segunda-feira, 4 de julho de 2011

Porque eu "detesto" a Tati Bernardi


Assim como são as pessoas são as criaturas, e se fôssemos todos iguais o mundo seria chato além da conta, certo? Porque digo isso? Porque não gosto dessa autora, a tal da Tati Bernardi*. Tudo que ela escreve me passa uma sensação de desvario, glicose em excesso, sentimentalismo exacerbado e culto ao erro. Me pergunto quantos diabéticos já não devem ter morrido lendo os escritos dela.

Cá do meu canto, continuo na minha função de observar vocês terráqueos na sua eterna atividade de quebrar a cara e não aprender. E vejo o quanto a celebração dos extremos é importante para vocês, habitantes desse planeta. As mulheres, claro são as que puxam o bonde. Os homens, dominados por elas desde sempre, só fazem o que elas querem, seguem o bonde. O sucesso que fazem os textos dessa moça são um exemplo dessa civilização que se criou, onde a paixão, onde o calor, onde a adrenalina e a emoção no máximo são a tônica. É uma civilização sem sutileza, que desconhece o prazer do autoconhecimento, da delicadeza, e da paz de espírito. É a civilização onde o sofrer, o se dar mal, e os becos sem saída emocionais são celebrados com passadas de mão na cabeça.

Imagino um futuro onde as pessoas não terão medo de se relacionarem umas com as outras, construindo laços de formas e cores variadas. Amor será algo superior a essa mania de paixão, a esse produto que se inventou. Mas para chegar-se nesse ponto, seria necessário que se parasse de vender (ou traficar?) a paixão como um produto tão mais atraente que o amor. Tal como são as drogas, só que nesse caso, algo perfeitamente legal, permitido, estimulado e vendido como mais do que realmente é.

A paixão e a cultura em torno dela, está para o espírito humano como o fast food está para o corpo. É bem-vendido, se acha em todos os lugares, é barato, colorido e atraente, mas não presta pra saúde. Já o amor, ah... o amor é a comida caseira, é aquela coisa que os vendedores da paixão insistem em taxar de sem graça, de demodé, de sem sal. As Tatis Bernardis da vida só comem paixão, são as primeiras a pularem dizendo que sem paixão a vida não existe. Pera lá! Quem disse, cara-pálida? Não no meu planeta. No meu planeta quem manda é o amor. Porque o amor em vez de tirar a consciência, de nublar a visão, nos torna mais lúcidos. E quando somos mais lúcidos, nossa visão fica mais sensível. A ponto de vermos nas coisas mais simples da vida cores que nem pensávamos que existiam.

Não que a paixão não devesse existir. Mas que se venda com seu verdadeiro tamanho, importância e informações nutricionais impressas na embalagem, por favor.

Muito amor pra vocês.


* Tati Bernardi é uma escritora e roteirista de TV paulistana. Seus textos são muito bem escritos, mas fazem um mal enorme à saúde emocional das pessoas.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Onze e meia em Cronos


Lá se vai o pretenso sábio
Tal qual o espectro morto
Envolvido em cinqüenta metros de pano
Tecido negro, como seu inventário torto.
Nem ao se vestir de malha de prata
Reluzente à luz do sol
Nem ao se exibir a construída e exata
Precisão do seu cabedal em rol,
Encontra paz, o pretenso sábio.

Agruras da vida o caçaram
Dificuldades que só ele enxerga
O seu sucesso não o satisfez
Não importa o que um dia fez
Nega-se ele ao prazer da entrega
Só o fluir etílico anestesia
É a pretensa vida que se (in)completa
Aos verdadeiros sábios copia
Aos verdadeiros idiotas simula
Para a morte, uma estrada reta
Pela vida, uma estrada dura.

Lá se vai o pretenso humilde
Cheio de si em só descrição
Esconde o orgulho em um copo
Uma dose de mágoa, duas de ilusão
Aparece em todas as portas
Senta-se em todas as mesas
Conhece todas as línguas,
Dono de todas certezas.

Quando lembra na caverna à noite,
Qual morcego em seu recôndito úmido
Da infância que foi seu açoite
Dos momentos de abuso pútrido
E das desventuras que se seguiram
Cada vez mais azeda um esgar.
Rir do mundo e dele fazer pouco
Estar aliado aos pessimistas
Abandonar a luz com um riso rouco
De escárnio e de sofrimento
Abandonar a luz ainda mais
Deixando a esperança para trás
E partir sábio, para o esquecimento.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Sono após o almoço


E o sono vem,
A fera desabalada,
Alimentada por bons sabores
A apresentar-se num palco
Perigosamente iluminado,
Profusamente colorido
De enebriante, e perfumado
Ar por vezes aquecido,
Outras vezes esfriado
Mas nem assim desprendido
Desse sono que me domina.

E o sono vem,
Montado a galope,
Nas rédeas de um corcel,
De nome Escalope,
Filho de Bolo de Tapioca,
Com Cafezinho e Pão de Mel.
Ele vem, certo da sua vitória
De sagrar-se aqui vencedor
E quem vence, escreve a história.

O sono vem,
Trazendo brumas e fadas
E eu travando batalhas,
Vem sem armadura ou espada
Apenas algumas migalhas
Que sobraram do meu almoço.
Mas que são suficientes
Para fazer alvoroço,
Nesses meus olhos dormentes,
Prestes a se entregarem,
As pálpebras a se juntarem
E o fim derradeiro,
A rendição final,

Sozinho, mais ninguém resta
Me encontro no fim da festa
Cansado a respirar,
O sono ocupa lugar,
Meu cansaço, a descansar
A vontade da velha acolhida
Que seja uma curta dormida,
Uma pedra irei me tornar.

E veio o sono,
E o papel foi seu, a saber
De fazer-se tema
Para poema eu fazer.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Hanna


Assisti ao filme “Hanna” de Joe Wright, diretor do festejado Desejo e Reparação, de 2007. A presença de 2 atores de quem eu gosto bastante, como Eric Bana e Cate Blanchett, além da vontade de rever a quase impronunciável, Saoirse Ronan, que tinha feito um bom trabalho naquele mesmo Desejo e Reparação, fez com que eu me interessasse por esse filme, que prometia ser um bom thriller de espionagem. Mas, nem tudo neste filme é o que parece. E, apesar dessa característica funcionar bem em alguns filmes, neste aqui não foi bem o que aconteceu.

