qualidade e diferenciação ao estilo. Pena que com tantas peças de boa qualidade, o quebra-cabeças final não tenha passado de um filme na média do estilo. Outros já fizeram melhor, com menos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Moça Que Era Brisa

© Nekranea (DeviantART)
Quando eu desencarnei
Não sei dizer bem ao certo
Se aquele canto lá onde cheguei
Era o céu, ou lugar mais perto
Só sei que ao chegar,
Me mandaram esperar
Sentada, paciente
Até vir um atendente
Pra comigo conversar

Entrei numa sala e sentei à mesa
E qual não foi a minha surpresa
Ao saber que tinha que voltar
Com uma tarefa a desempenhar.
Pra pagar a minha estadia
Pro mundo dos vivos iria voltar
Apenas um vento eu seria
Mas era importante o que ia soprar

Meu trabalho era por caridade
Procurar por quem sofreu demais
E fazer esquecer uma parte
Soprar algumas memórias pra trás
Minha tarefa era por piedade
Vetar das memórias alguns sofrimentos
Economizar das pessoas certos tormentos
Pra viverem, ou morrerem com dignidade

E o tempo passou,
E me apeguei à minha função
Deixava leve o meu coração
Ser aquela que com o vento levava
O choro da mãe que embalava
O filho pequeno sem pulsação
Aquela que com o tempo fazia entender
Que mesmo sofrendo é preciso viver
Pra poder ajudar os que ficarão

Até quando acabou o meu tempo
E eu pude partir afinal,
Me disseram, trabalhei a contento
Mas eu me sentia um pouco mal
Pois de todo sofrer que soprei,
Junto também ia um pouco do meu
E agora, eu dizia, se eu chorar
Quem fica pro meu pranto soprar?

Um abraço de luz eu ganhei
“Não vais mais chorar, pequenina
Pois até o pranto sem fim
Nos meus braços um dia termina”
E assim para a luz eu segui
Pra encontrar com o nunca e o sempre
Me juntei ao princípio de tudo
Estive na criação, em seu ventre
E todo o sofrer ficou mudo
E toda a vida voltou
Nesse momento mais uma alma nasceu,
No exato momento que meu vento soprou.

Pesos e Medidas

© Jonas Kussama
No caminho para casa, às vezes me assalta uma preocupação que se mostra mais eficiente que a maioria dos bandidos da cidade. Me assalta um medo meio aleijado, um tanto manco, que me persegue persistente e irritante, apesar da dificuldade em seu claudicante andar. Algo que nunca me alcança, mas tampouco me deixa em paz. Consigo ouvi-lo por cima dos sons do trânsito e do conversar das pessoas. É o som da areia caindo, de minutos indo embora e não voltando mais. Tento em vão segurá-los, impedir sua partida até o momento em que desisto revoltado. Nessa hora só desejo que vão com Deus, e o diabo que os carregue...
A poder de música, consigo negociar alguns sorrisos internos e alguma satisfação um tanto diluída, mas ainda assim genuína. Procuro exercitar minha capacidade de alternar importâncias, e penso no cara que desmanchou o noivado perto do casamento. A noiva, tomada de assalto pelo ódio movido a essas paixões irracionais tão comuns em nosso tempo. Traçou um plano junto à madrasta e ao padrasto esse último um estereótipo ambulante, o típico policial-corrupto-carioca (tudo junto, por serem conceitos cada vez mais indissociáveis, infelizmente) a morte do rapaz. Ele escapou com vida, mas não antes de tornar-se um alvo móvel, e ganhar alguns buracos de bala pelo corpo. Há também o fato do rapaz ter sido mantido em cativeiro e apanhado durante sete horas. E de conseguir escapar, fugir, se jogar em um valão e fingir-se de morto.

Eis que de repente minha volta pra casa adquire novos ares, a música consegue animar meu espírito mais e mais, e até as plataformas de petróleo na baía adquirem os ares poéticos de uma singela letra de bossa nova. Tudo é uma questão de perspecitva, não é mesmo?


Publicado no Recanto das Letras em 23/09/2008

À prova de quase tudo

© Chris Boyd
O mundo é o mesmo, não mudou em nada.
Mas ainda assim estamos aqui, frente a frente
E se a perfeição do destino nos foi roubada,
Se ambos tivemos que nos virar, de repente
E aprender, bem ou mal a assimilar as porradas
Que os bandidos vieram e deram na gente...
Doeu, mas aprendemos. Sobrevivemos.

Nos tornamos capazes de pôr de lado esperança,
E até um pouco da fé nesse mundo selvagem
Mas soubemos proteger o nosso lado criança
Pra não tê-lo estragado, só de sacanagem
Por essa gente tão feia que sempre nos alcança.
Desiludiu, mas aprendemos. Sobrevivemos.