Partimos da premissa já bastante explorada da “tentativa genética de se criar uma arma perfeita”. Apesar de batida, nada contra o ponto de partida da trama, que já rendeu e ainda pode render bons filmes nesse filão, desde que a idéia seja bem explorada. A tal “arma perfeita” é personificada aqui por uma adolescente criada desde a infância em um ambiente inóspito, por um pai que demonstra ser um agente secreto competente. Percebe-se que todos esses anos passados em isolamento, serviram apenas para que a menina se escondesse, ao mesmo tempo em que o pai a ensinava todo o necessário para se proteger caso algum dia fosse descoberto seu paradeiro. Mesmo sem o filme entregar os detalhes todos de cara, quem está habituado com esse tipo de roteiro matará algumas charadas de pronto. Na primeira quinta parte do filme, já vimos pistas o suficiente de que a experiência que resultou no nascimento da menina em algum momento foi cancelada. Que há toda uma divisão da CIA, comandada por uma agente implacável, interessada em que essa informação jamais chegue a público.

Até certo momento, as decisões criativas do diretor parecem funcionar bem. A utilização de conceitos pouco usuais para esse tipo de filme, seja no tratamento visual, seja nos jogos de câmera, e até mesmo certas decisões de roteiro, funcionam bem em alguns momentos. Acaba criando-se um clima diferente, destacando a história e dando um sabor diferente do que outros filmes do mesmo gênero costumam mostrar. Porém, se esse estilo funciona bem em alguns momentos, as mesmas decisões começam a fazer o barco balançar para o lado errado muitas outras vezes, atrapalhando até um pouco mais que ajudando. Em alguns momentos a simbologia poética que ele procura utilizar em certas cenas se perde por não condizer com o estilo da trama, em outros a forma de filmar as cenas de luta e ação parece um tanto inadequada, ou até mesmo datada. Chega-se ao extremo desse aspecto em uma cena onde a personagem principal derruba um inimigo com rapidez, cortando-o várias vezes na área do tórax e pescoço com uma faca, conseguindo a façanha de não vermos uma gota de sangue decorrente do ataque. A questão de

Enquanto os atores estão corretos em seus papéis, certas situações em que o roteiro os colocam não são favoráveis a seus desempenhos. Eric Bana convenceria como um agente recluso que tenta proteger a filha a todo custo, se o roteiro não fizesse com que ele se separasse dela em pontos cruciais da história. Cate Blanchett convenceria como a agente implacável, que quer eliminar tanto pai como filha a qualquer custo, se tivesse cenas onde pudesse mostrar de fato porque é uma agente implacável, ou uma vilã desprezível. Vemos seu modus operandi, mas pouco sabemos de suas motivações. E Saoirse Ronan como Hanna, simplesmente emprestou sua aparência ao personagem, mas pouco contribuiu com algo que tornasse o personagem marcante. Vemos em Hanna uma menina que poderia ter sido interpretada por qualquer outra atriz da mesma idade e característica física. Somado a isso, um elenco de apoio variando entre o pobre e o irrelevante ajudou a balançar um pouco mais o barco do filme. Alguns dos capangas e a personagem da menina que em certo ponto da fuga, faz amizade com Hanna, pareciam ter saído de filmes de comédia, sendo este um dos pontos mais fracos de toda a obra.

Concluo considerando que o filme não é de todo ruim. Como produção, não deixa a desejar. Algumas decisões estéticas, a sacada de mesclar conceitos e simbologias de um conto de fada dos irmãos Grimm a um thriller de espionagem, e a trilha sonora dos Chemical Brothers também é um toque de qualidade e diferenciação ao estilo. Pena que com tantas peças de boa qualidade, o quebra-cabeças final não tenha passado de um filme na média do estilo. Outros já fizeram melhor, com menos.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

A Moça Que Era Brisa

© Nekranea (DeviantART)
Quando eu desencarnei
Não sei dizer bem ao certo
Se aquele canto lá onde cheguei
Era o céu, ou lugar mais perto
Só sei que ao chegar,
Me mandaram esperar
Sentada, paciente
Até vir um atendente
Pra comigo conversar

Entrei numa sala e sentei à mesa
E qual não foi a minha surpresa
Ao saber que tinha que voltar
Com uma tarefa a desempenhar.
Pra pagar a minha estadia
Pro mundo dos vivos iria voltar
Apenas um vento eu seria
Mas era importante o que ia soprar

Meu trabalho era por caridade
Procurar por quem sofreu demais
E fazer esquecer uma parte
Soprar algumas memórias pra trás
Minha tarefa era por piedade
Vetar das memórias alguns sofrimentos
Economizar das pessoas certos tormentos
Pra viverem, ou morrerem com dignidade

E o tempo passou,
E me apeguei à minha função
Deixava leve o meu coração
Ser aquela que com o vento levava
O choro da mãe que embalava
O filho pequeno sem pulsação
Aquela que com o tempo fazia entender
Que mesmo sofrendo é preciso viver
Pra poder ajudar os que ficarão

Até quando acabou o meu tempo
E eu pude partir afinal,
Me disseram, trabalhei a contento
Mas eu me sentia um pouco mal
Pois de todo sofrer que soprei,
Junto também ia um pouco do meu
E agora, eu dizia, se eu chorar
Quem fica pro meu pranto soprar?

Um abraço de luz eu ganhei
“Não vais mais chorar, pequenina
Pois até o pranto sem fim
Nos meus braços um dia termina”
E assim para a luz eu segui
Pra encontrar com o nunca e o sempre
Me juntei ao princípio de tudo
Estive na criação, em seu ventre
E todo o sofrer ficou mudo
E toda a vida voltou
Nesse momento mais uma alma nasceu,
No exato momento que meu vento soprou.

Pesos e Medidas

© Jonas Kussama
No caminho para casa, às vezes me assalta uma preocupação que se mostra mais eficiente que a maioria dos bandidos da cidade. Me assalta um medo meio aleijado, um tanto manco, que me persegue persistente e irritante, apesar da dificuldade em seu claudicante andar. Algo que nunca me alcança, mas tampouco me deixa em paz. Consigo ouvi-lo por cima dos sons do trânsito e do conversar das pessoas. É o som da areia caindo, de minutos indo embora e não voltando mais. Tento em vão segurá-los, impedir sua partida até o momento em que desisto revoltado. Nessa hora só desejo que vão com Deus, e o diabo que os carregue...
A poder de música, consigo negociar alguns sorrisos internos e alguma satisfação um tanto diluída, mas ainda assim genuína. Procuro exercitar minha capacidade de alternar importâncias, e penso no cara que desmanchou o noivado perto do casamento. A noiva, tomada de assalto pelo ódio movido a essas paixões irracionais tão comuns em nosso tempo. Traçou um plano junto à madrasta e ao padrasto esse último um estereótipo ambulante, o típico policial-corrupto-carioca (tudo junto, por serem conceitos cada vez mais indissociáveis, infelizmente) a morte do rapaz. Ele escapou com vida, mas não antes de tornar-se um alvo móvel, e ganhar alguns buracos de bala pelo corpo. Há também o fato do rapaz ter sido mantido em cativeiro e apanhado durante sete horas. E de conseguir escapar, fugir, se jogar em um valão e fingir-se de morto.