Encontramos falsos amores, casos e promessas
Fomos passados pra trás, subtraídos em valores
Repetimos sem conta: “não me venha com essa”
E descobrimos remédios para aliviar essas dores
E seguimos, pois ainda assim tínhamos pressa.
Enfrentamos, e aprendemos. Sobrevivemos.

Cada um seguiu para um lado, que mais conviesse.
Um tornou-se emissor de emoções, uma fonte
Outro, guerreiro defensor da razão, como prece.
Nos vimos no mesmo campo, no mesmo front
Em lados opostos, mas não inimigos, ao que parece
Lutamos (muito) para aprender. Sobrevivemos.

Hoje encontramos descanso nas cores de uma flor
Nos pequenos e doces prazeres dos tempos de paz
Almas cansadas, habituadas a todo tipo de dor
Recusamos os protocolos, e os códigos, não mais.
Nos achamos, nos reconhecemos em meio ao tremor,
E com o mundo girando, deixamos regras pra trás

Não jogamos, porque o jogo já não há
Não comparamos, pois a vida passa sozinha
Entendemos que há muito que esperar,
Mas que a vontade que de nós se avizinha
É o anseio de viver sem se preocupar
Se o que se aproxima é flor, ou erva daninha.
Sobrevivemos, à flor, e ao veneno.
Eu, Você, sobreviventes ao extremo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rango



Há mais de uma maneira de se gostar, ou não, de um mesmo filme. Só que às vezes, a gente esquece disso. Ultimamente, temos assistido (me incluo aí, mea culpa mode on) os filmes cada vez mais no piloto automático, como se a razão de ser dessa atividade fosse um simples chegar ao fim da fita e emitir um thumbs up ou thumbs down. Mas este filme foi capaz de me fazer dar um tempo no piloto automático e assistir algo com gosto, não pra dizer se é bom ou ruim apenas, mas pelo prazer do passeio.


Para chamarmos um filme de bom, pesa para o resultado final o desempenho de atores, a mão do diretor, a questão dos efeitos especiais? Claro, tudo isso é levado em conta para que se dê uma opinião sobre gostarmos ou não (e o quanto) de um filme. Mas depois de ter lido algumas críticas um tanto discordantes sobre Rango (2011) de Gore Verbinski, e finalmente tê-lo assistido, percebi tratar-se de um daqueles filmes que pede uma apreciação um pouco diferente. Tive que ir além do trabalho das vozes dos atores, da produção da animação e do estilo que Verbinski imprimiu na coisa toda. Pra captar bem as reais qualidades desse filme, precisei lembrar que às vezes o que de nós mesmos projetamos no filme que passa ali na tela,  é tão importante quanto o filme projetado na tela para nós.


Definitivamente o filme não é pra crianças, e isso se percebe nos primeiros diálogos. Tomando como ponto de partida um viés completamente existencial, assistimos a trajetória de um pequeno camaleão verde que vive num terrário, completamente perdido quanto a  seu papel no mundo. Após um acidente, nosso amigo réptil vai parar em uma cidade perdida no deserto de Mojave, habitada por personagens típicos da região e do imaginário western. Alçado à categoria de xerife após criar de última hora para si a persona destemida de nome Rango, ele tem a partir de então, se não a resposta para o “quem sou eu” existencial, ao menos um objetivo à frente: proteger a cidade e seus cidadãos de seus inimigos.


O que se vê daí pra frente é um desfile muito rico de citações a vários filmes, (mais frequentemente do gênero western, mas não só) pontuados por algumas surpresas interessantíssimas e encenados por “atores” digitais maravilhosamente desenhados. Os animais-personagens são perfeitos ao retratar a feiúra e a personalidade dos habitantes do deserto. A produção acerta tanto pelo lado da história natural, ao mostrar animais perfeitamente reconhecíveis, quanto pelo lado da adaptação desses mesmos animais à aparência e aos trejeitos,  cacoetes, e linguajares dos típicos componentes do universo do oeste americano. Como ponto negativo, destaco apenas alguns vícios trazidos pelo diretor de sua série Piratas do Caribe, o que faz com que algumas vezes, Rango lembre a série citada mais do que o necessário ou desejável. Mas esse ponto não tira o brilho do filme para quem, como eu, pôde reencontrar conceitos e símbolos do velho oeste misturados a uma animação competentíssima, recheada de personagens engraçados e dublados por atores talentosíssimos. Entre os talentos que emprestaram voz para alguns personagens no original em inglês, temos além de Johnny Depp na voz do protagonista, gente boa como Alfred Molina, Harry Dean Stanton, Bill Nighy, Ned Beatty, Ray Winstone, Abigail Breslin, e Timothy Olyphant.

Recomendo para qualquer um que goste não somente do gênero western, mas de animação em geral, com um tom mais adulto. Me diverti. Uma dica: após o fim do filme, assista os créditos finais. O clipe, que acompanha a música título do personagem principal, é um pequeno show à parte.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Limitless - Sem Limites

Assisti ao filme Limitless – Sem Limites (2011) e confesso, com uma ponta de desconfiança. O fato de ter 2 atores de presença arriscada no elenco já era um indício. O primeiro, Bradley Cooper, é daqueles tipos “novo hype” que Hollywood volta e meia tenta empurrar garganta abaixo do público, fazendo um filme a cada 5 minutos. O segundo, um Robert De Niro que já conseguiu ir do topo da montanha, onde era ícone absoluto do cinema até o vale profundo onde moram aqueles artistas cuja presença em um filme pode fazer o mais eclético dos cinéfilos pensar duas vezes antes de assisti-lo.

Girando em torno da corriqueira idéia “cara fracassado que da noite para o dia adquire capacidades extraordinárias”, também precisaria de uma dose de competência para funcionar, visto que no passado outros filmes foram feitos baseados nesta mesma premissa, com os mais variados resultados. E eis que a última coisa que eu esperava acontecer, acontece de fato. Fui surpreendido.

O diretor Neil Burger (O Ilusionista, The Lucky Ones) conseguiu impor à produção não só um ritmo eficaz, como também visualmente interessante. Bem equilibrada entre o comercial e o autoral, a linguagem visual do filme atua como um importante suporte à história e ao clima do filme como um todo. Bons acertos da direção, boa fotografia e efeitos visuais, acrescentaram charme a certas cenas e reforçaram o clima de outras de forma bastante eficiente. Mérito pela escolha de usar os efeitos e a parafernália visual mais como apoio do que como fogos de artifício, o que combinou de forma perfeita com a história, onde a grande mudança acontece em primeiro lugar dentro da mente do protagonista.

Conte-se também o fato de que os atores, em especial o protagonista, estão bastante corretos em seus papéis. Tanto Cooper quanto De Niro conseguem tornar seus personagens críveis, sem descambar para o clichê. E para o desenvolvimento do filme, apesar de um ou outro detalhe ou personagem previsívis ou dispensáveis no roteiro, a conta fecha bem. E para maior de todas as surpresas, numa época de tão pouca inspiração nos filmes americanos, é um prazer encontrar um roteiro em que se chegue a um final bem amarrado. O normal hoje são filmes onde a proposta é boa, onde se supõe ou se espera um bom desenvolvimento de roteiro, mas onde as boas premissas vão cedendo lugar à evolução fraca, culminando em finais muitas vezes constrangedores. Aqui, ao contrário, o que acontece é que mesmo havendo um ou outro detalhe menos cuidado no meio do caminho, o filme encontra um modo de superar esses detalhes e fechar a conta no positivo, e ainda com uma bela gorjeta no fim. Nos últimos tempos, é mais do que se poderia esperar.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma crônica sobre nada


Ele acorda meio moído, como se saísse aos poucos de dentro de um caminhão de frigorífico que despencou ribanceira abaixo. O despertador não quer saber de nada, e continua apitando freneticamente, como uma mulher mal-comida. Sem perceber, ele passa uns 5 minutos tentando ignorar o despertador, fazendo cara de não tô nem aí. Estica o braço para abrir as persianas e deixar um pouco de luz entrar no quarto. Olha pro lado, vê a hora. Um minuto passa no visor. O vizinho de baixo já está em atividade. O rádio ligado, tocando um pagode que nunca deveria ter sido composto, de tamanha afronta que representa ao gênero musical. Por sorte a música está em seus momentos finais. Entra a locutora da rádio, dizendo que a rádio é um amor. Ele fica com vontade de mandar a rádio, o compositor da música e a locutora tomarem no cu. Pensando nisso ele levanta da cama.

Pega uma cueca na gaveta, liga seu próprio rádio e se dirige ao banheiro. No rádio, o programa de notícias com locutores metidos a engraçadinhos. Chega até a ser divertido porque os locutores parecem tão fora de contexto que chegam a ser divertidos. É como de um cara que conta uma piada sem graça mas que não percebe que estão rindo dele mesmo e não da piada.

Banho, barba, escovar os dentes, roupa. O maldito inverno não existe no Rio de Janeiro. Um sol que já denuncia um calor incômodo na hora do almoço aparece, tão insistente quanto o pagode que tocava no rádio do vizinho. Ele chega ao ponto de ônibus no horário de sempre, nem muito adiantado nem atrasado ainda, dependendo da boa vontade do trânsito de qualquer maneira. O ônibus comum demora o suficiente para fazê-lo ficar com vontade de pegar o executivo. Mas é besteira. Pagar mais caro, por um pouco mais de conforto, mas ainda assim chegando atrasado se o trânsito estiver ruim não vale a pena.

No ônibus, ele passa pela praia. A visão de um mar que reflete o azul do céu faz com que ele quase se sinta feliz. Não que não tenha seus motivos. Mas para se sentir feliz não basta o mar refletindo o sol. Precisa só um pouquinho mais.

Publicado no Recanto das Letras em 25/06/2006