Eis que de repente minha volta pra casa adquire novos ares, a música consegue animar meu espírito mais e mais, e até as plataformas de petróleo na baía adquirem os ares poéticos de uma singela letra de bossa nova. Tudo é uma questão de perspecitva, não é mesmo?


Publicado no Recanto das Letras em 23/09/2008

À prova de quase tudo

© Chris Boyd
O mundo é o mesmo, não mudou em nada.
Mas ainda assim estamos aqui, frente a frente
E se a perfeição do destino nos foi roubada,
Se ambos tivemos que nos virar, de repente
E aprender, bem ou mal a assimilar as porradas
Que os bandidos vieram e deram na gente...
Doeu, mas aprendemos. Sobrevivemos.

Nos tornamos capazes de pôr de lado esperança,
E até um pouco da fé nesse mundo selvagem
Mas soubemos proteger o nosso lado criança
Pra não tê-lo estragado, só de sacanagem
Por essa gente tão feia que sempre nos alcança.
Desiludiu, mas aprendemos. Sobrevivemos.

Encontramos falsos amores, casos e promessas
Fomos passados pra trás, subtraídos em valores
Repetimos sem conta: “não me venha com essa”
E descobrimos remédios para aliviar essas dores
E seguimos, pois ainda assim tínhamos pressa.
Enfrentamos, e aprendemos. Sobrevivemos.

Cada um seguiu para um lado, que mais conviesse.
Um tornou-se emissor de emoções, uma fonte
Outro, guerreiro defensor da razão, como prece.
Nos vimos no mesmo campo, no mesmo front
Em lados opostos, mas não inimigos, ao que parece
Lutamos (muito) para aprender. Sobrevivemos.

Hoje encontramos descanso nas cores de uma flor
Nos pequenos e doces prazeres dos tempos de paz
Almas cansadas, habituadas a todo tipo de dor
Recusamos os protocolos, e os códigos, não mais.
Nos achamos, nos reconhecemos em meio ao tremor,
E com o mundo girando, deixamos regras pra trás

Não jogamos, porque o jogo já não há
Não comparamos, pois a vida passa sozinha
Entendemos que há muito que esperar,
Mas que a vontade que de nós se avizinha
É o anseio de viver sem se preocupar
Se o que se aproxima é flor, ou erva daninha.
Sobrevivemos, à flor, e ao veneno.
Eu, Você, sobreviventes ao extremo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Rango



Há mais de uma maneira de se gostar, ou não, de um mesmo filme. Só que às vezes, a gente esquece disso. Ultimamente, temos assistido (me incluo aí, mea culpa mode on) os filmes cada vez mais no piloto automático, como se a razão de ser dessa atividade fosse um simples chegar ao fim da fita e emitir um thumbs up ou thumbs down. Mas este filme foi capaz de me fazer dar um tempo no piloto automático e assistir algo com gosto, não pra dizer se é bom ou ruim apenas, mas pelo prazer do passeio.


Para chamarmos um filme de bom, pesa para o resultado final o desempenho de atores, a mão do diretor, a questão dos efeitos especiais? Claro, tudo isso é levado em conta para que se dê uma opinião sobre gostarmos ou não (e o quanto) de um filme. Mas depois de ter lido algumas críticas um tanto discordantes sobre Rango (2011) de Gore Verbinski, e finalmente tê-lo assistido, percebi tratar-se de um daqueles filmes que pede uma apreciação um pouco diferente. Tive que ir além do trabalho das vozes dos atores, da produção da animação e do estilo que Verbinski imprimiu na coisa toda. Pra captar bem as reais qualidades desse filme, precisei lembrar que às vezes o que de nós mesmos projetamos no filme que passa ali na tela,  é tão importante quanto o filme projetado na tela para nós.


Definitivamente o filme não é pra crianças, e isso se percebe nos primeiros diálogos. Tomando como ponto de partida um viés completamente existencial, assistimos a trajetória de um pequeno camaleão verde que vive num terrário, completamente perdido quanto a  seu papel no mundo. Após um acidente, nosso amigo réptil vai parar em uma cidade perdida no deserto de Mojave, habitada por personagens típicos da região e do imaginário western. Alçado à categoria de xerife após criar de última hora para si a persona destemida de nome Rango, ele tem a partir de então, se não a resposta para o “quem sou eu” existencial, ao menos um objetivo à frente: proteger a cidade e seus cidadãos de seus inimigos.


O que se vê daí pra frente é um desfile muito rico de citações a vários filmes, (mais frequentemente do gênero western, mas não só) pontuados por algumas surpresas interessantíssimas e encenados por “atores” digitais maravilhosamente desenhados. Os animais-personagens são perfeitos ao retratar a feiúra e a personalidade dos habitantes do deserto. A produção acerta tanto pelo lado da história natural, ao mostrar animais perfeitamente reconhecíveis, quanto pelo lado da adaptação desses mesmos animais à aparência e aos trejeitos,  cacoetes, e linguajares dos típicos componentes do universo do oeste americano. Como ponto negativo, destaco apenas alguns vícios trazidos pelo diretor de sua série Piratas do Caribe, o que faz com que algumas vezes, Rango lembre a série citada mais do que o necessário ou desejável. Mas esse ponto não tira o brilho do filme para quem, como eu, pôde reencontrar conceitos e símbolos do velho oeste misturados a uma animação competentíssima, recheada de personagens engraçados e dublados por atores talentosíssimos. Entre os talentos que emprestaram voz para alguns personagens no original em inglês, temos além de Johnny Depp na voz do protagonista, gente boa como Alfred Molina, Harry Dean Stanton, Bill Nighy, Ned Beatty, Ray Winstone, Abigail Breslin, e Timothy Olyphant.

Recomendo para qualquer um que goste não somente do gênero western, mas de animação em geral, com um tom mais adulto. Me diverti. Uma dica: após o fim do filme, assista os créditos finais. O clipe, que acompanha a música título do personagem principal, é um pequeno show à parte.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Limitless - Sem Limites

Assisti ao filme Limitless – Sem Limites (2011) e confesso, com uma ponta de desconfiança. O fato de ter 2 atores de presença arriscada no elenco já era um indício. O primeiro, Bradley Cooper, é daqueles tipos “novo hype” que Hollywood volta e meia tenta empurrar garganta abaixo do público, fazendo um filme a cada 5 minutos. O segundo, um Robert De Niro que já conseguiu ir do topo da montanha, onde era ícone absoluto do cinema até o vale profundo onde moram aqueles artistas cuja presença em um filme pode fazer o mais eclético dos cinéfilos pensar duas vezes antes de assisti-lo.

Girando em torno da corriqueira idéia “cara fracassado que da noite para o dia adquire capacidades extraordinárias”, também precisaria de uma dose de competência para funcionar, visto que no passado outros filmes foram feitos baseados nesta mesma premissa, com os mais variados resultados. E eis que a última coisa que eu esperava acontecer, acontece de fato. Fui surpreendido.

O diretor Neil Burger (O Ilusionista, The Lucky Ones) conseguiu impor à produção não só um ritmo eficaz, como também visualmente interessante. Bem equilibrada entre o comercial e o autoral, a linguagem visual do filme atua como um importante suporte à história e ao clima do filme como um todo. Bons acertos da direção, boa fotografia e efeitos visuais, acrescentaram charme a certas cenas e reforçaram o clima de outras de forma bastante eficiente. Mérito pela escolha de usar os efeitos e a parafernália visual mais como apoio do que como fogos de artifício, o que combinou de forma perfeita com a história, onde a grande mudança acontece em primeiro lugar dentro da mente do protagonista.

Conte-se também o fato de que os atores, em especial o protagonista, estão bastante corretos em seus papéis. Tanto Cooper quanto De Niro conseguem tornar seus personagens críveis, sem descambar para o clichê. E para o desenvolvimento do filme, apesar de um ou outro detalhe ou personagem previsívis ou dispensáveis no roteiro, a conta fecha bem. E para maior de todas as surpresas, numa época de tão pouca inspiração nos filmes americanos, é um prazer encontrar um roteiro em que se chegue a um final bem amarrado. O normal hoje são filmes onde a proposta é boa, onde se supõe ou se espera um bom desenvolvimento de roteiro, mas onde as boas premissas vão cedendo lugar à evolução fraca, culminando em finais muitas vezes constrangedores. Aqui, ao contrário, o que acontece é que mesmo havendo um ou outro detalhe menos cuidado no meio do caminho, o filme encontra um modo de superar esses detalhes e fechar a conta no positivo, e ainda com uma bela gorjeta no fim. Nos últimos tempos, é mais do que se poderia esperar.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Uma crônica sobre nada


Ele acorda meio moído, como se saísse aos poucos de dentro de um caminhão de frigorífico que despencou ribanceira abaixo. O despertador não quer saber de nada, e continua apitando freneticamente, como uma mulher mal-comida. Sem perceber, ele passa uns 5 minutos tentando ignorar o despertador, fazendo cara de não tô nem aí. Estica o braço para abrir as persianas e deixar um pouco de luz entrar no quarto. Olha pro lado, vê a hora. Um minuto passa no visor. O vizinho de baixo já está em atividade. O rádio ligado, tocando um pagode que nunca deveria ter sido composto, de tamanha afronta que representa ao gênero musical. Por sorte a música está em seus momentos finais. Entra a locutora da rádio, dizendo que a rádio é um amor. Ele fica com vontade de mandar a rádio, o compositor da música e a locutora tomarem no cu. Pensando nisso ele levanta da cama.

Pega uma cueca na gaveta, liga seu próprio rádio e se dirige ao banheiro. No rádio, o programa de notícias com locutores metidos a engraçadinhos. Chega até a ser divertido porque os locutores parecem tão fora de contexto que chegam a ser divertidos. É como de um cara que conta uma piada sem graça mas que não percebe que estão rindo dele mesmo e não da piada.

Banho, barba, escovar os dentes, roupa. O maldito inverno não existe no Rio de Janeiro. Um sol que já denuncia um calor incômodo na hora do almoço aparece, tão insistente quanto o pagode que tocava no rádio do vizinho. Ele chega ao ponto de ônibus no horário de sempre, nem muito adiantado nem atrasado ainda, dependendo da boa vontade do trânsito de qualquer maneira. O ônibus comum demora o suficiente para fazê-lo ficar com vontade de pegar o executivo. Mas é besteira. Pagar mais caro, por um pouco mais de conforto, mas ainda assim chegando atrasado se o trânsito estiver ruim não vale a pena.

No ônibus, ele passa pela praia. A visão de um mar que reflete o azul do céu faz com que ele quase se sinta feliz. Não que não tenha seus motivos. Mas para se sentir feliz não basta o mar refletindo o sol. Precisa só um pouquinho mais.

Publicado no Recanto das Letras em 25/06/2006

Aprendendo e Vivendo III


Miguel tentou ignorar o gosto metálico que invadia sua boca. Mas como em todas as outras vezes, aquele gosto estranho chegava assiduamente. Aquele gosto de alumínio. Aquela sensação imbecil de ter mastigado uma lata de refrigerante, que nunca teve sequer uma gota de refrigerante dentro. Como em todas as outras vezes, ele sabia que por mais incômodo que fosse, aquele gosto de metal era apenas um símbolo. Era como o porta-estandarte de um exército de estranhas mágoas e sensações ruins. Alas e alas de lembranças paramentadas em armaduras do mais brilhante ódio passariam em marcha diante de seus olhos. Por dias. Um espetáculo angustiante.

Miguel olhou profundamente nos olhos de Mariana, mas era como em todas as outras vezes. Conseguia perceber o vazio que cada movimento nervoso daquele olhar transmitia. Conseguia ler com clareza as palavras ocultas por trás de cada desvio de olhar. Conseguia cronometrar com precisão de centésimos o quanto tempo além da sinceridade ela lhe exibia seus cada vez mais raros sorrisos. Como em todas as outras vezes, Miguel sentia-se como o típico perdedor, aquele estereótipo cartunesco da primeira metade do século XX. Nu, apenas com um simbólico barril de madeira em torno do corpo, enquanto Mariana sentada em alguma mesa igualmente simbólica contava os valores ganhos no jogo.

Dentre as alas que desfilavam na melancólica parada das lembranças, havia a do sorriso fácil. O sorriso que hoje vinha em escasso racionamento, há pouco tempo atrás fluía daqueles lábios com facilidade quase indecente. Outra ala vinha orgulhosamente representando os olhares e suspiros, os entendimentos sem palavra alguma que fizeram com que Miguel jogasse anos de um bem construído ceticismo no lixo e acreditasse em telepatia, predestinação e vidas passadas. Como em todas as outras vezes, Miguel sentia-se curvar sob o peso do próprio tempo, sob a enormidade daqueles outrora parcos seis meses, agora convertidos em seis milênios, seis mil toneladas, seis milhões de anos-luz.

Bastaram algumas palavras de Mariana. Algumas palavras, uma ou outra atitude, um ou outro olhar desviado. Como em todas as outras vezes, Miguel ignorou seu hipotálamo a avisar-lhe que aquele “eu te amo” veio estranhamente cedo. Como em todas as outras vezes, colocou todas as suas fichas em jogo. Como em todas as outras vezes, não fez um backup externo de seus valiosos sentimentos. E Mariana, alheia a isso tudo simplesmente jogou seu jogo. De uma declaração de amor a um não-sei-estou-tão-confusa, flutuou com a leveza mortal de uma espada samurai, afiada o suficiente para cortar uma peça de seda em pleno ar. Como em todas as outras vezes, Miguel não percebia o menor tom de arrependimento, ou de consternação vindo do lado de lá. Talvez o que mais fazia com que se sentisse ferido fosse essa indiferença extrema, essa frieza que Mariana transmitia em cada movimento agora. Era como se a cada olhar desviado, a cada gesto nervoso, seu ser inteiro afirmasse categoricamente para o esmagado Miguel: Não há nada que eu possa fazer por você.

Como em todas as outras vezes, Miguel entoou a liturgia de seu desamor. Desde as clássicas perguntas sobre suas chances futuras, até o humilhante ato de contrição de esperar pela possibilidade de uma amizade improvável. Como em todas as outras vezes, ele se odiou mais um pouco por querer tanto e conquistar tão pouco. Como em todas as outras vezes, Miguel chorou amaldiçoando-se mil vezes e ao seu eterno retorno, a cada lágrima derramada. Como em todas as outras vezes, Miguel prometeu a si mesmo que não faria igual da próxima vez. E como em todas as outras vezes, fracassou e se tornou nada mais que matéria prima para canções baratas de uma banda indie qualquer.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Os Navegantes


Quero um canto sossegado
Nesse mundo acelerado
Onde o tempo passa tanto,
Tão depressa, até voando
Pra sentar, tomar café
Papear com um bom amigo
Pôr em dia alguma fé,
Encontrar algum abrigo
E descobrir como é

Tem horas que é necessário
Parar para respirar
Chutar o quadro de horários
Tem horas de afrontar
O bom gosto, as etiquetas
As exigências e relógios
Apertar pause no planeta
E ver a vida respirar

Nessas horas eu me vejo
Comungado com eu mesmo
Pensando no que quero
No que faço e no que espero
E não penso em mais nada
Nem trabalho ou namorada
Penso apenas que se eu
Não fizer bem para mim
Se eu mesmo fizer a vida ruim,
Que piloto serei eu?

Se meu barco for errante,
Se perdido ou distante,
Não serei só eu culpado,
Pois que ninguém me garante?

Se esse mundo nos cobra tanto,
Vale mais cuidar de si
Pra não naufragarmos em pranto,
Ou afundar por aí.

Apesar disso, bem vindo seja
Quem quiser se juntar à frota
As regras estão na mesa,
Só resta traçarmos a rota.

Publicado no Recanto das Letras em 08/08/2009

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Quando o fato real vira faz-de-conta


Assisti no fim-de-semana o filme Casino Jack, estrelado por Kevin Spacey. A pelícila conta a ascensão e a queda de Jack Abramoff, um lobista de primeira linha em Washington. Ambientado no período moralmente dúbio do governo de George W. Bush, a história acompanha Abramoff e seu assessor mais próximo tomarem a decisão de comer o fruto proibido do lucro fácil através da corrupção pura e simples. Os dois embarcam a partir de certo momento em um perigoso esquema de faturamento milionário, mas com alto risco. Empenhando a reputação e influência ímpares que Jack tinha amealhado em anos de serviço na Capital, os dois se atolam até o pescoço em um esquema envolvendo cassinos, mafiosos e tráfico pesado de influência.

O que mais impressiona ao assistir-se a um filme desse tipo, é o quanto percebe-se que ainda estamos longe de ter uma democracia digna de ser assim chamada aqui pela terra dos tupiniquins. Assistir a uma história como essa, com a ótica de quem já acompanhou casos como o mensalão, por exemplo, é algo quase surreal. É um filme retratando fatos que aconteceram em um dos países mais criticados e ideologicamente combatidos do mundo. Ao mesmo tempo, um filme mostra o quanto o Brasil ainda tem que comer de arroz-e-feijão para se tornar uma nação de verdade. O corrupto americano vai preso, o senador tem medo de ter seu nome mencionado nos jornais. E quando um esquema de corrupção aparece na mídia, é um Deus-nos-acuda. Os principais operadores do esquema se desesperam quando ficam sabendo que "a casa caiu". Completamente diferente da completa serenidade que a impunidade verde-amarela confere aos nossos poderosos da vez.

Aqui, na terra dos multiplicadores de ganhos à base de consultorias mágicas, no reino do faz-de-conta, no mundo maravilhoso das pizzas, nada disso acontece. A maior justificativa para assistir a esse filme, além da boa interpretação de Mr. Spacey, seria a oportunidade de sentir o quanto é peculiar ver um filme baseado em fatos reais se tornar mais fantasioso aos nossos olhos do que o caos institucional completo no qual vivemos mergulhados. O quanto é surreal percebermos que um filme que mostra fatos que de fato, realmente aconteceram, parecerem a nossos pobres olhos verde-amarelos, a mais pura ficção científica. Chega a ser assombroso. Pobre país o nosso.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Esse tal agora


Sinto falta de um certo instinto
Que guia animais primitivos
Se disser que o tenho, minto
Mas não faltam-me motivos

Às vezes fico assim entristecido
Tomado por uma imobilidade
O coração pesado, ombro caído
Uma tristeza com brevidade

Que logo parte, se vai
Mas que está sempre perto
Meu pensar às vezes atrai
Mesmo quando estou certo

Sinto falta de errar demais
De navegar sem mapa e destino
E sem saber como voltar atrás
Com o abandono de um menino
E a firmeza de uma tenaz
Render tributo ao desatino

Ao mesmo tempo, rio do erro
Rio do engano, do desacerto
Da falta de plano, esse desterro
Da não-partitura desse concerto

Gosto de ver os passos pequenos
Gotículas de progresso, estrelas
Possibilidades, as que vemos
E as chances, de percebê-las

Olho o futuro, e evito o medo
E do passado, a melancolia vilã
Pois cá no meu hoje vive o segredo
De não sofrer nem por ontem,
E nem por amanhã.

terça-feira, 17 de maio de 2011

Loucuras de Amor


Fruto do mundo onírico das artes, da fantasia e do cancioneiro popular, o trecho final da música “Metade” de Oswaldo Montenegro é repetido e reproduzido como um mantra, (em sua grande maioria por mulheres) em perfis de redes sociais e montagens de powerpoints açucarados internet afora. Os versos dizem:

“E que a minha loucura seja perdoada / Porque metade de mim é amor / E a outra metade também.”

Então, voltamos ao mundo real. Nesse nosso cotidiano de violência, os crimes passionais estão se tornando cada vez mais corriqueiros. Talvez venha o tempo em que sequer venderão jornais. Lembrei disso tudo quando pensei nesse crime, o caso Verônica Verone Paiva, em que a moça de 18 anos mata o namorado no motel. Uma coisa puxa outra, e vem à lembrança vários outros crimes recentes, motivados por reações emocionais intensas, desprovidas da menor razão. Qualquer um pode vir argumentar que crime passional sempre existiu, sempre existirá, seja ele perpetrado por homens ou mulheres.

Só que não é esse aspecto da questão criminal que me interessa tratar. Há milhares e milhares de estudos a respeito da forma como a cabeça dos criminosos dá à luz seus resultados infames. No momento atual, e nesse caso em específico, o que me chama a atenção é outro tipo de olhar. Meu interesse sempre perambula pelos arredores desses casos de crimes passionais que aparecem com tanta frequência. Geralmente me interesso em olhar para o que na perifeira do crime, possa oferecer pistas para o que formou a pessoa do assassino (ou assassina). Casos como o da família Richtofen por exemplo, sempre aguçaram esse lado da minha curiosidade e suscitaram perguntas. O que faz uma moça bem-criada, de classe alta, de aparente excelente educação, chegar tão longe na escala criminal? O que deve acontecer durante a vida de um jovem para que as amarras de seus demônios internos se soltem de maneira tão definitiva? Foi esse tipo de questionamento que me veio à mente quando me deparei com o recente crime em Niterói.

Em nossa nova realidade, de novas mídias, de redes sociais e inclusão digital, a expressão do indivíduo é mais clara do que se possa pensar. E a sua responsabilidade, mais fácil de perceber aos olhos dos outros do que se possa imaginar. Essa moça, aos seus 18 anos é uma pessoa nascida nesse novo mundo pós internet. Fruto de um contexto social um tanto distorcido. É bem provável que venha de uma geração de meninas, sejam pobres ou ricas, criadas sendo chamadas de princesas num mundo onde essas não existem. Pelo menos não da forma como a Disney as vende. Muito cedo, é ensinado a essas meninas que suas vontades de consumo devem ser atendidas. Muito cedo, elas aprende que nesse mundo de falsas princesas, de corações, de pseudoencanto e magia fake, o que manda é o coração. São instruídas nesse caminho, de forma irremediavelmente unilateral, por mães zelosamente emocionais e pais desprovidos de qualquer racionalismo ou refinamento crítico. São cercadas de futilidades que mudam apenas de preço, de acordo com a classe social a que suas famílias façam parte.

Ao chegarem à adolescência, com os hormônios em polvorosa e o balanço entre o racional e o emocional já completamente destruído desde a infância, se tornam seres muitas vezes fúteis e invariavelmente consumistas. Professam como religião um mito de amor idealizado e estranho, onde o coração é o símbolo máximo. Algumas carregam essa marca pela vida inteira. Procuram desesperadamente corresponder a padrões de beleza e sensualidade, e as que não trilham os caminhos de uma futilidade fashion mais fundamentalista, acabam por se dedicar de corpo e alma ao culto do coração cor de rosa. Dedicam suas vidas à cata de um amor idealizado, enquanto no caldeirão real que ferve por dentro, outras emoções mais fortes e descontroladas borbulham. Ciúmes, incapacidade de aceitação de perdas, constante desequilíbrio de autoestima, emoções exacerbadas, valores distorcidos. Tudo isso sendo cozinhado há tempos numa panela de pressão que respondendo a algum estímulo externo pode explodir.

Enquanto isso, temos toda uma sociedade construída em torno de conceitos que dizem que “tudo vale a pena por amor”, que “loucuras de amor são lindas”, que “o amor perdoa tudo”, que “tapa de amor não dói”. Temos uma sociedade extremamente hipócrita, onde aceitamos ser agentes de infidelidades, mas jamais as vítimas delas. Onde ainda acreditamos que amar é sofrer. Vivemos em uma sociedade onde as mulheres são estimuladas a serem competitivas e invejosas entre si, a compararem-se à exaustão umas com as outras e a evitarem ao máximo assumir seus erros, sempre tendo uma razão emocional para justificá-los. Nessa nossa realidade, onde as loucuras de amor são tão prezadas e vistas com naturalidade, o que causa estranhamento não são os crimes, mas ainda existirem uns poucos que como eu, se surpreendem quando eles acontecem.

Sim, homens e mulheres cometem crimes passionais. Mas hoje escolhi falar do crime da moça de Niterói. O crime cometido por uma mulher. E quanto à música do Oswaldo, não perdôo sua loucura, senhorita. Pra loucos não se deve bater palmas. Nem mesmo para “loucos de amor”.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Má, Temática

©VinnyPrime

Nunca fui bom em matemática
Minha aritmética, é pouca
A minha voz, já tão rouca
Não pode dar essa aula
Pois que meu coração
É pequeno, ímpar
Talvez, até primo
Não aceita divisão

E o meu coração é estranho
É movido por logaritmos
Mas tem um gostar tamanho,
Uma sede de somar,
Que chega a se multiplicar
Quando o assunto é amar.

Meu coração é a síntese pura
Entre a exatidão de um número
Que aos inexatos tortura
E a incerteza tão bela
Da mais intrincada linguagem
Que mesmo não sendo exata,
É a tinta que compõe a tela
Dessa minha vida abstrata,
Esse mundo mal colorido
Feito de um coração dolorido
E os números de felicidade
E deliciosas estatísticas
Que escorrem entre as físicas
Da minha inexata liberdade.

Minha matemática é torcida,
E minha linguagem é lei,
Se números mudam a vida,
Já o meu destino, não sei.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Pequenos tubos de papel


Saí do trabalho aquele dia numa hora já um pouco passada. Nem tanto para tarde, mas além demais para ser a hora. O escuro já avançava sobre as luzes, que insistiam preguiçosamente acesas. Ainda assim, aquele trecho que eu percorria naquela oportunidade sempre me sugeria um eterno jogo empatado entre as luzes da cidade e as trevas da noite. E à noite, enquanto uns voltavam pra casa, e outros mudavam de lugar, algumas criaturas da noite saíam de suas tocas. E aquela era a hora em que tudo isso se misturava.

Descia a Presidente Vargas desviando de partes molhadas por líquidos que eram tudo menos água. Prestava muita atenção a buracos no calçamento de pedra portuguesa, ou o que era pior, uma das próprias pedras que estivesse solta. Era uma preocupação oportuna, já que tinha eu mesmo torcido o tornozelo tempos atrás, por conta dessa armadilha das calçadas. Bastava que uma pedra estivesse deslocada e solta, com a parte mais lisa virada para baixo, em contato com a parte igualmente lisa de outras que estivessem bem assentadas. Torção, ou tropeço, ou queda, eram todos destinos possíveis ao incauto que passasse por aquele trecho da Presidente Vargas. Um grupo de mulheres muito parecidas passou ruidosamente perto de mim. Mulatas, shorts curtíssimos. Barrigas salientes, laranjas, verdes-limão, jeans, preto, rosa shock, tatuagens péssimas, engrossadas pelo sol. Piercings no umbigo, no nariz, na sombrancelha. Risos, discurso alto, palmas batendo sem aparente razão após uma risada acompanhada de uma inclinação súbita da cabeça para a frente. Pés imundos, metidos em chinelos de plástico colorido e barato, com pequenos laços de plástico nas tiras. Mas as unhas do pé feitas, sem exceção. Uma delas cospe no chão. A mais obesa vira para trás e grita um xingamento para alguém, se real ou imaginário, ignorei. Duas compartilhavam um cigarro.

Parei à espera de uma oportunidade de atravessar a Rio Branco, perto de um carro medianamente luxuoso. Um homem de meia-idade, ainda vestido em seu terno, olhava pela janela do carona com uma expressão que mesclava um profundo desprezo e um ar de poucos amigos. Parecia alguém que tinha acabado de sofrer um enfarte, e aguardava impaciente pelo próximo. Numa das mãos, a que cutucava distraídamente com o polegar no espelho retrovisor, um cigarro aceso entre dois dedos apontava para cima. Atravessei quando um dos sinais fechou. Corri um pouco para evitar um táxi que passou na virada do amarelo pro vermelho. Provavelmente já no vermelho.

Caminhei pela calçada que margeava a Candelária pelo outro lado da rua, alguns passos ao lado de um casal estranho. A mulher tinha um corpo magro e se vestia com roupas que disfarçavam um pouco seus cansados 50 e tantos. O homem que lhe segurava uma das mãos parecia um nerd envelhecido, metido numa combinação de calça jeans, camisa social e botas que ficariam sem dúvida melhores em alguém com metade de sua idade, ou ao menos com uma postura melhor. Apesar de ter cabelos compridos até os ombros e displicentemente desalinhados, presos com um arco, possuía um rosto pálido, envelhecido e de aparência bem pouco saudável, que era complementada perfeitamente por sua forma curvada de andar. Apesar de falar num tom de voz baixo, parecia estar imerso em profundo aborrecimento e contrariedade, e que dirigia toda essa carga, tão negativa quando sua expressão a algum assunto que conversava com sua equivocada companheira. Ela, com o rosto a transparecer um indizível cansaço de vida, trazia na mão livre um cigarro.

Passando o ponto de ônibus, mas continuando na mesma calçada, já me encontrava próximo à esquina com a primeiro de março. Veio em minha direção uma moça jovem, em roupas de trabalho. Morena, cabelos bonitos, com movimentos limitados por uma redondice extrema que tornava seu rosto de outra forma bonito, em uma caricatura redonda. Seus pés, em chinelos que provavelmente usava após sair do trabalho, tinham os dedos espalhados e curvos, como porquinhos querendo fugir de um matadouro imaginário, correndo um em cada direção. Tinha um semblante extremamente cansado, e interrompeu o movimento de remada dos braços curtinhos umas duas vezes para tragar o cigarro que fumava.

Chegando à primeiro de março, me surpreendi com a frequência assustadora com a qual cruzava com pessoas como essa dupla que agora cruzava meu caminho. Sempre ali naquele trecho, sempre via muitas pessoas que me causavam estranheza, por serem tão iguais no desespero que partilhavam invariavelmente: parecerem alternativos, sempre de uma maneira quase industrial. O rapaz, claramente gay, vestido de forma irremediavelmente ridícula, tentando de forma heróica manter no rosto um ar de extrema auto-importância, e uma moça vestida de forma igualmente ridícula, mas com cores que berravam de outra forma ao mesmo tempo em que contrastavam com seu ar estudadamente alheio, quase como alguém que ocupa um corpo e respira oxigênio porque não tem nada melhor para fazer. O rapaz puxa dois cigarros de uma embalagem e passa um deles pra moça. Pouco após passar por eles, um dos sinais da rua fecha e vejo meu ônibus parar. O motorista abre a porta quando faço o sinal, e subo imerso em felicidade por ser proibido fumar no ônibus.

Não era minha intenção, mas naquele momento, conseguia apenas sentir um intenso ódio por aqueles tubos idiotas de papel. E de certa forma, uma vontade de ficar distante de todos aqueles candidatos a zumbi que usam toda a força de um simples vício para tentar justificar com milhares de argumentos, a simples fraqueza que os impede de admitir que não conseguem ficar sem aquela pequena porção diária de veneno para ratos que evoluíram do macaco.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Amar é Ser Inteiro

©2008-2011 ~TheComicFan

Chega de romantismo mofado
Feito de conceitos vencidos
Já há muito ultrapassado
Que agrada aos deprimidos
Que não soa bem aos ouvidos
Exceto dos que amam o engano
Dos que por baixo do pano
Dizem que amam, que muito amam
Mas que mais que tudo,
Se enganam...
E querem viver enganados.

Eis que o Amor é uno, está posto
Amor nasce conosco, e sozinho
Nos transparece, ilumina o rosto
E se torna o fio condutor
De todo o nosso caminho

E sozinhos, equilibrados
Aprendemos que amar (ou ser amados)
É muito mais que mandar recado
Que enviar um powerpoint purpurinado
É amar antes de tudo, a si primeiro
A si em segundo, e a si terceiro
Amar de verdade é estar inteiro.

Eis que não admito ser tampa
Muito menos panela
Nem metade de laranja
Nem a metade de uma cara
Não quero ser vagabundo
Nem depositário da caridade
De um modelo de mundo
Que já se vai tarde...

Quero ter sim, a alegria rara
De ser companhia de viagem
De alguém com sensibilidade para
Comigo sentar e olhar a paisagem

Amar com plenitude é andar ereto
Pois o amor que trazemos guardado
Já deixou pra mim o precioso legado
De me reconhecer completo

Publicado no Recanto das Letras em 28/09/2009

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Oportunidades, opções e feriados felizes


Durante o feriado, entre diversos prazeres proporcionados por um ócio às vezes até criativo (e às vezes nem tanto, só papo pro ar mesmo), pela companhia de uma boa companhia e pelos momentos de tranquilidade advindos disso tudo, acabei batendo de frente com uma velha conhecida: a questão do surgimento das oportunidades. Meu cérebro até então em repouso prazeroso acabou sendo novamente obrigado a trabalhar em pleno feriado. Um assunto que surgia numa manhã recente ainda sonolenta, e que conseguiria mudar um pouco o curso das coisas, pelo menos no âmbito dos meus humores. Um tema que vez por outra retorna para se entrelaçar com o tecido da minha vida, como um fio estrangeiro, de cor berrante, a destoar da minha trama. E quando vem, é sempre acompanhado do incômodo de trinta e seis, quase trinta e sete anos de “e ses” indesejáveis e inúteis, que nada fazem além de me trazer melancolia e tentativas de culpa, e diminuição das minhas ambições a sentir-me feliz.

Volta e meia ouço alguma pessoa declarar o quanto diferente de como eu faço, aproveitaria a oportunidade de ter uma “porta de saída” daqui. De ter parentes no exterior, de ter um (segundo eles) caminho de escape para um mundo melhor. Volta e meia sinto o calor da vontade de outros em partirem de seus desconfortos e dificuldades, de se desfazerem de suas revoltas com a forma com que as coisas são aqui, em seu lugar de origem. É algo comum, é algo que há bastante tempo acontece. E que invariavelmente, me põe a pensar. Que inevitavelmente me deixa introspectivo e arredio, que me coloca em “filosofia mode on”. Já pensei e repensei milhares de vezes se sou tão somente arredio a mudanças, se minha zona de conforto é deveras confortável, ou se minha ânsia por aventuras e diferentes caminhos é pequena. Já pensei e repensei todas essas prováveis acusações que as pessoas podem vir a fazer, seja de frente ou seja de costas para mim. Já pensei, repensei, trepensei até. E a única coisa que vem é minha história de vida me relembrando e talvez me acalmando, me trazendo os pés para o chão novamente. Minha vida pode até ter sido farta em opções, mas jamais em oportunidades. Posso ter tido várias escolhas, mas essa coisa tão boa que o senso comum resolveu batizar de oportunidade, essa, que as pessoas falam com a boca cheia, como se fosse um prêmio de loteria, ou algo enormemente desejado? Não, dessa aí, eu tive bem poucas. E garanto que as poucas que tive eu aproveitei com o senso de um beduíno encontrando um oásis no deserto.

Opções e oportunidades, no âmbito da minha interpretação e da minha vida são coisas diferentes. Opção é algo que você escolhe, que em algum momento você tem o poder de decidir, mesmo que depois isso te leve por caminhos não mais escolhidos. Opção é você escolher qual carreira irá seguir, qual faculdade irá cursar, se vai continuar na sua cidade ou se vai morar em outra, se vai pagar um apartamento sozinho ou dividir com alguém. Isso é opção. Oportunidade é outra coisa. Oportunidade não é você ter um parente morando no exterior, simplesmente, mas ainda ter que se submeter a toda a via crucis de precisar de vistos e passaportes e correr o risco de não conseguir. Não é oportunidade quando um curso que você desejaria fazer, que quando feito, aí então talvez se convereria em um diferencial que talvez gerasse mais oportunidades para você, é caro demais para que você possa pagar. Oportunidade não é você ter a escolha de fazer o que quiser e o que bem entender da sua vida. Oportunidade é quando a vida te abre uma porta, e você entra por ela. No meu humilde tempo nesse planeta, foram poucas portas que se abriram, e passei por todas. Algumas tive que me ensaboar e me espremer por elas, de tão estreitas que eram.

A real oportunidade de que falo, aquela porta aberta linda, iluminada e bela, é você ter alguém que pague para você toda a educação que você escolher, e ainda assim escolher não fazer sequer a faculdade. Oportunidade é você ter recursos e apoio familiar para se tornar um empreendedor, e escolher gastar em noitadas, em seu carro, em drogas. Oportunidade é você fazer o curso que sua empresa te paga porque ela tem um programa de incentivo ou algo que o valha, mas no final é apenas a oportunidade de fazer um curso e você vai lá e faz. E quando termino esse tipo de conversa comigo mesmo, às vezes é comum me tornar impaciente com os outros. Com os que estão à minha volta, sejam eles quem forem.

Descobri com o passar do tempo que jamais duas pessoas conseguirão enxergar uma mesma oportunidade do mesmo jeito. A oportunidade verdadeira muda de cor de acordo com o olhar de quem a observa. Talvez por isso alguns não consigam enxergar o valor das oportunidades que tiveram e perderam. Talvez por isso alguns outros vejam valores inflacionados em oportunidades que são apenas opções, e talvez ainda, hajam por aí oportunidades escondidas que apenas os olhos antenados com as suas cores sejam capazes de enxergar. E quando mais uma vez o assunto me assalta, acabo fortalecendo minha vontade de proceder como acho justo para com a minha visão de paz interior, e reafirmo a minha capacidade de escorregar através das escassas portas que se abrem no meu cotidiano.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Um trem com destino à parede

Tunnel Vision - Wile E. Coyote - © Chuck Jones

Há momentos em que tudo que desejamos é controle. Controle sobre nós mesmos, controle sobre o tempo, controle sobre vários aspectos da nossa vida. E o sofrimento gerado por não termos, na maioria das vezes, como ter posse desse controle é capaz de partir-nos, de tornar-nos pedaços. Somos transformados em fragmentos de pessoas, que andam pelas ruas, que circulam em seus carros, sempre em busca de suas partes perdidas. É muito triste sentir-se fragmentado, e mais triste ainda olhar em volta e ver que a maioria das pessoas procura seus fragmentos perdidos em lugares que nada oferecem nem acrescentam. Sinto-me sozinho na busca por referências no exato momento em que olho em volta e enxergo destroços ainda mais caóticos que os meus. E como num mercado das pulgas de destroços, cada um procurando nos cacos do outro, peças para completar o vitral quebrado em que se transfigurou.

De um lado, pessoas entregando-se a crenças falidas, procurando um conforto ilusório que pouco ou nunca vem. Crenças que geram preconceito, que geram morte, ganância e violência. De outro lado, aboletam-se em uma busca intensa e obsessiva por prazeres que são via de regra, tão ou mais vazios que a própria busca. Através dessa procura incessante, encontram de maneira implacável a doença, a perda da qualidade de vida, a limitação da própria liberdade.

E no meio disso tudo, os poucos que conseguem enxergar um milímetro além sofrem mais. Sentem dor ao verem com mais clareza o tamanho da cilada que nossa própria sociedade armou pra si mesma. Somos um trem sem freios, puxando tanques e tanques de nitroglicerina rumando a toda velocidade para um túnel de desenho animado, pintado numa sólida parede. Por todo o trem, aqueles poucos capazes de divisar à distância a parede se aproximando gritam alertas desesperados. Enquanto isso, em hipotéticos vagões-restaurantes, a imensa maioria brinda em meio ao caos. Eles sorriem e se embriagam, na vã tentativa de preencher um vazio que só aumenta. Eles se embriagam, e sorriem na vã tentativa de esconder a vontade que sentem de passar para o próximo vagão. Eles sorriem e se embriagam, numa última e desesperada tentativa de se esquecerem de que foram treinados para jamais estarem em paz. Eu assisto a tudo isso, e minha embriaguez cessa. Talvez seu fim abrupto seja pela força do pranto que agora molha meu rosto. À medida que os vapores da embriaguez se dissipam, me percebo real. Estou sozinho, e confortavelmente sentado num indefinido vagão-restaurante lá pelo meio daquele mesmo trem em sua inexorável trajetória rumo à parede pintada.